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A obra-prima de Dilma

A imagem para o problema é a melhor possível: a inflação é como pasta de dente. É muito fácil tirá-la do tubo e permitir que ela vaze até mesmo sem querer, lambuzando tudo. O difícil mesmo é colocá-la de volta.

Entre as barbeiragens cometidas pela presidente Dilma Rousseff em seu primeiro mandato, permitir o descontrole inflacionário talvez tenha sido a pior delas. A taxa de 8,13% em março (no acumulado em 12 meses) é uma façanha em um país que estagnou no ano passado e que embica para uma de suas mais sérias recessões neste 2015.

Em países “normais” os preços permanecem sob controle quando o crescimento é baixo, pois empresários não têm espaço para grandes reajustes. No Brasil, essa lógica não estava valendo por alguns motivos: temos uma produtividade baixíssima (menos de 20% da de um trabalhador americano) e uma memória inflacionária terrível, que permite uma indexação (reajustes quase automáticos de preços) geral na economia.

Como vivíamos uma situação de desemprego muito baixo até o início desse ano, a baixa produtividade levava empresários e dar reajustes de salários iguais ou superiores à inflação para não perder funcionários. Isso permitia que na ponta do consumo bens e serviços fossem reajustados na mesma velocidade.

O quadro se agravou neste início de 2015 por conta, principalmente, do reajuste da energia, que respondeu por mais da metade da inflação de março. Vivemos em uma sociedade “elétrica”, e isso terá impactos sobre todos os preços por muitos meses.

Um parêntese: Só o desejo de reeleição explica que Dilma (“especialista” em energia) tenha represado as contas de luz em um momento em que os reservatórios baixavam perigosamente e as elétricas reclamavam de falta de dinheiro para investimentos. Agora, somos obrigados a um forte reajuste de uma vez.

Como o Brasil é um país de gente pobre (67% das famílias ganham menos do que R$ 2.170/mês) tirar quase 10% do rendimento em um ano via inflação é uma enormidade. Isso não vinha acontecendo porque a taxa de desemprego estava baixa, permitindo reajustes de salários. Mas o jogo já virou.

Em fevereiro vimos o desemprego saltar rapidamente de 5,3% (em janeiro) para 5,9%. A taxa de março deve vir feia, um mau presságio para o resto do ano. Será o fim do único ponto relativamente brilhante que restava na economia.

A partir de agora, passaremos a conviver com uma inflação ainda muito elevada por muitos meses, apesar de uma forte recessão. E com desemprego em alta, sem chances de os salários correrem atrás dos preços.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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