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Antologia inédita reúne poemas de Manoel de Barros; leia trecho


10/04/2015

17h12


da Livraria da Folha

“Meu Quintal É Maior do que o Mundo” reúne poemas publicados por Manoel de Barros ao longo de mais de 70 anos. Com obras de cada uma de suas fases, a antologia fornece um panorama da produção literária do autor.

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, no Mato Grosso, em 1916. Aos 12 anos, foi matriculado no Colégio São José, no Rio de Janeiro, cidade onde viveu por mais de 30 anos. Seu primeiro livro, “Poemas Concebidos Sem Pecado”, foi publicado originalmente em 1937. Além de poesias, o autor assina livros infantis e relatos autobiográficos. Foi vencedor do Prêmio Jabuti e também foi premiado pela Academia Brasileira de Letras.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

MANOEL POR MANOEL

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.

SABASTIÃO

Todos eram iguais perante a lua
Menos só Sabastião, mas era diz-que louco daí pra fora
– Jacaré no seco anda? – preguntava.

Meu amigo Sabastião
Um pouco louco
Corria divinamente de jacaré. Tinha um
Que era da sela dele somentes
E estranhava as pessoas.

Naquele jacaré ele apostava corrida com qualquer peixe
Que esse Sabastião era ordinário!

Desencostado da terra
Sabastião
Meu amigo
Um pouco louco.

*

MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO
AUTOR Manoel de Barros
EDITORA Alfaguara
QUANTO R$ 19,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.


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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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