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Cineasta Simião Martiniano será sepultado nesta terça às 11h

Em foto feita no Camelódromo em 2008, Simião mostra os DVDs de filmes que realizou. Crédito: Jaqueline Maia/ DP (Jaqueline Maia/ DP/ D.A.Press)
Em foto feita no Camelódromo em 2008, Simião mostra os DVDs de filmes que realizou. Crédito: Jaqueline Maia/ DP

 
Aos 82 anos de idade, Simião Martiniano morreu ontem de manhã no Recife e deixou uma obra cinematográfica que ganhará continuidade e sempre servirá de exemplo pela maneira como foi construída de forma independente. O cineasta e ator rodou nove filmes, a maioria com os recursos que tinha, sem depender de apoios governamentais ou patrocínios.

“A lenda não morreu. Simião foi embora, mas ficaram os discípulos”, afirma o também ator e diretor José Manoel da Silva, que o considerava um verdadeiro mestre e era um de seus melhores amigos e colaboradores. “Simião era um homem inteligente, inventivo, de humor fino. Deu uma enorme contribuição pro audiovisual pernambucano, apesar de ser mais festejado do que assistido”, lembra Rafael Coelho, da produtora Página 21, que tem desenvolvido uma série de projetos ligados ao cineasta (o próximo a ser lançado é a série de TV Simião Remake, atualmente em fase de finalização).

“Meus filmes deveriam estar em todas as locadoras de Pernambuco. O povo gosta do meu trabalho” (Simião Martiniano)

A produção cinematográfica de Simião Martiniano desafiava padrões culturais e preconceitos. Ele trabalhava com os gêneros cinematográficos que mais gostava e dirigia filmes com elementos principalmente de artes marciais, comédia, terror e bangue-bangue. Elaborou um estilo próprio e criou uma maneira de trabalhar diferente das noções convencionais mercadológicas de produção, distribuição e exibição (montava telões para fazer as projeções). Rotulado como “popular” ou “marginal”, era um gênio autônomo, despretensioso em relação ao glamour, que não se contaminava com as hierarquizações do mundo da arte. Filmou com super 8, VHS e câmeras digitais.

Rafael Coelho lembra que a maioria dos filmes de Simião Martiniano só existe em DVD, muitas vezes com baixa qualidade de imagem e som. As cópias originais estão perdidas. “Ele nos disse que entregou a alguém em São Paulo e não lembra a quem foi”, explica o produtor. Em 2010, na capital paulista, o cineasta participou do projeto Cinema de Bordas, promovido pelo Instituto Itaú Cultural, que reúne filmes de baixo orçamento, de realizadores autodidatas situados em circuitos periféricos.

Em 1998, o curta Simião Martiniano: O camelô do cinema, dirigido por Hilton Lacerda e Clara Angélica, o tornou conhecido nacionalmente e também levou sua obra para festivais no exterior (foi premiado na Espanha, em Bilbao). Na época, chegou a ceder entrevistas para o Programa do Jô (Rede Globo) e para o Provocações (TV Cultura). O título do filme faz referência a seu trabalho como comerciante informal, já que ele vendeu discos usados, fitas cassete e DVDs no Centro do Recife, em locais como o Mercado de São José, a Praça Joaquim Nabuco (ao lado do antigo Cinema Moderno) e o Camelódromo, além de ter sido pedreiro.

O enterro de Simião Martiniano está marcado para hoje, às 11h, no Cemitério de Santo Amaro. Ele morreu na Santa Casa da Misericórdia, onde estava internado devido a um câncer de esôfago. Nasceu no dia 6 de fevereiro de 1932 no vilarejo de Ximenes, no município de União dos Palmares, em Alagoas. Morava em Jaboatão dos Guararapes e sempre filmou em Pernambuco, em cidades como Recife, Pombos, Gravatá, Vitória de Santo Antão e Itamaracá.

Sobre o início da carreira:
Sua aproximação com o cinema começou no início da década de 60, quando ainda trabalhava como mestre de obras. Atuou como figurante em dois filmes dirigidos por Pedro Teófilo, com quem também fez um curso de cinema. Os dois trabalhos não foram finalizados, frustrando suas expectativas. Nessa mesma época, começou a escrever e produzir a radionovela Minha vida é um romance, baseada em fatos de sua vida. Posteriormente, o enredo da radionovela foi transformado em um cordel. Mas, ante as muitas dificuldades enfrentadas, decidiu acatar a sugestão de uma atriz carioca, Greice Neves, que o conheceu na ocasião, abandonando a idéia da radionovela, e adaptando sua história para o cinema. Em 1979, concluiu seu primeiro filme, Traição no sertão, que mistura parte de sua história a boas doses de ficção, com duração de 4 horas, dividido em duas partes. Foi gravado numa câmera super 8.

(trecho do artigo Simião Martiniano, cineasta, mercador de imagens, da pesquisadora Alice Fátima Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro)

FILMOGRAFIA
Traição no Sertão (1979)
A rede maldita (1991)
O vagabundo faixa preta (1992)
A mulher e o mandacaru (1994)
Traição no Sertão (1996, refilmagem)
O herói, trancado (1999);
A moça e o rapaz valente (1999)
A valise foi trocada (2007);
Show variado (2010)

Veja trailer do filme O Herói, trancado (1999):

[embedded content] Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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