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Estresse, "cornetagem" e falta de exercícios afetam saúde de técnicos de futebol

Muricy Ramalho, ex-técnico do São Paulo

Rubens Chiri / saopaulofc.net

Muricy Ramalho, ex-técnico do São Paulo

Muricy Ramalho, ex-técnico do São Paulo, foi o treinador de ponta que mais enfrentou problemas de saúde por conta da fadiga natural causada por momentos de tensão dentro e fora de campo. Foi essa a justificativa dada para ter deixado o clube do Morumbi nesta semana. 

Técnicos de futebol enfrentam todo tipo de pressão no seu trabalho diário. Como todos profissionais, eles estão suscetíveis a cobranças da empresa em que trabalham. Precisam produzir e apresentar resultados. Mas diferentemente de outras profissões, o trabalho do técnico é julgado por milhões de pessoas. Torcedores, imprensa e dirigentes. Tudo em público. E em 90 minutos essa carga pode ser pesada demais.

“Ser julgado o tempo todo e perceber que o discurso para fora é um, e o interno, é outro, também desgasta. A cornetagem também estressa”, avalia Marco Aurélio Cunha, vereador na capital paulista, ex-superintendente do São Paulo e ex-médico do clube.

Em 2011, Ricardo Gomes, ex-técnico do Vasco, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) que quase o matou. Está afastado da função de técnico. Oswaldo de Oliveira, hoje no Palmeiras, enfrentou uma arritmia cardíaca quando dirigia o Botafogo.

Oswaldo se assustou com o que aconteceu com Ricardo Gomes na época. Ele é um dos técnicos que tenta no exercício físico diminuir os riscos para a saúde. “Acompanhei de perto, até porque gosto muito do Ricardo. Fiquei muito preocupado desde quando aconteceu no São Paulo. Mas não por isso. Sempre procurei me cuidar. E, quando a gente vai envelhecendo, a preocupação aumenta”, comentou. 

Até presidentes, como Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, ex-mandatário do Santos, entrou em depressão depois dos desgostos que o futebol lhe deu. Médicos especialistas em medicina esportiva avaliam que o cenário é preocupante. 

Médico, Jomar de Souza deixou o futebol por causa do estresse no dia a dia dos clubes

Reprodução/TV Globo

Médico, Jomar de Souza deixou o futebol por causa do estresse no dia a dia dos clubes

“O técnico de futebol começa a viver situação de estresse no Brasil desde a hora em que é contratado até o momento em que é demitido. Talvez seja no Brasil uma das profissões mais estressantes. E aí a gente se questiona: o dinheiro que eles ganham com isso, vale a pena? Passar o estresse que passam e o risco que isso coloca na saúde dele”, diz Jomar Souza, ex-médico de Bahia e Vitória, especialista em Medicina do Exercício e do Esporte e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. “Manter uma rotina saudável é fundamental”, completou. 

Muricy, antes de sair do São Paulo, falou mais de uma vez que estava atingindo o limite físico e mental. “Esse tipo de situação me preocupa pois eu trabalhei com um dos melhores técnicos do mundo e o vi ficar doente, sei que foi por causa do futebol. O nosso nível é de pensar em futebol 24 horas por dia”, disse Muricy, citando Telê Santana, que se afastou do futebol em 1996 por causa do estresse que o levou a ter uma isquemia cerebral. Ele morreu em 2006, aos 74 anos.

Mas nem sempre a preocupação com a saúde é a única explicação para um desligamento, como foi o caso de Muricy. Para Cunha, não há como comparar os casos de Telê e Muricy, apesar de julgar como estressantes os papéis daqueles que trabalham com futebol, não só o treinador. “O Telê tinha uma doença crônica. O Muricy não tem nada disso”, comentou. “Mas o dia a dia desgasta.” 

John Fox, hoje no Chicago Bears, teve o coração operado em 2013, quando dirigia o Denver Broncos. O estresse agravou o quadro

Ross D. Franklin/AP

John Fox, hoje no Chicago Bears, teve o coração operado em 2013, quando dirigia o Denver Broncos. O estresse agravou o quadro

Para Souza, que trabalhou no Bahia em 1993 e no Vitória entre 1996 e 2002, todos os membros de comissões técnicas, não só os treinadores, estão suscetíveis ao estresse do ambiente de pressão de um grande clube. “Eu não continuei no futebol porque o ambiente é de uma cobrança maior do que eu acho saudável”, avalia. 

Em outros esportes, o estresse atrelado à atividade de técnico também causa preocupação entre os profissionais. Na NFL, liga de futebol americano, dois técnicos se afastaram de seus postos em 2013 por causa do estresse que os levaram a ter problemas cardíacos: John Fox, então no Denver Broncos, e Gary Kubiak, do Houston Texans. 

“Um trabalho estressante é aquele em que há uma alta demanda para produzir algum tipo de produto, como um touchdown ou uma vitória, e baixo controle sobre como essa demanda será atendida”, disse o Redford Williams, diretor do Centro de Medicina Comportamental da Universidade de Duke, ao canal de TV, ABC, dos Estados Unidos. “Se o seu time está perdendo e você está em uma posição de talvez perder o emprego, esse cenário pode ser uma grande fonte de estresse”, comentou.

Tite diz que a fé é uma das suas aliadas para evitar o estresse da profissão de treinador

Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians

Tite diz que a fé é uma das suas aliadas para evitar o estresse da profissão de treinador

Como em todas áreas, exercício físico diminui riscos. Fé também ajuda
O treinador mais badalado do Brasil em 2015, o corintiano Tite, diz que se preocupa com os casos de colegas que enfrentam “o lado ruim” da profissão, mas conta o que faz para ele não ser a vítima do estresse diário. 

“Não sei se mais frequentes. É o convívio e os riscos que a profissão te exerce. Ela te traz uma série de benefícios, mas como tudo na vida ela traz coisas ruins também. O segredo é saber administrar essas pressões. Eu tenho momentos especiais que trago pra mim (para administrar). É a minha atividade, que eu gosto, que sinto prazer. É a minha família estar próxima, isso me deixa em paz. É uma atividade física. É a minha espiritualidade. Esses quatro itens eu consigo trabalhar ele. Essa é a elaboração para que não haja pressão excessiva e eu não corra esse risco de forma excessiva.”

“Eu mantenho uma rotina de exercícios, sim. Durante a semana, três vezes com certeza. Normalmente uma quarta atividade física eu faço, fora o trabalho normal de campo. Eu tenho essa consciência da saúde e o exercício me dá uma condição mental boa, de pensar em outras coisas. É essencial para ter uma semana boa eu ter essas atividades, me ajuda”, disse o treinador.

Além dos exercícios, a fé e a família também são citadas por Tite como aliadas no dia a dia da profissão. Apesar do esforço, ele só conseguiu atingir o peso ideal quando se afastou do futebol em 2014. “Perdi seis, sete quilos nesse período que fiquei fora”, disse o técnico. 

Marco Aurélio Cunha lembra que enquanto esteve no São Paulo, todos os técnicos com quem trabalhou mantinham rotinas de exercícios. Muricy Ramalho, por exemplo, gosta de caminhar. “Ele fazia esteira e se cuidava. Outros também faziam exercícios. Chega numa idade, que qualquer um precisa de exercícios, especialmente quem tem um trabalho mais estressante”, disse o ex-dirigente. 

Foi para atender um pedido da sua esposa que Muricy se afastou do futebol. Na última vez em que esteve internado para tratar da diverticulite, uma inflamação nos intestinos, em janeiro, Muricy já falava da dificuldade em seguir sua rotina.

“Você vem no embalo, numa situação difícil, aí vem acumulando. Não é fácil. E quando você fica sozinho na UTI, você fica pensando mil coisas. Eu tenho três filhos, pô, mas nunca estou com eles. Com minha esposa também não, meus amigos, isso aqui é uma loucura. Vou procurar me acalmar mesmo”. A partir dessa, Muricy terá todo o tempo que julgar necessário para se acalmar. 

Fonte: Ig.com.br

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