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'Inferno na terra' há 30 anos, região na Etiópia se transforma com mutirões no deserto

Chris Haslam

Província de Tigray, Etiópia

Um rio humano flui na empoeirada planície Hawzien, na província de Tigray, na Etiópia. Nem parece que foi essa a região onde, há trinta anos, houve uma imensa fome que chocou o mundo.

O repórter da BBC Michael Buerk foi o primeiro a alertar para a fome bíblica, descrita por ele como “a coisa mais próxima ao inferno na terra”.

Depois, o músico irlandês Bob Geldof escreveu a canção Do they know it’s Christmas? (Eles sabem que é Natal?) – uma pergunta curiosa a ser feita a uma população cristã devota -, organizou o megaconcerto beneficente Live Aid e o problema passou a ser conhecido pelo mundo inteiro.

Assim, Tigray tornou-se sinônimo de refugiados, ajuda ocidental e miséria. A população foi retratada como sofredora, que dependia da boa vontade do resto do planeta para sobreviver.

Mas, hoje, a cena é totalmente diferente.

De fora da aldeia de Abr’ha Weatsbaha, há gente de todos os lados, no que parece um rio humano. É possível ouvi-los antes de vê-los, já que conversam animadamente ou cantam hinos enquanto caminham, carregando picaretas, pás e machados.

A missão deles nesse grande mutirão é cultivar no deserto. “É assim que os reis Axumite faziam as coisas há 2 mil anos”, diz o guia Zablon Beyene. “Com as mesmas ferramentas também.”

Eles foram convocados antes do amanhecer. Às 10h, cerca de 3 mil estão aqui, homens e mulheres, com ferramentas ou as próprias mãos, escavando as encostas, transformando-as em reservatórios planos forrados de rochas para represar a água da época chuvosa.

Aba Hawi, de 58 anos, é o líder comunitário de Abr’ha Weatsbaha e supervisiona todo este esforço.

Baixo e barbudo, anda de um lado para o outro, gritando ordens pelo celular, dando tapas nas costas de trabalhadores e mostrando aos mais jovens como quebrar pedras de meia tonelada.

Rumores dizem que Aba Hawi participou da luta pela independência de Tigray.

Mas hoje em dia ele prefere se descrever como “apenas um agricultor”. De qualquer forma, sua liderança incansável transformou, milagrosamente, esta terra – e tudo em apenas uma década.

Antes, era preciso escavar 15 m para se achar água. Hoje, apenas 3m. E cerca de 38 hectares de terra antes desértica foram transformadas em área fértil.

Famílias agora fazem três colheitas por ano de cultivos como milho, pimentões, cebolas e batatas. A pastagem de ovinos, caprinos e bovinos foi proibida para que novas florestas de eucalipto e acácias criem raízes.

Após uma longa caminhada sob o sol ardente, Aba Hawi exibe, com orgulho, uma grande piscina de água verde, retida por uma enorme barragem construída à mão. “Construímos 85 dessas barragens até agora”, diz.

“Você pode ver como elas funcionam. Estes minireservatórios enchem-se durante as chuvas e são alimentados por águas subterrâneas em épocas de seca. Agora, cada agricultor tem um poço”.

Mas o sucesso traz seus próprios problemas. Agora, Abr’ha Weatsbaha enfrenta a imigração de pessoas de vales vizinhos, que clamam por um pedaço deste oásis.

“Eles não deveriam precisar vir aqui”, diz ele. “Cada distrito em Tigray deveria usar trabalho comunitário obrigatório para fazer isso mas…”, diz ele, com um pouco de falsa modéstia “nem todos os líderes comunitários são assim….comprometidos”.

E já que o temor com a fome vai ficando para trás, ele enfrenta novas exigências. “As pessoas querem eletricidade”, diz.

Esta terra já foi chamada de “esquecida por Deus”. Mas Aba Hawi discorda. “Deus estava aqui quando a terra era ruim”, diz. “E ele ainda está aqui. Mas Deus só vai ajudar aqueles que ajudarem a si mesmos.”

Fonte: Bol.com.br

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