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Livro ambientado na Primeira Guerra Mundial é narrado por uma criança


17/04/2015

10h38


da Livraria da Folha

O aniversário de cinco anos de Alfie foi marcado pelo início da Primeira Guerra Mundial. Quase nenhum de seus amigos pôde ir à festa, e os adultos, mesmo durante as brincadeiras, pareciam preocupados. Alguns deles até tentavam se convencer de que tudo ficaria bem até o Natal, mas sua avó não parava de repetir que eles estavam perdidos.

Sem maturidade suficiente para entender o que realmente estava acontecendo, ele acompanhou as consequências da guerra em seu próprio lar. Seu pai, que logo se alistou para o conflito, desapareceu. Quatro anos depois, Alfie e sua mãe continuam sem fazer ideia de seu paradeiro.

Tudo muda quando o garoto descobre uma pista que indica que talvez seu pai não esteja tão longe assim de casa. Agora Alfie vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para trazê-lo de volta para casa.

John Boyne nasceu na Irlanda, em 1971. Seus romances já foram traduzidos para mais de 40 idiomas. “O Menino do Pijama Listrado”, seu livro mais conhecido, foi premiado com o Irish Book Awards e vendeu mais de 5 milhões de exemplares no mundo. Entre seus trabalhos também estão “A Casa Assombrada”, “Tormento” e “O Pacifista”.

Abaixo, leia um trecho de “Fique Onde Está e Então Corra”.

*

Alfie tentou não dar muita importância à quantidade decepcionante de convidados que foram à sua festa de aniversário. Ele sabia que tinha alguma coisa acontecendo lá fora, no mundo real; alguma coisa sobre a qual os adultos conversavam, mas que parecia uma chatice e não despertava seu interesse. Conversavam sobre isso havia meses; os adultos não paravam de dizer que alguma coisa grande ia acontecer, que afetaria a todos. Às vezes, Georgie dizia a Margie que ia começar a qualquer momento e que eles precisavam estar prontos. Às vezes, quando ela ficava nervosa, ele dizia que Margie não precisava se preocupar com nada, que no fim tudo ficaria bem e que a Europa era civilizada demais para começar uma briga que ninguém tinha a menor chance de ganhar.

Quando a festa começou, todos tentaram se alegrar e fingir que era um dia como outro qualquer. Jogaram batata- -quente, com todo mundo sentado em roda e passando uma batata quente de verdade à pessoa ao lado. O primeiro que derrubasse estava fora. (Kalena ganhou.) O velho Bill Hemperton organizou uma partida de lança-moeda na sala e Alfie acabou ficando três moedas mais rico. Vovó Summerfield deu um pregador de roupas para cada um e pôs uma garrafa de leite vazia no chão. Vencia quem conseguisse soltar o pregador de mais alto e acertá-lo dentro da garrafa. (Nesse jogo, Margie era muitíssimo melhor do que todos os outros convidados.) Mas logo os adultos pararam de brincar com as crianças e se juntaram no canto com uma expressão sombria no rosto. Alfie e Kalena ouviam a conversa e tentavam entender sobre o que eles falavam.

– É melhor você se alistar agora, antes que te convoquem – disse o velho Bill Hemperton. – Vai ser mais fácil para você no fim das contas, ouça o que estou dizendo.

– Fique quieto – retrucou vovó Summerfield, que morava na casa em frente à do velho Bill, no número 11. Eles nunca se entendiam, porque o velho Bill ligava o gramofone todas as manhãs, com as janelas abertas. Vovó Summerfield era uma senhora baixinha e gorducha que usava sempre uma rede nos cabelos e mantinha as mangas arregaçadas, como se estivesse prestes a ir trabalhar. – Georgie não vai se alistar coisa nenhuma.

– Talvez eu não tenha escolha, mãe – disse Georgie, sacudindo a cabeça.

– Xiu! Não na frente do Alfie – pediu Margie, segurando o marido pelo braço.

– Só estou dizendo que essa coisa toda pode se arrastar por anos e anos. Talvez eu tenha mais chances se for voluntário.

– Não, tudo vai ter acabado antes do Natal – respondeu o sr. JanáČek, cujos sapatos de couro preto estavam tão lustrosos que quase todos elogiaram. – É o que todo mundo está dizendo.
– Xiu! Não na frente do Alfie – repetiu Margie, agora levantando um pouco a voz.

– Estamos perdidos, estamos todos perdidos! – choramingou vovó Summerfield, pegando o enorme lenço do bolso e assoando o nariz com tanto barulho que Alfie caiu na risada. Mas Margie não achou tão engraçado; ela começou a chorar e correu para fora da sala, e Georgie foi atrás dela.


Mais de quatro anos tinham se passado desde então, mas Alfie ainda pensava naquele dia o tempo todo. Agora ele tinha nove anos, e não tivera nenhuma festa de aniversário desde aquela. Quando ia dormir à noite, esforçava-se tanto quanto podia para juntar o máximo de recordações sobre sua família antes das mudanças, pois, se lembrasse como costumavam ser, então haveria sempre a chance de, um dia, tudo voltar ao normal.

Georgie e Margie eram muito velhos quando se casaram – disso Alfie sabia. Seu pai tinha quase vinte e um e sua mãe era apenas um ano mais nova. Alfie achava difícil imaginar como seria ter vinte e um. Pensava que seria difí- cil escutar as coisas e que a vista ficaria um pouco enevoada. Ele achava que nessa idade a pessoa não conseguia se levantar da poltrona quebrada na frente da lareira sem gemer e dizer coisas como: “Bom, vocês vão me dar licença, porque já está na minha hora”. Ele imaginava que as coisas mais importantes do mundo seriam uma xícara de chá quentinho, um par de pantufas confortáveis e um casaco macio. Às vezes, quando pensava no assunto, sabia que algum dia ele também teria vinte e um anos, mas esse futuro parecia tão distante que era até difícil imaginar. Alfie pegou um papel e uma caneta, escreveu os números e percebeu que só em 1930 teria essa idade. Em 1930! Ainda faltavam séculos. Bom, talvez não séculos, mas era assim que Alfie se sentia.

Seu aniversário de cinco anos era uma memória ao mesmo tempo feliz e triste. Feliz porque ele tinha ganhado bons presentes: uma caixa de giz de cera com dezoito cores e um caderno para desenhar de seus pais; um exemplar de segunda mão de Robinson Crusoé do sr. JanáČek, que disse que provavelmente seria difícil para ele ler agora, mas que conseguiria algum dia; um saquinho de balas de limão de Kalena. E ele não se importou que alguns presentes fossem chatos: um par de meias da vovó Summerfield e um mapa da Austrália do velho Bill Hemperton, que disse que algum dia Alfie talvez quisesse visitar o país lá no sul e que, se esse dia chegasse, aquele mapa seria muito útil, com certeza.

– Está vendo aqui? – disse o velho Bill, apontando para um pontinho perto do topo do mapa, onde o verde das beiradas chegava no marrom do centro. – Foi daqui que eu vim. Mareeba, a cidadezinha mais esplêndida de toda a Austrália. Tem formigueiros do tamanho de casas. Se você algum dia for para lá, Alfie, diga a eles que é amigo do velho Bill Hemperton, e eles vão cuidar de você como se fosse um deles. Sou um herói por lá, por causa dos meus contatos.

– Que contatos? – ele perguntou, mas o velho Bill apenas deu uma piscadela e balançou a cabeça.

Alfie não soube o que pensar daquilo. Mesmo assim, nos dias que se seguiram, pendurou o mapa na parede do quarto, usou as meias que vovó Summerfield tinha dado, gastou a maioria dos gizes coloridos e das folhas do caderno, tentou ler Robinson Crusoé, mas teve dificuldade (ele guardou na estante para tentar de novo quando fosse mais velho) e dividiu com Kalena as balas de limão.

Essas eram as memórias boas.

As memórias tristes existiam porque foi naquele momento que tudo mudou. Quando o sol nasceu, todos os homens da rua Damley se juntaram na calçada, com as mangas arregaçadas, puxando seus suspensórios enquanto falavam sobre “dever” e “responsabilidade”, dando pequenas tragadas no cigarro antes de beliscar a ponta e guardar a bituca no bolso do casaco para continuar depois. Georgie discutiu com seu amigo mais antigo e próximo, Joe Patience, que morava no número 16, sobre o que era certo ou errado em tudo aquilo. Joe e o pai de Alfie eram amigos desde que Georgie e vovó Summerfield tinham se mudado para a rua Damley – vovó Summerfield dizia que Joe tinha praticamente crescido na cozinha dela – e nunca tinham batido boca até então. Foi naquele dia que Charlie Slipton, o menino do número 21 que entregava jornal e certa vez jogou uma pedra na cabeça de Alfie sem nenhum motivo, subiu e desceu a rua seis vezes, com edições cada vez mais recentes do impresso, e conseguiu vender todas sem nem se esforçar. E aquele dia terminou com a mãe de Alfie na poltrona quebrada em frente à lareira, chorando como se o fim do mundo estivesse próximo.

[…]

*

FIQUE ONDE ESTÁ E ENTÃO CORRA
AUTOR John Boyne
EDITORA Seguinte
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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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