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Mário de Andrade retrata o estado de SP em livro inédito que sai este ano

  • Fundo Mário de Andrade – Série Fotografia-IEB

    Mário de Andrade em sua mesa de trabalho. Imagem presente na Ocupação Mário de Andrade, em cartaz de 28 de junho a 28 de julho de 2013 no Itau Cultural (Avenida Paulista, 149), com entrada gratuita.

    Mário de Andrade em sua mesa de trabalho. Imagem presente na Ocupação Mário de Andrade, em cartaz de 28 de junho a 28 de julho de 2013 no Itau Cultural (Avenida Paulista, 149), com entrada gratuita.

Os 70 anos da morte de Mário de Andrade, completados este ano, não passarão em branco no circuito literário: além de receber homenagem da Flip 2015 (Festa Literária Internacional de Paraty), novidades de um dos principais nomes do modernismo brasileiro já chegaram e estão para a chegar nas livrarias brasileiras ao longo deste ano. Dentre os lançamentos, um é especial: o romance “Café”, obra inacabada e que ainda permanece inédita.

O livro sairá pela Nova Fronteira –casa que ainda detém os direitos do autor, que cairá em domínio público em 2016. A editora atuou em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, responsável pelo acervo de Andrade, em um projeto que já dura mais de dois anos. A obra, que o escritor dizia ser “um romance de oitocentas páginas cheias de psicologia e intensa vida”, deverá estar à disposição do público ainda este ano, sem data definida.

Segundo Priscila Figueiredo, professora de Literatura Brasileira na USP e autora de “Em Busca do Inespecífico”, sobre Andrade, o autor começou a conceber “Café” em 1929, aproveitando notas e esboços do romance “Vento”, que iniciara em 1925, inspirando-se em dois eventos marcantes: uma viagem que fez ao nordeste e a crise do café no final da década.

Ao longo dos anos 1930 e 1940, o autor parou, retomou e novamente deixou de trabalhar no romance. Contudo, alguns trechos foram publicados. Dentre eles, Priscila destaca a série “Vida de Cantador”, que saiu em 1943 na “Folha da manhã”, sobre “um famoso cantor que tinha deslumbrado o escritor durante a viagem ao nordeste e que ele ficcionalmente fazia vir a São Paulo tentar a sorte, tal qual fizera com Macunaíma”.

Entretanto, o personagem, apesar de sua importância, não é o principal da obra. “Em todo o ‘Café’, cujas partes nos chegam em diferentes graus de acabamento, ou inacabamento, o autor de fato intentou figurar a multiplicidade étnica e social que compunha, em suas palavras, a ‘complexidade civilizada de São Paulo'”, explica a professora.

Com isso, Andrade utiliza a economia do café e o seu papel na sociedade para falar do estado e da “extrema fragilidade em que assentava a sua identidade e unidade”. Por conta da crise acerca do produto, que se estendeu para a sociedade como um todo, Priscila diz que a visão do autor com relação à burguesia “se torna ainda mais crítica do que já víamos em obras como ‘Amar, Verbo Intransitivo’, dos anos 20”.

Apesar do livro não ter sido concluído, a professora lembra que o projeto foi aproveitado parcialmente na ópera homônima composta por Andrade e teve um papel relevante na vida do escritor, que costumava conceder entrevistas e trocava cartas com amigos falando a respeito do romance. “Ele mesmo chegou a manifestar que se tratava da sua grande obra”, sublinha.

Priscila aponta diversas razões para “Café” ainda permanecer inédito, mas destaca o “inacabamento” do livro. “É uma obra instável, portanto, não-resolvida, acompanhada de inúmeras notas, esboços, planos, com partes em mais de uma versão e já abandonada em vida pelo autor, abandonada porque grandiosa demais e cujo adiamento mais e mais o torturava”.

Contudo, a professora pondera que o material deixado por Andrade tem grande valor e “sem dúvida ajudará a compreender obras mais ‘estáveis’, como ‘Macunaíma'”, além de revelar muito do processo de criação do artista.

Reprodução

Capa do livro “Eu Sou Trezentos”, de Eduardo Jardim

Graphic novel, ensaio biográfico, cartas e relançamentos

Como já dito, “Café” não vem só. A própria Nova Fronteira também lançará “Macunaíma em SP: O Nascimento de um Brasil”, adaptação de Izabel Aleixo e Kris Zullo para graphic novel de uma das obras mais famosas do autor, e a antologia de contos “O Melhor de Mário de Andrade”. Apenas em formato eletrônico, também recolocarão no mercado “Música de Feitiçaria”, “As Melodias do Boi” e “Pequena História da Música”.

No começo do ano, a Edições de Janeiro já havia lançado o ensaio biográfico “Eu Sou Trezentos”, do escritor Eduardo Jardim, que busca articular a maneira como a vida e a obra de Mário de Andrade se entrelaçaram. Por fim, a Edusp, em parceria com o IEB e com a PUC do Rio de Janeiro, lançará cartas que Andrade trocou com Lasar Segall e com Alceu Amoroso Lima.

Leia a íntegra da entrevista com a professora Priscila Figueiredo no blog Página Cinco.

Fonte: Bol.com.br

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