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Mestre do cinema português, Manoel de Oliveira interrogou mitos e tiranias

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Uma das figuras mais brilhantes da cultura portuguesa e do cinema mundial, Manoel de Oliveira costumava brincar acerca de sua longevidade que lhe permitiu realizar mais de 60 filmes: “Deus esqueceu de mim”.

Oliveira será lembrado como “mestre” do cinema português, apelido carinhoso, mas de respeito temoroso perante sua cinematografia heterodoxa, esteticamente desafiadora e politicamente inquieta. Dedicou-se aos grandes temas de Portugal e da humanidade, interrogando mitos, tiranias e paradoxos.

No primeiro e curto documentário “Douro, Faina Fluvial” (1931), aplaudido pela imprensa internacional e vaiado pela nacional, já demonstrava uma sensibilidade particular para as contradições da condição humana.

Valery Hache – 13.mai.10/AFP
O diretor português Manoel de Oliveira apresenta "O Estranho Caso de Angelica" em Cannes, em 2010
O diretor português Manoel de Oliveira apresenta “O Estranho Caso de Angelica” em Cannes, em 2010

O olhar acerca do descompasso entre tradição e industrialização em sua cidade natal, Porto, revelava uma atenção incomum para o lado humano, conjugando uma linguagem modernista com uma preocupação perene.

O escrutínio do autoritarismo (desde “Aniki Bóbó”, de 1942), das hipocrisias humanas, sobretudo da alta burguesia portuguesa (“O Passado e o Presente de 1972), de um mundo abandonando os valores cristãos (desde “Ato da Primavera”, 1963, até “Espelho Mágico”, 2005), da glorificação da história colonial (“Le Soulier de Satin”, 1985), das ambiguidades e obsessões da alma humana (“Francisca”, 1981) eram as suas principais preocupações.

Por causa da ditadura, Oliveira teve longas estiagens sem filmar, entre 1942 e 1956, e novamente entre 1965 e 1972. A partir de 1979 realizou um filme por ano.

Os períodos de reflexão fizeram dele um dos cineastas mais conscientes de seu ofício, um profundo pensador acerca da arte de filmar.

Em cada filme ele procurava uma solução diferente, mesmo que os planos longos e fixos, a relação intrínseca entre ator e personagem e o forte diálogo com todas as artes -música, pintura, escultura, e, sobretudo a literatura- sejam frequentes.

As adaptações literárias e biografias dos grandes vultos, como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, são comentários eruditos e inventivos acerca da cultura e da condição humana. Ao lado de Camões e Fernando Pessoa, foi preenchida mais uma vaga no panteão da cultura mundial.

CAROLIN OVERHOFF FERREIRA, professora de cinema da Unifesp, é autora de “Manoel de Oliveira – Novas Perspectivas sobre a sua Obra” (Fap-Unifesp, 2013)

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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