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Morre aos 82 o cineasta Simião Martiniano, o 'Ed Wood nordestino'

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O cineasta Simião Martiniano guiava-se por uma série de critérios na hora de testar o elenco que participaria de seus filmes, em geral faroestes ambientados no Nordeste.

“Levo para uma sala e digo: rebole pelo chão feito um cowboy. Dê tiro. Diga: ‘Ai, meu amor’. Mas o difícil mesmo é fazer o cara chorar. Aí é f…, viu”, explicou ele em entrevista à Folha, em 1996.

Autor de filmes desde o fim dos anos 1970, que gravou usando câmeras Super-8 e depois a tecnologia VHS, Martiniano morreu na manhã desta segunda-feira (27), aos 82 anos. Ele estava hospitalizado desde 6 de abril na Santa Casa de Misericórdia do Recife, devido a um câncer no esôfago em estágio avançado.

Alagoano de nascimento, ele se mudou para Pernambuco 1955. Começou a trabalhar como vendedor ambulante, ocupação que dividiria com o ofício do cinema a partir de 1974. Nesse ano ele fez um curso que o ensinou a “montar e desmontar” equipamentos que operavam com películas de 35 mm.

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A preferência pela temática “trash”, com ninjas e cowboys inspirados nos filmes de bangue-bangue misturados a tipos sertanejos, renderia a Martiniano a alcunha de “Ed Wood” caboclo, uma referência àquele que foi considerado o pior cineasta do mundo e tema de um filme de 1994 do cineasta americano Tim Burton. Assim foi retratado no documentário “Simião Martiniano, o Camelô do Cinema”, de Clara Angélica e Hilton Lacerda.

Como o diretor de quem herdou o apelido, o alagoano era um apaixonado pela sétima arte. “Cinema para mim é tudo, tudo, tudo. Sem cinema eu morro.”

Lacerda, diretor de “Tatuagem” e roteirista de filmes como “Amarelo Manga” e “A Febre do Rato” (ambos dirigidos por Cláudio Assis), lamentou em seu perfil no Facebook a morte de Martiniano. “Bastante triste com a morte de Simião Martiniano. Foi um homem de imagens. E vai continuar sendo. Aproveito para agradecê-lo por ter se emprestado para o primeiro curta que dirigi, junto com Clara Angélica. Sua vida foi um filme.”

O recifense Kleber Mendonça Filho, de “O Som ao Redor”, também lembrou o colega na rede social. Compartilhou uma foto dele e escreveu: “Simião Martiniano, faleceu hoje aos 82. Ação, sopapo, traição.”

GROSELHA E TOUCINHO

O cineasta contou à Folha, em 1996, que as ideias de roteiros vinham à noite, antes de dormir. “Primeiro vem um verso e depois o outro verso.” Assim, nasceram as histórias de “Traição no Sertão” (1979), seu primeiro filme, “O Herói Trancado” (1989, no qual o mocinho se chamava… Trancado) e “A Valize foi Trocada” (1992), selecionado para a Mostra Cinema de Bordas, do Itaú Cultural, e “O Show Variado” (2010)

Simião Martiniano estudou só até a quinta série, e definia-se como praticamente analfabeto. Suas principais referências – preferia ver filmes na TV a ir ao cinema – eram os filmes de Mazzaropi e os estrelados por Roy Rogers, que estrelou filmes de cowboy nos anos 1950.

Filmava sempre nos finais de semana, escalando vizinhos e amigos para os papéis de sua produção. Ele mesmo cuidava de detalhes de sua obra, como os efeitos especiais. Para criar os ferimentos, utilizava sangue feito com groselha e farinha. Para fazer os atores chorarem, esfregava cascas de cebola ou de laranja ao redor dos olhos. Em uma cena de “O Vagabundo Faixa Preta” (1992), quando em uma briga um dos personagens arranca com uma faca o coração do outro, na verdade, estava extraindo um pedaço de toucinho.

As fantasias ninja e bangue-bangue de Martiniano, no fim, tinham uma só origem: coisas que ele mesmo viu no interior do Nordeste.

“Eu misturo tudo e lá dentro boto o Nordeste. É para o povo, principalmente a juventude, conhecer o Nordeste”, dizia.

Veja trechos de filmes de Simião Martiniano

“O Vagabundo Faixa Preta” (1992)

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“O Herói Trancado” (1989)

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“A Valize foi Trocada” (2007)

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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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