Últimas

Para artistas, onda conservadora no Brasil é "um retrocesso"

Discordar ideologicamente no Facebook virou sinônimo de troca de ofensas. Um casal homossexual numa novela do horário nobre virou afronta aos “valores da família brasileira”. Protesto contra a corrupção virou manifestação a favor da intervenção militar. Nas redes sociais e nas ruas, não faltam exemplos de que o conservadorismo está em alta nos discursos reais e virtuais na sociedade brasileira. Famosos ouvidos pelo UOL concordam que tanto radicalismo e tanta intolerância só podem ser classificados como um retrocesso.

Para o ator e apresentador do “CQC” Dan Stulbach, a internet facilita a visibilidade e possibilita a reunião de quem compartilha a mesma visão. “Quando um veículo novo surge, vem a excitação e o deslumbramento de ter voz. Antigamente duas pessoas radicais não tinham com quem conversar, com quem se juntar. A internet permite essa guerrilha. Ela promove encontro de todos os tipos e também permite o anonimato. Essa reação a ‘Babilônia’ é inacreditável, uma caretice inconcebível. Parece que o país andou pra trás. Mas essas pessoas já estavam aí antes, só não se manifestavam, não tinham onde se pronunciar. E ainda tem muito político malandro, oportunista, se aproveitando dessa situação”, afirma.

Reprodução Essa reação a ‘Babilônia’ é inacreditável, uma caretice inconcebível. Parece que o país andou pra trás. Mas essas pessoas já estavam aí antes, só não se manifestavam, não tinham onde se pronunciar Dan Stulbach, ator e apresentador

No entanto, Stulbach se diz otimista e afirma acreditar em um amadurecimento da sociedade com todo esse movimento que inclui ainda protestos sem consistência, a “manifestação pela manifestação”. “Eu só ouço o contrário, pessoas desanimadas. Mas me faz bem acreditar que esse é um processo de entendimento, que os radicalismos vão se amolecer com o tempo, que vai haver uma aceitação das diferenças”, conclui.

Para o ator Matheus Nachtergaele, a onda reacionária – que ele acredita acontecer já há um bom tempo – atinge até a classe artística, de quem sempre se espera postura crítica. “Às vezes eu tenho a sensação de que os últimos corajosos assim morreram. Morreu o Cazuza, morreu a Cássia, morreu Raul. Você olha hoje em dia, vou falar da minha seara… eu sinto que há poucos atores corajosos. Não estou falando da exposição pessoal, mas da exposição ideológica. Existe um medo. Acho que o capitalismo gera um medo nas pessoas. Elas têm medo de não serem remuneradas. Então existe sim, uma coisa domada”, analisa.

Divulgação/TV Globo Vejo agora uma certa repulsa à reflexão mais corajosa ou mais poética. Acho que a gente está querendo rir, lavar a alma, sei lá o que que é Matheus Nachtergaele, ator

Segundo o intérprete, o próprio cinema nacional, que passou recentemente por uma forte retomada, está se retraindo novamente. “Tinha um momento que tinha muitos filmes de colhão acontecendo. Agora não. Agora os filmes de colhão são raros de novo. Tenho percebido que os bons filmes a gente não está vendo mesmo. E não tenho visto uma produção de filmes como ‘Central do Brasil’, como alguns filmes que fiz, que tinham bilheteria, mas eram de arte. Vejo agora uma certa repulsa à reflexão mais corajosa ou mais poética. Acho que a gente está querendo rir, lavar a alma, sei lá o que que é”, observa.

A apresentadora Astrid Fontenelle também acredita que muitos discursos raivosos se encontram na internet porque “o anonimato incentiva os covardes”. “Vi outro dia um sujeitinho na internet falando barbaridades sobre a morte do menino Eduardo, morto no Complexo do Alemão, no Rio. Quando ele foi identificado e confrontado por um repórter, ficou muito nervoso e começou a pedir desculpas, disse que também tem um filho, que fez aquilo por impulso. Quando a pessoa dá a cara não tem a mesma coragem, só é valente no anonimato. É um bando de bosta. Uma pena que na vida real você não pode bloquear essas pessoas”, desabafa.

Manuela Scarpa/Photo Rio News A questão da maioridade penal é uma luta inglória. Se você for ver as pesquisas, 80% das pessoas são a favor. Tenho a impressão de que não há discussão real, que as pessoas não leem jornal, não veem televisão Astrid Fontenelle, apresentadora

Ela lembra o período obscuro que o país viveu durante a ditadura e afirma que só quem não estudou não sabe o que é uma intervenção militar. Para ela, falta debate de verdade, e ela procura fazer sua parte. “Meu filho, Gabriel, já encontra o mundo assim, já encontrou preconceito. Talvez sofra mais um pouco, mas tenho esperança de que ele vai fazer a diferença. Por isso que eu discuto, gosto de esclarecer, mesmo que não esteja agradando. A questão da maioridade penal é uma luta inglória. Se você for ver as pesquisas, 80% das pessoas são a favor. Será que elas pensaram que o Eduardo ia virar bandido e iria pra mesma cadeia que vai o adulto? Tenho a impressão de que não há discussão real, que as pessoas não leem jornal, não veem televisão”, questiona.

Munir Chatack/Divulgação/TV Globo Antigamente era sexualidade apenas, independente do gênero. É sexualidade e ponto, não importa se é bi, hétero… Acho importante falar de todos os temas e tratar isso de uma maneira natural Sérgio Marone, ator

O ator Sérgio Marone, que atualmente interpreta Ramsés na novela “Os Dez Mandamentos”, afirma que a sociedade regrediu muito nos últimos 20 anos. E cita a rejeição ao casal Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg) como exemplo a não ser seguido. “Vi o primeiro capítulo de ‘Babilônia’ e achei tudo muito natural. Achei a cena do beijo orgânica, natural, um beijo de um casal normal. Espero que a sociedade encare isso como algo normal, como tem que ser. Nem que a sociedade LGBT comemore e nem que as pessoas critiquem, porque isso é normal. Tem que ter produtos para todos os públicos”, argumenta.

E o intérprete vai além, ressaltando o que chama de regressão no quesito sexualidade. “Tem rótulo para tudo – hétero, bissexual, homossexual. Antigamente era sexualidade apenas, independente do gênero. É sexualidade e ponto, não importa se é bi, hétero… Acho importante falar de todos os temas e tratar isso de uma maneira natural”, analisa.

João Miguel Junior/Globo O mundo todo está enfrentando uma maré conservadora muito significativa, nos Estados Unidos, na Europa, no mundo árabe, em todo lugar. E isso não dá pra ignorar Alcides Nogueira, autor

O autor de novelas Alcides Nogueira lembra, no entanto, que essas são questões enfrentadas não só no Brasil. “O mundo todo está enfrentando uma maré conservadora muito significativa, nos Estados Unidos, na Europa, no mundo árabe, em todo lugar. E isso não dá pra ignorar. A defesa da diminuição da maioridade penal me causa arrepios. Mas ainda acredito na boa e velha teoria de Hegel (o filósofo alemão Friedrich Hegel) da tese, da antítese e da síntese. Ainda vamos chegar lá, sei lá quando, mas vamos. Sou um otimista”, opina.

* Com colaboração de Beatriz Amendola

Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *