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Qual a boa?

Em São Paulo, nós jovens metidos a moderninhos estamos sempre perseguindo A BOA. Por trás de nossas barbas e coques milimetricamente arquitetados (ainda que feitos despretensiosamente, como se fosse apenas uma “preguiça do cabelo”), somos serzinhos infelizes, à procura incessante de algo para se fazer “na companhia de pessoas que possam reafirmar a nossa condição de pessoas parecidas com essas pessoas”.

A boa quase sempre é complicada, suja, pequena, com um serviço terrível, no frio, numa rua com cheiro de resto de feira, não tem nome, não tem entrada, não passa táxi, o Waze nunca ouviu falar, você tem certeza que é perto do Ceagesp, mas talvez seja Bexiga ou Barra Funda. Não, para tudo: Sala São Paulo! A gente sempre acha que é perto da Sala São Paulo e não é. E um tiozinho do crack sempre está na espreita do momento em que esmurraremos o volante: “mas onde é que fica essa merda de lugar?”. Não, ele não quer te assaltar, ele quer dizer “entendeu por quê?”.

O centro: esse lugar maravilhoso pra se admirar durante o dia via transporte público, visitar museus, prédios históricos. Mas o falso hipster (e todo hipster é um falso hipster) quer saber como estacionar sua Pajero às duas da manhã no cantinho esmegma da hora. Ele quer saber se o valet deixa no estacionamento ou na rua. A menina ao lado pensa: “não era mais fácil jantar a pé no Charlô, que porra esse coxa tá inventando, se nem blindado esse carro é?”.

Nosso coraçãozinho pede “desencana dessa lama e ‘bora’ curtir um seriadinho embaixo do cobertor”. Em mais de trinta anos a boa sempre se mostrou uma grande patuscada com toques adocicados de dor na lombar e privadas impraticáveis. Você demora duas horas pra achar o lugar, meia hora cada vez que quer mijar e de vida útil feliz ficam aqueles cinco minutos em que “parece que a coisa agora vai”. Vai pra onde? O que é ir? Que coisa é essa? Por que saímos de casa, pelo amor de Deus?

A modelete sempre vai embora com o diretor de cinema, que sempre vai dirigir pior que o seu amigo artista que nunca vai dirigir nada além daquele curta sobre “o nada”. A gatinha louca coque gigante bracinho fino com peitão tá te dando mole. Mas ela também tá dando mole pra uma menina louca coque gigante bracinho fino coxas à mostra. Elas vão juntas passar batom. Você achando que estava numa quebrada em Berlim com promessas de suruba desenfreada, mas está na hora do recreio do Vera Cruz. Quinze minutos na boa e você já começa a desejar fortemente a sua cama quentinha.

Sim, é AQUELE escritor. E ele está com aquele artista. Devem estar falando de coisas muito sombrias e eruditas… Eles estão olhando a bunda da modelete que está indo embora com o diretor de cinema e a gatinha louca coque gigante rodopiando como um peão prestes a desmontar, enquanto comentam como pode aquela cerveja custar tão caro só porque é lugarzinho da moda. “Que se dane”. Como se fossem superiores a nós, que estamos no lugarzinho da moda. Mas se eles também estão lá! Depois deles, sobram os WANNABE. Toca o alarme: hora de ir embora. “Evite ser visto com eles” deveria ser campanha pública. Dengue é fichinha perto da humilhação que é, em São Paulo, “andar com gente que quer andar com gente”.

Mas você ainda não está pronto pra desistir. Vai que essa boa é finalmente THE ONE. Vai que todas as boas existiram apenas pra te levar até esse momento. Vai que por trás daquela porta modorrenta de um galpão terrível tinha uma escada medonha que levava a um subsolo medíocre e chegando lá… E você, mesmo maduro, mesmo tendo Now, Netflix, AppleTV americana, cônjuge, aplicações, linhaça moída, frango Korin, você não se aguenta e vai tentar descobrir qual é a boa.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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