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Sobrevivente relembra como foi fugir de Saigon aos EUA há 40 anos

Meu pai tinha 27 anos quando fugimos de Saigon em 29 de abril de 1975, uma noite antes da cidade cair para os norte-vietnamitas. Assim como seus três irmãos, ele esteve no Exército Sul-Vietnamita, lutando e perdendo o que é conhecido no Vietnã como Guerra Americana.

Na noite de 29 de abril, meu pai olhou para suas duas filhas pequenas: minha irmã, 2 anos, e eu, com 8 meses. Já era tarde. Era nossa última chance. Então ele, meus tios e minha avó tomaram a decisão.

Eles nos pegaram, encheram uma mochila com roupas e alimentos e então deixamos nosso lar definitivamente.

Até hoje, meu pai diz que foi a sorte que nos levou em segurança até o rio Saigon de moto. Foi sorte termos chegado até um barco que nos levou a mar aberto, onde um navio americano nos aceitou e nos levou a um campo de refugiados nas Filipinas. Posteriormente, fomos para os Estados Unidos e nos estabelecemos em uma pequena cidade em Michigan, recomeçando em uma nova língua.

Assim, eu cresci com uma segurança que meu pai nunca conheceu. Apesar de termos vivido naqueles primeiros anos em um bairro decrépito, marcado por cercas de arame farpado e placas de “Cuidado com o Cachorro”, nós estávamos longe da ameaça de uma guerra. Nós tínhamos uma televisão, que nos dava notícias da vida americana, comerciais e sitcoms. Para mim, o inglês foi imediato e fácil. Para meu pai, cada palavra podia ser uma luta.

Em uma das minhas primeiras lembranças, nós estávamos em uma loja de ferragens. Nós percorríamos os corredores, à procura de algo que meu pai não conseguia encontrar. Finalmente, ele precisou pedir ajuda. Mas ele não conseguia descrever o que precisava; ele não tinha as palavras. O atendente olhava para ele e falava mais alto. Meu pai começou a se enfurecer, o que piorava seu inglês. Finalmente, ele balançou a cabeça e saímos da loja de mãos vazias. Eu nunca descobri o que ele estava procurando. Já naquela época, eu sabia o suficiente para permanecer calada. Eu não ousava olhar para meu pai por temer o que veria em seu rosto.

Mas eu vejo isto: apenas o inglês serve neste país. Por grande parte da minha infância, eu fiz pouca coisa fora ir à biblioteca ler livros. Eu lia tudo o que encontrava em casa: manuais de instrução, a parte traseira das caixas de cereal. Eu peguei literalmente as palavras “literatura inglesa” e comecei a ler Dickens e Austen, Hardy e as irmãs Brontë. Cuidava para que as palavras que conhecia combinassem com o país em que vivíamos, independente do custo ser a língua vietnamita, que foi desaparecendo da minha mente como se empurrado para fora por todas as palavras em inglês que fui aprendendo. Eu não sabia como conter ambas. Eu não sabia como viver em ambos os mundos ao mesmo tempo.

De certo modo, meu pai também não. Ele era tanto um homem jovem quanto um que envelheceu rapidamente. Por escolha e por circunstância, ele nunca seria plenamente americano. Seus amigos, reunidos na crescente comunidade dos imigrantes vietnamitas na região oeste de Michigan, pareciam iguais. Suas festas iam até tão tarde que todos seus filhos acabavam quase empilhados juntos, dormindo no chão do porão de alguém quando seus pais acabavam com o conhaque e com o carteado.

Meu pai sempre queria ficar: ele queria estar onde pudesse ser vietnamita de novo. Ele era sempre alegre com seus amigos, seu próprio riso soando mais vietnamita que americano. Em casa, tínhamos que lidar com vizinhos que desaprovavam quando meu pai convidava seus amigos ou quando grelhava camarão e espetinhos de frango satay no quintal. Em casa, ele às vezes se enfurecia. Um prato era atirado na parede. Gritos de cale a boca, faça silêncio. Certa vez, quando eu tinha 12 anos, ele me deu um tapa porque olhei para ele de modo errado. Talvez eu não devesse admitir isso, já que eu sabia, mesmo enquanto estava acontecendo, que aquilo não tinha nada a ver comigo.

Décadas depois, meu pai e eu nos sentamos e pesquisamos no Google uma resposta para uma pergunta que não consigo lembrar agora. Nós pesquisamos no Google porque podíamos, porque o mundo da informação estava diante de nós.

De repente, meu pai disse: “Quem dera tivéssemos isto quando vocês eram pequenos. Havia muito que não sabíamos”. Meu pai e eu não costumamos conversar assim. Na minha mente, nós raramente falávamos um com o outro enquanto eu crescia. Eu tinha medo dele e medo por ele; eu permanecia fora do seu caminho. Então eu disse a única coisa em que pude pensar: “Sim, as coisas eram mais difíceis naquela época”.

Posteriormente, eu quis prosseguir, lhe dizer que me perguntava como era ter 27 anos e ter aquela coragem, de tomar uma decisão de mudar para salvar o futuro de sua família.

Meu pai ainda é um estrangeiro nos Estados Unidos. Ele é o único dos seus amigos e irmãos que não voltou ao Vietnã. Ele diz que voltará, assim como diz que algum dia se tornará cidadão americano –algum dia. Ele simplesmente não gosta de aviões. Mas não consigo deixar de pensar que ele tem medo de voar para casa. Ele ainda mora em Michigan, perto de onde chegamos como refugiados.

Na época, quase não havia asiáticos na área. Agora há praticamente um enclave vietnamita, ruas onde restaurantes vietnamitas e placas vietnamitas prevalecem sobre os americanos. Agora, os brancos vão ao mercado Saigon o tempo todo.

A queda de Saigon, a guerra, as decisões, as consequências: eu ainda não sei como explicar tudo isso aos meus filhos, que ainda são pequenos demais para exigir respostas. Eles não precisam imaginar –eu não tenho que imaginar– deixar nossa casa e tudo o que conhecemos no meio da noite, cheia de medo e preocupação, sem saber onde acabaremos ou se sobreviveremos. O fato de não termos que imaginar isso é um presente americano, carregado de complicação histórica, carregado de fatos de tanta perda.

Eu decidi ligar para o meu pai e perguntar o que ele pensa a respeito do 40º aniversário da queda de Saigon. “Foi há muito tempo”, ele diz. “Não quero pensar a respeito. Não é algo para celebrar. Significa que você definitivamente tem 40 anos.”

Ao que respondo, “Obrigado, pai”. E, “mas também significa que suas filhas cresceram para se tornarem totalmente americanas”.

Ele faz objeção a isso. “Não esqueça que vocês nasceram vietnamitas.” Eu começo dizendo que é verdade. Mas que não é a resposta correta. A resposta que lhe dou, por tudo o que significa, por todo o cuidado, silêncio, gentileza e fúria por trás dela, a resposta que ele deseja ouvir, é: “Não esquecerei. Eu nunca esquecerei”.

*Bich Minh Nguyen é autora de três livros, mais recentemente “Pioneer Girl”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato
Fonte: Bol.com.br

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