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Aos 50 anos de carreira, Gal Costa diz que aura de diva permanece

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Não bastavam os apliques. Sentada num banquinho, Gal Costa precisou ser abanada por seu cabeleireiro, que improvisou um leque enorme com revistas velhas para fazer voar sua juba nos retratos que fez para esta entrevista.

“Minha imagem é essa que você está vendo. Não é que eu chego em casa e me acho uma diva, mas essa aura é verdadeira”, diz a cantora. “Ninguém vê uma diva onde não existe. Não estou mentindo.”

Voltando à velha pose da leoa devoradora de homens e mulheres que plasmou no auge da tropicália, Gal, na verdade, diz estar se preparando para dar mais um salto em sua carreira de 50 anos com o disco “Estratosférica”, que chega agora às lojas.

Juntando composições de nomes da cena atual, como Mallu Magalhães, Criolo, Céu e Junio Barreto, e alguns veteranos, como Tom Zé e Milton, ela diz ter feito um disco “jovial, fresco e alegre” com uma “sonoridade jovem e louca, mas não radical, palatável.”

Do alto de seus 69 anos, quase 70, com três shows em cartaz e pronta para ser tema de um documentário, ela diz na letra da canção que abre o novo disco, “Sem Medo Nem Esperança”, que “nada está à altura do que há por fazer”.

Gal Costa

Leia os principais trechos da entrevista com a cantora.

Folha – Mesmo chegando aos 70, você mantém a imagem de diva tropicalista do início da carreira. Essa pose de musa resiste à passagem do tempo?

Gal Costa – Minha imagem é essa que você está vendo. Vai ser sempre ligada ao tropicalismo. Tenho uma história rica, de muita mudança física, musical e comportamental. Isso fica marcado.

Permanece essa aura da diva. Acho ótimo. O que posso achar? Eu sou. Ninguém vê uma diva quando você não é. Não é que chego em casa e me acho uma diva, mas essa imagem é verdadeira. Não estou mentindo, só o aplique. Cortei meu cabelo, me arrependi e aí resolvi botar esse aplique igualzinho ao meu cabelo.

Existe também uma sensação de recomeço, de que estou fazendo uma coisa ligada a meu trabalho passado. Sou tudo isso, estou revivendo um momento que é meu.

Que relevância tem a tropicália para você nesta idade?

O tropicalismo foi uma grande descoberta para mim. Ouvia muito Janis Joplin, Jimi Hendrix e me deu vontade de romper com aquilo que eu achava sagrado, que era cantar como João Gilberto. Todos os jovens que hoje fazem música olham para o tropicalismo. E essa era virou mesmo uma espécie de mito.

Desde “Recanto”, seu último disco, você tem atraído um público mais jovem. E agora está gravando algumas composições de novos músicos.

A ideia era fazer um disco fresco, jovial, palatável, que fosse uma continuidade do “Recanto”, mas não radical demais, com uma sonoridade louca e jovem. Marcelo Camelo eu adoro porque ele faz um rock meio bossa nova. A Mallu Magalhães eu conheço desde o começo da carreira. A parceria do Criolo e do Milton Nascimento resultou numa canção de grandeza incrível.

Por que você escolheu a canção composta por Mallu Magalhães, “Quando Você Olha para Ela” como single do disco?

É jovial, alegre, leve, uma música bonita e tem tudo a ver com a minha voz, que tem uma leveza, uma pureza.

Também há uma química muito forte com os veteranos, como Tom Zé, não acha?

O arranjo da música dele beira o radical. “Por Baixo” é libidinosa. Mas o Tom Zé comigo tem sempre essa atmosfera. Nós fomos namorados no passado. Ele já disse, eu já disse, então está dito.

Você também sempre trabalha com Caetano Veloso e ele assina uma canção do disco. Como vai a relação de vocês?

Nossa identificação musical nasceu da paixão pelo João Gilberto. Não sei explicar, mas ainda acho que Caetano ainda é o cara que melhor compõe para mim. Parece que ele ouve a minha voz cantando aquilo, faz uma letra apropriada para mim que muito me comove como “Vaca Profana”. Puta merda, tem muita coisa maravilhosa.

Numa entrevista recente, Maria Bethânia disse que você se “afastou da música” e perdeu contato com ela, Caetano e Gilberto Gil. É verdade?

Nos anos 1960, a gente praticamente morou juntos. Hoje a gente se vê menos, porque eu moro em São Paulo, eles moram no Rio. A gente se fala, mas com menos frequência. Não vejo Bethânia há algum tempo, não tenho muito contato. Mas não é que eu tenha rompido com ninguém. Tenho o maior carinho e respeito por Bethânia. É tudo fofoca de jornal.

Você se incomoda com a crítica? Em 1994, seu show dirigido por Gerald Thomas sofreu muitos ataques. Dizem que você se retraiu depois disso.

Se eu fosse ficar um tempão sem cantar porque a crítica bate em mim, não ia cantar nunca. Criaram uma polêmica muito grande com aquele show. Era ousado, porque eu mostrei os seios e entrava no palco como um gato. Era tudo muito estranho e bonito. As pessoas se incomodaram porque queriam que eu entrasse como uma diva.

Fernanda Montenegro me disse: “Gal, você é admirável. Não falou mal do Gerald Thomas”. E eu dizia a Gerald: “Porra, ser polêmico é uma canseira. Toma tempo”.

Outro grande parceiro que você teve, só que no campo visual, foi o Hélio Oiticica. Como surgiu essa amizade?

Quando eu fui para o Rio, nos anos 1960, conheci Hélio. Ele fez o cenário do meu show na boate Sucata, como se fosse uma jaula de filó. Era uma boate de gente chique do Rio, e elas tinham que entrar naquela trilha confusa. Ele fez também a capa do disco “Legal” e o cenário do show. Tinha um prateado atrás, e eu usava um vestido preto, que mostrava as pernas.

Acha que Oiticica fez uma tradução visual da sua música?

Ele fazia aquelas loucuras, que eram lindas. Uma tradução visual da minha música seria uma mescla de uma coisa meio perfeccionista com algum emaranhado, uma coisa meio confusa, louca.

Você sempre passou essa imagem de liberdade e hedonismo, mas não deixa a vida pessoal transparecer. Por quê?

Minha vida pessoal interessa a mim, não a ninguém. O que interessa às pessoas é meu canto, meu trabalho.

Liberdade é um valor que eu passo, mas você não precisa se arreganhar para passar isso. É só você ser. As pessoas nascem com bom caráter ou mau caráter. Eu nasci assim.

ESTRATOSFÉRICA
ARTISTA Gal Costa
GRAVADORA Sony
QUANTO R$ 25

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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