Aparato para trazer Beira-Mar a julgamento custou R$ 180 mil

Pelo menos R$ 100 mil de combustível para avião, R$ 50 mil de diárias aos 220 agentes e mais R$ 29 mil equivalente a um dia de salário — totalizando R$ 180 mil —, é o valor que os contribuintes vão tirar do bolso para financiar o julgamento do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. O criminoso, que veio do Presídio Federal de Porto Velho, Rondônia, começou a ser julgado ontem no Rio, acusado da morte do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, e outros três presos que estavam em Bangu 1, em 2002.

O bandido cumpre 189 anos de prisão por sentenças em pelo menos quatro estados — só no Rio, a pena chegou a 133 anos. Uma delas foi por ter ordenado a morte de três pessoas na Favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, na Baixada(64 anos). Agora, se for condenado novamente, Fernandinho poderá pegar de 48 a 120 anos, sem considerar os agravantes.


Considerado o criminoso número 1 do país, Fernandinho Beira-Mar foi trazido ao Rio com aparato de segurança máxima: depois do voo no jato da Polícia Federal, seguiu de helicóptero para o TJ

Foto:  Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

O julgamento de Beira-Mar no 1º Tribunal do Júri começou às 15h21, duas horas após o previsto. O atraso aconteceu porque uma das dez testemunhas de defesa não foi localizada. Na porta da sala onde aconteceu a audiência, houve princípio de tumulto. Familiares do traficante e estagiários de Direito disputavam um dos 84 lugares para assistir o julgamento. Pelo menos 30 pessoas ficaram do lado de fora, numa fila.

O traficante estava à vontade. Mandou beijos para os netos e filhos que estavam na plateia, e fez perguntas para o juiz Fábio Uchôa e para os promotores Fabíola Leite e Braulio Gregório, o que fez com que ele fosse advertido algumas vezes. “Estou nervoso, excelência”, explicou o réu ao magistrado, ao ser questionado sobre os risos.


Em depoimento ao juiz, Beira-Mar alegou inocência: “Meu nome justifica tudo. Não precisam de provas”

Foto:  Fernando Souza / Agência O Dia

O bandido se disse inocente da morte de Uê. “Cometi muitos crimes, mas não esse”, falou. Ele alegou também não ser chefe da facção Comando Vermelho e que só ficou conhecido após a rebelião em Bangu 1. “Meu nome justifica tudo. Não precisa de provas. Qualquer processo com o meu nome dá ibope. Como poderia mandar matar, se não sou líder? Nunca ataquei boca de fumo, nunca dei tiro em PM. Dava presentes a políticos em campanha. Os deputados ganham R$ 10 mil e têm patrimônio de R$ 50 milhões. Como podem falar de mim?”, questionou.

Segundo Beira-Mar, ele sofreu tortura no presídio federal e sua visita íntima foi filmada. “Um dos seguranças que participou das torturas está aqui”, disse. Uma das testemunhas convocadas pela defesa foi o também traficante Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém. “Estava dentro da galeria, ouvi tiros e correria. Chegaram homens encapuzados, mas o Fernandinho não estava encapuzado nem armado, apenas com celular ou um rádio”, afirmou.

A testemunha, que diz não ser amigo de Beira-Mar, arrancou risos da plateia ao ser perguntado pelo juiz sobre sua profissão: “Era bandido”, definiu ele.

Gasto poderia ser evitado

Se for computado o salário equivalente a 24 horas de trabalho dos 220 agentes deslocados para a operação montada para o julgamento de Fernandinho Beira-Mar, mais R$ 29 mil passam a engordar o prejuízo do erário. Policiais militares e federais, além de funcionários do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), participaram da ação de transporte e escolta do criminoso.

Ainda entram nessa conta o combustível usado no helicóptero da Polícia Civil, que transportou o traficante do aeroporto Santos Dumont ao Fórum, e em pelo menos 40 veículos empregados — cerca de R$ 2,1 mil.


Pelo menos 200 homens atuam na segurança do julgamento do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, acusado do homicídio de membros de uma facção rival

Foto:  Severino Silva / Agência O Dia

A despesa do julgamento gerada para os governos federal e estadual, que supera a cifra de R$ 180 mil, poderia ser evitada caso a lei permitisse que julgamentos fossem feitos por meio de videoconferência.

“As videoconferências só podem ser realizadas nas audiências de instrução, conforme estabelecido em lei federal. Não há previsão para a sua realização nos julgamentos por júri popular”, explicou a nota do Tribunal de Justiça.

Muito além do gasto com Fernandinho

Se o total gasto com Beira-Mar já é inestimável, o cálculo, desta vez, ainda se torna ainda maior porque uma das dez testemunhas de defesa do bandido é o traficante Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém.

O bandido veio do presídio federal de Catanduvas, no Paraná, para ajudar o amigo. Celsinho chegou um dia antes, também de avião. O valor mais barato do frete de jatinho da cidade paranaense para o Rio é R$ 50 mil, para seis passageiros.

Originalmente matéria publicada no Jornal O Dia (http://odia.ig.com.br)

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