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Cida de Jesus: Pés no chão

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A denúncia feita por esta Folha de que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) usou aeronaves do governo de Minas Gerais indevidamente despertou a costumeira verborragia de seus defensores.

Apressaram-se em dizer que Aécio estava em missão “oficial”, delegada pelo seu afilhado político e sucessor Antônio Anastasia (PSDB-MG), e tentaram minimizar o malfeito alegando que outras autoridades voaram no avião e no helicóptero destinado a uso restrito do governador –uso esse ironicamente regulamentado e estabelecido por um decreto de 2005 assinado pelo próprio Aécio.

Os voos, segundo a denúncia, ocorreram entre 2011 e 2012, período no qual Aécio já havia deixado o cargo de governador.

Esqueceram-se, no entanto, de dizer que missões eram essas que o senador cumpria entre um palácio e outro e os hangares do governo nos aeroportos de Confins e da Pampulha. Possivelmente, o “esquecimento” deve-se ao fato de que não há explicação convincente para o descumprimento da lei.

Vejamos, das seis viagens do senador, cinco foram entre a sede do governo, o Palácio Tiradentes, e a residência oficial dos governadores mineiros, o Palácio das Mangabeiras. A distância entre esses palácios é de aproximadamente 40 quilômetros.

Caminho este que cerca de 16 mil servidores públicos percorrem diariamente por terra desde que Aécio transferiu todos os órgãos públicos estaduais da região central para o extremo norte de Belo Horizonte com a construção da Cidade Administrativa, obra cuja manutenção custa caro aos cofres públicos e aos cidadãos mineiros.

É de se estranhar, portanto, as justificativas apresentadas por Aécio e seus defensores, a de que o tucano estaria sempre em missão oficial delegada pelo governo mineiro, ainda que ninguém saiba quais teriam sido exatamente tais missões.

A única justificativa que sua assessoria conseguiu dar foi desmentida pelo jornal. A suposta votação de interesse do governo mineiro que justificaria o uso do avião ocorreu uma semana depois da data do voo.

Sem uma explicação convincente para defender Aécio, seus defensores voltam suas baterias contra o PT. Esquecem-se das viagens de fim de semana em Fernando de Noronha dos ministros do governo Fernando Henrique, com as respectivas famílias, a bordo dos jatos da Força Aérea Brasileira (FAB). Vão dizer que ressarciram os cofres públicos, mas só o fizeram quando a farra tornou-se pública.

Os voos e suas justificativas tornam-se ainda mais vazios quando se lembra que, como senador eleito por Minas Gerais, Aécio tem direito a verba pública para vir ao Estado semanalmente. E que, apesar do benefício, o senador mal esteve em Minas desde que foi derrotado nas eleições de 2014. Vive entre Brasília e o Rio de Janeiro, cidade onde foi criado e há muito mora com a família.

Os voos de Aécio em aviões oficiais, portanto, entram agora na lista de explicações que os tucanos devem aos mineiros. Integram a lista a construção de aeroporto público no município de Cláudio, em terras de familiares do próprio senador, a construção da própria Cidade Administrativa e o que aconteceu com o famoso choque de gestão que, 12 anos depois, resultou num estado quebrado e sem qualquer capacidade de planejamento. Estado que, agora, o governador Fernando Pimentel está recolocando em ordem.

Uma última observação: o caminho entre a Cidade Administrativa e o centro de Belo Horizonte é realmente longo. Os servidores públicos mineiros que ali trabalham o percorrem de carro ou de ônibus. Se tivesse feito o que fazem diariamente os funcionários estaduais, Aécio teria dado um bom exemplo.

CIDA DE JESUS é presidente do PT de Minas Gerais

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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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