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Clique Ciência: existe um número limitado de músicas?

  • Arte/UOL

Se você curte música provavelmente já se deliciou com programas de rádio ou vídeos no YouTube que mostram as semelhanças entre certas canções. Às vezes, elas são tão explícitas que os casos vão parar na Justiça, como o de Pharrell Williams e Robin Thicke, condenados a pagar multa ao espólio de Marvin Gaye pela semelhança entre “Blurred Lines” e “Got to Give it Up”. Ou o famoso exemplo do ex-Beatle George Harrisson, acusado porque “My Sweet Lord” era idêntica a “He`s So Fine”, do The Chiffons.

No Brasil, é possível levantar uma série de suspeitas desse tipo: a cantora Anitta, por exemplo, foi inocentada recentemente da acusação movida por MC Bruninha de que a música “Show das Poderosas” seria plágio de “Corpo de Mola: Você Vai Pirar”. E um dos hinos de times de futebol mais admirados do país, o do América, composto por Lamartine Babo, até hoje é citado como cópia de uma marcha composta pelo americano John Phillip.

Todas essas histórias levam a concluir que qualquer artista, por mais gabaritado que seja, está sujeito a ser acusado de plágio. Em primeiro lugar, porque toda música nasce de uma mente que foi exposta a uma infinidade de outras músicas. E seria difícil fazer uma pesquisa para cada melodia criada antes de lançar um disco, só para ter certeza de que não há nada muito parecido no mercado.

Em segundo, vale considerar que a escala musical usada por nós, ocidentais, tem seus limites. Ainda que seja possível compor um número enorme de variações para uma melodia com, vamos supor, quatro notas (como fez Ludwig van Beethoven na sua famosa 5ª Sinfonia), existe um número finito de melodias possíveis com a escala de dó a si.

Estatística

“Se considerarmos apenas sete notas, escolhendo quatro notas distintas para formar uma sequência, importando a ordem em que elas são tocadas, há 7*6*5*4 formas de escolher essas notas, o que resulta em 840 sequências distintas”, calcula a jornalista e graduanda em estatística Simone Harnik.

Para sermos mais precisos, devemos considerar que a escala tem, na verdade, 12 notas, por causa dos sustenidos. Então o número de sequências aumentaria para 11.880 (ou 12*11*10*9) – isso considerando apenas uma melodia com quatro notas diferentes.  Se a sequência tiver 10 notas, as possibilidades passam de 239 milhões, pelas contas de Harnik.

Se as notas puderem ser iguais também, poderíamos ter 1212, ou 8.916.100.448.256 sequências com 12 notas quaisquer. Já se formos mais além e considerarmos as 88 teclas do piano, teríamos o seguinte número possível de sequências de quatro notas:  88*87*86*85, ou 55.965.360.

Os números podem ser astronômicos, mas as possibilidades são finitas, não? O professor de composição Sílvio Ferraz, da Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo), discorda: “O número de músicas é ilimitado pois nenhuma cultura se restringe aos poucos elementos de duração (ritmos) e notas musicais. Além das notas, os músicos se valem do timbre”.

“Associamos os timbres aos instrumentos musicais, e, cada vez mais, vemos músicos do ocidente empregando modos diferentes de tocar instrumento, ou empregando instrumentos de outras culturas. Além disso, desde a década de 1950, compositores (da música de concerto e da música popular) usam recursos eletrônicos para gerar sons (como a guitarra amplificada e distorcida de Jimmy Hendrix, ou as músicas do Kraftwerk).”

O professor ainda observa que as combinações possíveis com as 88 teclas do piano não podem ser consideradas o limite, pois, “para se fazer música, alguém pode simplesmente gravar o som de um martelo e trabalhar isso em um computador ou colocar em loop, como faz um DJ”.

Escalas diferentes

Ferraz lembra que o uso de 12 notas é algo mais ou menos recente, definido em meados do século 18, para colocar um limite nas inúmeras maneiras de se afinar os instrumentos.

Mas há muitos outros conjuntos de notas possíveis e imagináveis. “Praticamente cada povo tem uma escala, com uma quantidade de notas específicas entre o que chamamos de oitava (quando o nome da nota se repete) e com afinações diferentes para estas notas”, explica Ferraz.

Na Grécia antiga, ele conta, distinguiam-se 32 modos a partir da simples combinação de quatro notas. E na música indiana diz-se que existem atualmente cerca de 276 escalas em uso. “É comum dizermos que a música africana e chinesa usam uma escala de cinco notas, mas algumas músicas destes lugares parecem para nossos ouvidos trabalharem com uma ou duas notas, quando, de fato, para os povos que as cantam a atenção não está nesta nota, mas na mudança de timbre, como nos cantos de garganta dos Tuvans ou na música dos arcos de boca de Botsuana, Zimbábue, Moçambique e Namíbia”, relata o especialista.

“Agora imagine que hoje podemos fazer uma música juntando pessoas de lugares diferentes, cantando com escalas diferentes todas juntas… O espaço da imaginação é sem fim”, conclui o professor da USP.

Mas, então, por que é que há tantas músicas parecidas no mundo? “De fato, as pessoas escolhem um repertório fechado para se comunicar, para que aquilo que estejam compartilhando com as outras seja compreendido”, acredita Ferraz. Basta sair do limite das grandes cidades para se ter uma ideia de quantas variações de sons é possível se ouvir em outras partes do mundo.  

Fonte: Bol.com.br

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