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Como é viver com ansiedade grave

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Parte do sistema de reação ao estresse agudo do corpo humano, a resposta de luta ou fuga acelera os batimentos cardíacos, dilata os brônquios e contrai os vasos sanguíneos –tudo isso aumenta o fluxo sanguíneo e a oxigenação dos músculos para nos preparar para fugir de alguma ameaça: um mamífero selvagem, um carro em alta velocidade, uma pessoa perigosa. Em termos de respostas psicológicas, é um mecanismo bem importante. Só que, às vezes, a gente entra um pouco em curto-circuito.

Charles Darwin, que sofreu, há registros, com uma síndrome do pânico paralisante que o mantinha muitas vezes confinado em casa, argumentava que, até certo ponto, é um alto grau de evolução estar “alerta” na maior parte do tempo. Mas a resposta de luta ou fuga, segundo explicação de Mark Williams e Danny Penman no livro Atenção Plena – Mindfulness: Como Encontrar a Paz Em Um Mundo Frenético, “não é consciente – é controlada por uma das áreas mais ‘primevas’ do cérebro, o que significa que, com frequência, é um tanto simplista na forma de interpretar o perigo. De fato, não faz distinção entre uma ameaça externa, como um tigre, e uma interna, como uma lembrança inquietante ou uma preocupação sobre o futuro. Trata ambas como ameaças que devem ser combatidas ou evitadas através da fuga”. Conforme uma pesquisa desenvolvida pelo editor-chefe da revista Atlantic, Scott Stossel, em suas brilhantes e aflitivas memórias, Meus Tempos de Ansiedade, “espécies que ‘temem corretamente’ aumentam as chances de sobrevivência. Nós, pessoas ansiosas, temos menos propensão a nos retirarmos do pool genético, digamos, brincando na beira de um precipício ou virando piloto de caça”.

Mas, às vezes, a pessoa “perigosa” é você.

Nos últimos 15 anos, manifesto a minha ansiedade na forma de síndrome do pânico. Por duas vezes, a coisa degringolou para uma depressão grave –do tipo que te aprisiona no apartamento sem conseguir fazer nada, só assistindo Os Simpsons no YouTube e comendo bolacha de água e sal.

Esse é o tipo de pergunta que me fiz no passado, presa em um tornado de pensamentos negativos, minha capacidade de raciocinar fugindo pelo suor das axilas enquanto eu encarava fotos da minha infância, dizendo em voz alta: “Onde é que ela foi parar?” Como se houvesse duas versões de mim –Versão 1.0: Pré-ansiosa e Versão 2.0: Ansiosa.

Só que não é uma teoria completamente lunática. Através de terapia cognitiva comportamental, que estou fazendo atualmente, consegui identificar a raiz da minha ansiedade –uma experiência de quase morte espetacular com um apêndice estourado que engoliu cerca de seis meses da minha vida. Acontece que, se você é uma criança sensível e seu corpo começa a gangrenar e ficar tão fraco que você tem que ficar internada em uma unidade de tratamento intensivo, isso pode ter um baita impacto no seu futuro bem-estar mental. Principalmente quando as consequências físicas desse episódio basicamente estragaram as suas entranhas para sempre.

Meu primeiro gostinho de pânico aconteceu durante minha primeira semana de volta às aulas depois do apendicelão. Os professores paravam no corredor. “Eleanor, você está bem?”, perguntavam, em sussurros com cheiro de café. Eu era o prato especial da semana. Mas depois de alguns dias, aconteceu uma coisa.

Numa tarde, comecei a me sentir enjoada na aula de biologia. Minhas mãos amorteceram e senti como se meu crânio fosse quebrar como um ovo. Era um sentimento alienígena, sem nenhum ponto de referência. Fui ao banheiro e, lá, por alguns minutos, meu cérebro e meu corpo não pertenciam a mim. Achei que ia vomitar, mas não saía nada. Só ondas e ondas de pressão nauseabunda, das têmporas aos dedos dos pés. E aí veio um temor frio e escuro que eu desconhecia: minha cabeça nadava, as paredes pareciam geleca. Absolutamente nada no meu corpo e em volta de mim fazia sentido. Era uma possessão, pura e simples.

Foi minha primeira crise de pânico, mas eu não sabia disso na época. Nas semanas seguintes, não consegui pensar em mais nada. Aconteceu de novo algumas vezes. À noite, eu chorava, mas contar para os meus pais estava fora de questão. Eles não entenderiam – seja lá o que fosse aquilo. Achei que era uma coisa física, alguma coisa relacionada aos danos provocados internamente. Mas, depois de três semanas de inferno e uma noite sem conseguir pregar o olho, fui sozinha ao médico, que disse: “Acho que você pode estar tendo ataques de pânico”, me passou uns folhetos e me encaminhou para uma terapeuta idosa no centro comunitário do lado do posto da Shell.

A abordagem dessa senhora era me dar uns elásticos para colocar no pulso e me mandar estalar na pele toda vez que sentisse que o indicador da minha pressão interna começasse a subir. Não lembro se isso ajudou com a ansiedade em si, mas com certeza me fez ter consciência de que havia um fluxo de energia que precisava ser capturado. De algum jeito.

Meses depois, fui estudar na universidade em Londres com uma compreensão maior sobre crises de pânico e as espirais claustrofóbicas de ansiedade que provocam. Meus pais sabiam, porque tive que explicar a abundância de elásticos beges espalhados pela casa dos dois, e eles foram gentis e compreensivos, mas mesmo assim eu vivia com o medo constante de ter um ataque (coisa que, mais tarde, descobri que era uma característica definidora da síndrome do pânico ) quando saía e estava com outras pessoas. Fosse nas aulas, no bar ou em uma balada, isso nunca me deixou. Nem um minuto.

Consequentemente, como muitos outros que sofrem com a síndrome, desenvolvi um padrão de comportamentos de esquiva ligados aos lugares e situações que tinham me deixado ansiosa no passado: ‘Não, besta, você não pode ir para a aula pelo Green Park porque você teve um ataque muito ruim lá na semana passada’, ou ‘sei que aquele bar só tem um banheiro, melhor nem ir, vai que eu surto e tem fila, né?’ Eu dizia isso para mim em um diálogo interno sem fim –uma coisa que meu terapeuta atual hoje chama de “Tagarela”. Saber onde fica o banheiro em todo lugar que eu ia era imprescindível– eu tinha que ter um lugar para onde “fugir” se começasse a entrar em pânico, principalmente considerando que, no limite, meu pânico se manifestava principalmente com problemas gástricos. Se eu não conseguisse ver um banheiro ou pelo menos uma placa de saída de emergência, me fodia.

Espaços abertos eram uma perspectiva navegável, mas intimidadora, e, se eu tivesse mesmo que passar pelo Green Park, digamos, porque meus amigos passaram, eu ficava mentalmente de olho em todos os arbustos mais densos onde poderia me esconder – só por precaução. Eu tinha que sentar no fundo da sala em toda aula ou ida ao cinema – só por precaução. Se por acaso eu andasse de metrô (situação cada vez mais rara), ficava perto da porta, olhando para a porta – só por precaução.

Cada segundo futuro e sua potencial rota de fuga tinham de ser planejados. Só por precaução. A ansiedade é uma doença do “e se”.

Avançando para o presente, embora eu possa escrever uma caralhada sobre a vida com síndrome do pânico, também posso dizer que não consegui ter melhoras adequadas e significativas até alguns anos atrás e ainda acho a ideia de ter um ataque de pânico assustadora, porque, bom, como não seria? Só que, hoje, esse medo está amenizado, porque tenho técnicas para administrar a ansiedade quando ela começa a inchar, em vez de esperar a onda quebrar. Sei que, se tiver de fato um ataque de pânico, depois volto a ficar bem, e vou lidar com isso da melhor forma possível.

“Poucas pessoas hoje refutam a ideia de que o estresse crônico é uma marca registrada dos nossos tempos ou que a ansiedade se tornou meio que uma doença cultural da modernidade”, afirma Stossel. “Vivemos, como já foi dito muitas vezes desde a aurora da idade atômica, em uma era da ansiedade.” Mas nem todo mundo tem uma resposta “normal” a isso.

A síndrome do pânico é um transtorno de ansiedade caracterizado pela recorrência de ataques de pânico e um medo constante de ter crises. Estatísticas a respeito da prevalência de transtornos de ansiedade no Reino Unido, compiladas pela última vez em 2007, sugerem que 1,1% dos adultos (1,3% das mulheres, 1% dos homens) têm os critérios de síndrome do pânico segundo um estudo sobre morbidade psiquiátrica de adultos. Nos Estados Unidos, o número de adultos que se considera ter o transtorno é maior, 2,7%. Esses, obviamente, são apenas aqueles “oficialmente” doentes – minha médica me disse recentemente que a ansiedade é uma das reclamações mais comuns que ela ouve dos pacientes. Mais comuns, às vezes, que tosse e resfriado.
O pânico aparece em muitos sabores. É de uma variedade imensa, desde um desconforto implicante na barriga até um medo que faz você sentir como se tivesse sido atropelada por um trem-bala. Meu coquetel habitual é um comichão serpejante da cabeça aos pés, uma cara pálida, pulmões contraídos, mãos dormentes e um estômago revoltoso. Parece que vou vomitar ou me cagar a qualquer momento. Já rolou o primeiro, mas não, por enquanto, o segundo – apesar de ter chegado perto. É uma dança agradabilíssima, sério.

Já houve momentos em que me ajoelhei num beco tentando recuperar o fôlego e “me agarrei” ao chão para me enraizar à terra física, enquanto meu corpo entrava no que parecia ser outro plano da existência. Mas a manifestação física da ansiedade é diferente em cada pessoa. Alguns chamam a ambulância porque sentem como se estivessem tendo um ataque cardíaco. Outros ficam com a respiração acelerada. Outros vomitam. Outros tremem como se estivessem pelados no vento antártico.

Tem a coisa cognitiva também. Essa parte piorou conforme eu fui envelhecendo –antes, os sintomas físicos encobriam os mentais. Mais tarde, virou um carro dando cavalo de pau em que eu sentia: ‘vou explodir, nunca mais vou voltar a me sentir segura ou normal de novo, meu corpo está entrando em colapso, todo mundo vai me ver surtar, vou surtar, estou perdendo a cabeça. É isso. O próximo passo é me amarrarem e mandarem para uma ala psiquiátrica’.

Vou morrer. Isso está me matando.

E o carrossel não para de girar quando a ansiedade atinge o pico. Ele surge –embora com menos força– mais algumas vezes antes de passar. E aí a exaustão finca as garras.

Em vários estágios da minha vida, tive crises de pânico todo dia, mais de uma vez por dia. Meu primeiro “colapso” (os terapeutas desaconselham o uso dessa palavra hoje em dia, mas era isso que parecia) no terceiro ano da faculdade se construiu quando meu medo de ter um surto se tornou uma obsessão 24 horas por dia. Eu tinha medo de ir a pé até o mercado que ficava a 90 metros de distância, quanto mais ir para a aula. Eu precisava de um plano de “escape” para toda possível eventualidade, mesmo que fosse para atravessar a rua e passar rapidinho no mercado da esquina para comprar leite.

Até que esse tanto de adrenalina fora de lugar ficou insustentável para o coitado do meu cérebro. Fiquei muito deprimida.

Despersonalização de verdade, incapacidade de não dormir 16 horas seguidas e a completa falta de apetite – perdi seis quilos em três semanas –aconteceram muito rapidamente. Eu não conseguia me mexer. Depois de cinco dias deitada na cama, escutando Moon Pix da Cat Power sem parar (eu tinha lido que ela compôs o disco no meio de um colapso, então de certa forma parecia adequado) enquanto uma brisa de verão fazia os galhos do eucalipto do meu vizinho farfalharem contra a minha janela, fui ficando cada vez mais preocupada com o que iria dizer para os professores e meus pais. Mais uma vez, fui ao médico. Demorei duas horas para chegar ao consultório – sendo que ele ficava a apenas 1,5 km. Ele me passou sertralina (um ISRS muito receitado para transtornos de ansiedade) e diazepam e me encaminhou para terapia –nunca mais tinha feito desde que me mudei para Londres, apesar de continuar passando os dias trancada em uma rede de comportamentos de esquiva e ter consciência de que meus verdes anos de mocidade estavam bichando feito, bom, fruta não colhida. Eu não estava “vivendo” direito, nunca estava por inteiro no momento.

Mas não gostei da terapeuta que ele me indicou. Ela era muito jovem, passava o tempo todo ticando itens (literalmente, numa prancheta) e raramente me olhava nos olhos. Parei de ir na consulta dela depois de quatro sessões, pensando: Não vale a pena, porra. Eu achava que, como as duas terapeutas em que eu tinha ido no passado não tinham conseguido me ajudar a parar com os ataques de pânico em um curto período de tempo, eu era imune a ajuda e intervenção. Acreditei, até cerca de três anos atrás, que eu era basicamente resistente a tratamentos sem medicamentos.

O remédio novo não fez nenhum milagre nem nada definitivo. Mas, com o tempo, senti que conseguia sair das redes de pensamentos obsessivos por longos períodos, e isso, por sua vez, me ajudou a enfrentar a situação, dentro dos meus parâmetros. Só agora, relembrando, consigo perceber o peso enorme que exerci no meu companheiro na época, sem explicar porque eu ainda precisava e não precisava fazer certas coisas. Mas eu me sentia profundamente envergonhada e constrangida, e raramente contava para alguém o que estava acontecendo na minha cabeça por medo de parecer “louca” –nem mesmo para a pessoa com quem eu tinha um relacionamento. Na verdade, só tinha um amigo que realmente me conhecia. Mesmo assim, do meu jeito turbulento, enfrentei.

Tomei antidepressivos por uns dois anos e evoluí rápido na carreira. O medo de ter um ataque de pânico ou ser “pega” ainda envolvia minha mente lá no fundo todo dia, mas a cortina que encerrava esse pensamento já não estava tão pesada. Quando eu tinha um ataque –um por semana, em vez de um por dia–, levava alguns dias para voltar ao normal, mas eu estava bem, de verdade.

Também enfrentei quando descontinuei a medicação, com orientação de outra terapeuta (mais velha, mais mãezona), até cerca de três anos atrás. Eu estava com um trabalho excelente atrás do outro, escrevendo bastante, viajando o mundo entrevistando pessoas que admirava. Por fora, eu era animada, planando pela vida como um cisne, capaz de aguentar tudo que aparecesse para mim –reuniões tensas, voos longos, pautas mais difíceis e de maior visibilidade. Mas, por dentro, o caos tinha voltado. Era remo remo remo. Eu não aceitava que talvez tivesse que continuar tomando os antidepressivos. Em uma parte da minha mente, eles eram um último recurso. O momento do quase fracasso e o penúltimo passo antes da camisa de força e da terapia de choque.

Por que eu precisava de um remédio que, quando colocava entre os lábios todo dia, me fazia pensar que eu era uma inválida que precisava de drogas para funcionar direito? E se meus amigos estivessem ficando cansados de mim por sempre cancelar de última hora porque eu tinha um ataque de pânico no meio do caminho e não conseguia me imaginar indo além da esquina onde estava? Por que eles deveriam saber?

Mas eu não estava conseguindo aguentar. Era essa a questão, e sempre tinha sido. Eu estava fingindo e precisava de ajuda. Ao longo dos anos, eu me tornei a mestre do disfarce – ninguém, ninguém mesmo, diria que eu tinha um transtorno de ansiedade, salvo pela minha incapacidade de andar de metrô mais do que algumas poucas estações. Quando eu começava a sentir pânico no meio das pessoas, simplesmente ia mais cedo para casa. Um comportamento de esquiva atrás do outro me permitiu viver o que parecia, na aparência, uma vida normal. E aí, três anos atrás, tive outro colapso – essa palavra de novo, mas, para mim, é a única coisa que cabe. Dessa vez, foi muito pior do que antes.

Analisando à distância agora, aquilo já estava se construindo há algum tempo. Eu não gostava muito do meu trabalho, apesar do status e valor que me proporcionava. Eu já não tinha mais desculpas para os bolos que dava nos amigos. Eu precisava de mais uma cirurgia no intestino – uma perspectiva assustadora para mim e que minha terapeuta não conseguia me ajudar a racionalizar. Viajar a trabalho foi se tornando uma coisa cada vez mais estressante, cada sala de embarque de aeroporto vinha acompanhada de uma bandeja com um novo conjunto de sintomas de ansiedade. Antes de ir para o Quênia fazer uma pauta para o “The Guardian”, sentei num banheiro no Terminal 3 convencida, sem sombra de dúvida, de que a vértebra do meu pescoço estava prestes a romper e me paralisar, porque a pressão na minha cabeça era tão forte que meus pensamentos se emaranhavam, rodopiando.

E se eu tiver esses ataques de pânico no meio do Quênia? Quem vai me ajudar? O que acontece se eu surtar no avião e vomitar para todo lado porque não cheguei a tempo no banheiro? E se eu surtar em uma parte do mundo onde não conheço ninguém e acabo sendo presa em algum lugar porque ninguém sabe o que fazer comigo?

E se, e se, e se. Só de escrever já é cansativo e chato. Chegou uma hora que toda crise de pânico que eu tinha demorava mais tempo para passar do que a última e, ao longo de umas duas semanas, elas se uniram em uma constelação de frustração, lágrimas e desespero.

Fiquei bem deprimida de novo. Desta vez, o “colapso” foi marcado por choro, tontura e uma incapacidade quase que completa de comer, o que, para quem me conhece, seria a parte mais alarmante de todas. Uma noite fui para a cama e acordei outra pessoa: uma que não conseguia andar em linha reta, não conseguia parar de chorar, não comia nem uma fatia de torrada em menos de uma hora, não conseguia abrir a porta para o carteiro, não conseguia encher a banheira para tomar banho, não conseguia atender o telefone, não conseguia dar comida para os gatos. Fisicamente, parecia estar na beira de um arranha-céu o tempo todo, uma vertigem profunda bem no âmago. Fiquei desesperada. O medo tinha ofuscado tudo.

Depressão e ansiedade muitas vezes andam lado a lado. Meu cérebro racional sabia disso, mas no pico desse novo terror, eu não conseguia aceitar isso. Não conseguia aceitar que meu cérebro estava tão cheio de ter medo de si próprio que a depressão tinha se tornado um sintoma da minha ansiedade, porque ele estava sobrecarregado. Isso, para mim, era um fracasso. Fracassei e nunca mais ia voltar. Durante três semanas, não fui além da loja no fim da minha rua e me senti, pela primeira vez na vida, racionalmente suicida –ou, mais precisamente, desesperada por um fim palpável para aquele inferno na terra. Mas eu não queria morrer. Queria ver os olhinhos pretos dos bebês que eu queria ter, a areia seca dos desertos que queria visitar.

Eu só não queria viver com medo do minuto seguinte.

No dia que percebi que estava encarando demais o armário de remédios, refletindo sobre o que me derrubaria por um tempo decente sem que depois eu tivesse que fazer uma lavagem estomacal e ir para uma ala psiquiátrica, procurei na internet o terapeuta cognitivo comportamental mais próximo. Ele estava a menos de 300 metros da minha casa. Felizmente, consegui marcar uma consulta para a mesma tarde. Ele me disse: “Agora está entrando no pico, você pode recuperar o controle”. E, apesar das minhas pernas baterem com força na cadeira (doce sintoma novo) e eu lutar contra o desejo de sair correndo do consultório e voltar para a minha cama, escutei. Ele era engraçado, falava muito palavrão e tinha um conhecimento profundo e científico dos motivos para o comportamento do cérebro, o que foi interessante para mim.

Aquela tarde foi o primeiro momento decisivo de verdade que tive em 15 anos. Depois de começar com duas sessões por semana com ele, fui no meu médico, que receitou uma dose baixa de um novo ISRS – citalopram, outro antidepressivo eficaz contra transtornos de ansiedade –e, depois de um mês dessa abordagem intensiva em duas frentes, além do comprometimento de fazer exercícios de atenção plena, comecei a ter esperança.

Isso foi há três anos e estou na luta. Enfrentando de verdade, com um emprego em tempo integral que exige bastante e tudo mais. Ainda tomo citalopram em uma dose baixa, e fico feliz se continuar tomando por tempo indefinido. Transtornos de ansiedade –assim como a depressão– têm múltiplas causas, mas estou disposta a aceitar que meu cérebro pode ter dado um “tilt” em algum momento perto da coisa de quase ter morrido, e que tomar remédio me traz de volta a um nível vivível de ansiedade. Estou feliz de acreditar nisso. Sinto que meus músculos estão presos nos ossos. Às vezes ainda é muito frustrante ter essa propensão medrosa, mas não parece que vou dissolver. Enquanto antes eu morria de medo de ser rotulada por tomar antidepressivo –Viciada? Fracasso? Tiete de farmácia?–, hoje estou pouco me lixando para quem pergunta. Consigo viver a minha vida. Esse é o ponto final de qualquer tipo de questionamento.

Hoje, todos os meus amigos sabem que tenho tendência a ataques de ansiedade e pânico e, assim como a maioria dessas coisas estilo grande revelação que você constrói na sua cabeça, quando “esclareci” o motivo para eu ter sido tão esquisita no passado, nenhum deles fez estardalhaço. Até hoje. As pessoas têm uma preocupação profunda, mas geralmente são razoáveis quando você explica uma coisa para elas – seja uma luta psicológica ou tingir os pelos do cofrinho. Elas só querem tentar entender o que você está dizendo, oferecer apoio e seguir com a vida delas.

Não falar sobre nossa saúde mental não está dando certo. Como escreve Stossel: “Meu terapeuta atual, o doutor W., diz que sempre existe a possibilidade de que revelar a minha ansiedade tira o peso da vergonha e reduz o isolamento do sofrimento solitário. Quando fico nervoso de publicar meus problemas psiquiátricos num livro, o doutor W. diz: ‘Você manteve sua ansiedade em segredo durante anos, certo? Funcionou para você?'”

Se eu posso acrescentar minha contribuição para a conversa, o mais crucial que aprendi sobre o tratamento da ansiedade é que você precisa encontrar um terapeuta que goste. Se isso significa “bater perna” até encontrar alguém que faça você se sentir à vontade e em quem possa despejar tudo, e se tiver os recursos para fazer isso (a maioria dos terapeutas particulares oferece taxas reduzidas se você pedir), tudo bem. Se você depende do serviço público através do clínico geral e não gosta ou não dá certo com quem te encaminham, peça para trocar – é a sua saúde e você não tem que aguentar uma pessoa que te deixa desconfortável, assim como é seu direito pedir uma segunda opinião em caso de uma doença física. Seu cérebro é um órgão e precisa de manutenção adequada quando fica doente. É, como disse Louis Theroux sobre sua própria experiência com terapia quando o entrevistei, “tipo abrir o capô do carro e olhar para ver o que está acontecendo”.

Com esse terapeuta, que vou chamar de “S”, percebi que a espinha dorsal da minha capacidade de funcionar direito era aceitar que não há “cura” para eu me sentir melhor –somente técnicas e intervenções (no meu caso, medicação) para tornar a minha vida vivível. A frustração mora muito perto da ansiedade e do constante “POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO COMIGO, PORRA”, e não conversar com ninguém só piora. É pressão demais.

Como foi que, de não contar meus problemas para ninguém, passei a escrever aqui com tantos detalhes, você deve estar se perguntando, com razão. A resposta é muito simples: gente do mundo todo navega na internet todo dia em busca de algo que espelhe a sua própria dor, procurando evidências de que existem pessoas que superaram um desconforto mental calamitoso. Um eco. Quando eu estava mal, era tudo que eu queria–alguma ideia de que eu poderia sair daquela floresta negra.
É uma ideia bem básica de que estar mais aberta às suas próprias experiências com uma doença mental estimulará outras pessoas a falarem sobre as delas. Mas é verdade. Stossel fala em seu livro sobre um jantar que foi com vários escritores e artistas e que, depois de falar sobre seu progresso, cada uma das nove pessoas responderam “contando uma história da sua própria experiência com ansiedade e medicamentos. Rodamos a mesa toda contando nossos casos de infortúnios neuróticos”.

Passei por uma situação parecida mais vezes do que consigo lembrar. As pessoas – gente muito funcional e bem-sucedida –estão loucas para falar sobre a própria saúde mental. Ninguém ficaria com vergonha de conversar sobre arritmia: por que uma instabilidade no cérebro deveria ser um tabu se uma do coração não é? As pessoas querem ser ouvidas –só precisam de alguém para empurrar a primeira peça do dominó. E é muito forte a ideia de que vamos “expor” demais –medo que eu tinha no passado–, deixando os outros incomodados ou correndo o risco de levar para sempre a pecha de “pessoa louca” por falar sobre nossa saúde mental. É uma questão de saúde, ponto. O cara que serviu seu café hoje cedo pode ter vencido o câncer há alguns anos. Ou pode ter vencido uma batalha contra uma depressão severa e incapacitante. Ele pode ter tentado o suicídio e ter sido internado, mas você não faz ideia disso, porque ele se recuperou e está seguindo a vida da melhor forma possível.

Essa é a questão de sermos seres humanos: não somos imutáveis. Mudamos, nos adaptamos e podemos melhorar –assim como qualquer outra doença. É esse o nível da nossa evolução.

Tradução de ALINE SCÁTOLA

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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