Em livro de Agatha Christie, crime ocorre durante festa na noite de Halloween


21/05/2015

20h27


da Livraria da Folha

Publicado originalmente em 1969, “A Noite das Bruxas” apresenta um mistério que se desenrola na tradicional festa de Halloween de um vilarejo.

Em meio às típicas brincadeiras da data, um crime dentro da casa da viúva Rowena Drake interrompe a diversão. Hercule Poirot, que se preparava para uma noite entediante, é surpreendido pela ligação aflita de sua velha amiga Ariadne Oliver, que afirma que ele é a única pessoa capaz de solucionar o mistério antes que outro crime aconteça.

Agatha Christie recebeu o apelido de Rainha do Crime graças às suas histórias policiais, escritas entre as décadas de 1920 e 1970. Nascida em Torquay, na Inglaterra, no dia 15 de setembro de 1890, Agatha Christie se interessou pela escrita por incentivo da mãe e após ler obras de Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle.

A escritora trabalhou como farmacêutica durante a Primeira Guerra Mundial. Conta-se que a experiência lhe proporcionou conhecimentos sobre veneno, informações que seriam usadas em seus livros. A autora criou dois dos investigadores mais icônicos da literatura policial, o detetive belga Hercule Poirot e a perspicaz Miss Marple.

Abaixo, leia um trecho do primeiro capítulo “A Noite das Bruxas”.

*

A sra. Ariadne Oliver saíra com a amiga Judith Butler, na casa de quem estava hospedada, para ajudar nos preparativos de uma festa de crianças que aconteceria naquela mesma noite.

No momento, a cena era de uma agitação caótica. Mulheres cheias de energia entravam e saíam arrastando cadeiras, mesinhas, trazendo vasos de flores e carregando grandes quantidades de abóboras amarelas, que eram arrumadas estrategicamente em lugares específicos.

Era a tradicional festa de Halloween para convidados na faixa etária dos dez aos dezessete anos.

A sra. Oliver, afastando-se do grupo principal, encostou-se em uma parede e levantou uma grande abóbora amarela, olhando-a de maneira crítica.

– A última vez que vi uma abóbora dessas – disse, tirando o cabelo grisalho da testa proeminente – foi no ano passado, nos Estados Unidos. Centenas de abóboras, espalhadas pela casa. Nunca vi tantas. Na verdade – acrescentou, pensativa -, eu nunca soube a diferença entre abóbora e abobrinha. Esta aqui é o quê?

– Desculpe, querida – disse a sra. Butler, ao pisar nos pés da amiga.

A sra. Oliver comprimiu-se mais ainda contra a parede.

– A culpa foi minha – disse. – Estou no meio do caminho. Mas fiquei impressionada de ver tantas abóboras, ou abobrinhas, sei lá. Elas estavam em toda parte, nas lojas, nas casas das pessoas, com velas ou lâmpadas dentro delas ou enfiadas na polpa. Muito interessante mesmo. Mas não era para o Halloween. Era para o dia de Ação de Graças. Sempre associei abóboras com Halloween, que cai no final de outubro. O dia de Ação de Graças é bem depois, não? Não é em novembro, lá pela terceira semana do mês? De qualquer maneira, o Halloween aqui é no dia 31 de outubro, não? Primeiro Halloween, e depois vem o quê? Dia de finados? Em Paris, nesse dia, todo mundo vai ao cemitério colocar flores nos túmulos. Não é um feriado triste. As crianças também vão, e se divertem. Primeiro passamos no mercado de flores e compramos um monte de flores, uma mais bonita do que a outra. Não existem flores mais lindas do que as do mercado de Paris.

As mulheres atarefadas esbarravam de vez em quando na sra. Oliver, mas não lhe davam atenção, envolvidas demais no que estavam fazendo.

A maioria era composta por mães de família, e uma ou duas solteironas; havia adolescentes prestativos, rapazes de dezesseis e dezessete anos subindo em escadas ou cadeiras, para ajeitar a decoração, colocar abóboras ou abobrinhas e bolas de vidro colorido numa altura adequada; meninas de onze a quinze anos reuniam-se em grupos e ficavam dando risadinhas.

– E depois do dia de finados – continuou a sra. Oliver, deixando seu corpo cair sobre o braço de um sofá – vem o dia de Todos os Santos. É isso?

Ninguém respondeu à pergunta. A sra. Drake, uma senhora de meia-idade elegante que seria a anfitriã da festa, tomou a palavra.

– Não estou chamando esta festa de Halloween, embora seja Halloween, na verdade. Estou chamando de “festa dos mais de onze”. A maioria está nessa faixa etária. A garotada que está saindo do primário no The Elms e indo para outras escolas.

– Mas esse nome não é muito preciso, não acha, Rowena? – comentou a srta. Whittaker, em tom de reprovação, acomodando o pincenê no nariz.

A srta. Whittaker, como professora local, era sempre exigente em termos de precisão.

– É porque abolimos há algum tempo o exame de admissão feito no final do primário.

A sra. Oliver levantou-se do sofá, pedindo desculpas.

– Não estou ajudando em nada. Fiquei aqui sentada, falando bobagens sobre abóboras e abobrinhas.

“E descansando os pés”, pensou ela, com certo peso na consciência, mas sem suficiente sentimento de culpa para dizê-lo em voz alta.

– Agora, o que eu posso fazer? – perguntou e acrescentou: – Que maçãs lindas!

Alguém acabara de entrar com um enorme cesto de maçãs. A sra. Oliver adorava maçã.

– Tão vermelhas! – exclamou.

– Na verdade, não estão muito boas – disse Rowena Drake. – Mas servem para a festa. É para a brincadeira de pesca das maçãs. Como as maçãs estão meio moles, fica mais fácil pegá-las com os dentes. Pode levá-las para a biblioteca, Beatrice? Essa brincadeira de pesca das maçãs é sempre uma bagunça. Derrama água por todo lado. Mas o tapete da biblioteca está tão velho que não tem problema. Ah, obrigada, Joyce.

Joyce, uma menina robusta de treze anos, pegou o cesto, deixando cair duas maçãs, que rolaram e foram parar aos pés da sra. Oliver, como que refreadas pela mão de uma feiticeira.

– A senhora gosta de maçãs, não gosta? – perguntou Joyce. – Li que a senhora gosta, ou talvez tenha ouvido na televisão. A senhora escreve contos policiais, não escreve?

– Escrevo – respondeu a sra. Oliver.

– Deveríamos ter pedido para a senhora preparar alguma coisa relacionada a assassinatos. Ter um assassinato na festa hoje à noite e pedir para as pessoas desvendarem o caso.

– Não, obrigada – disse a sra. Oliver. – Nunca mais.

– Como assim, nunca mais?

– Fiz isso uma vez, e não deu muito certo – respondeu a sra. Oliver.

[…]

*

A NOITE DAS BRUXAS
AUTOR Agatha Christie
EDITORA L&PM Editores
QUANTO R$ 23,70 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.


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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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