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Frigoríficos forçam produtores de carne da Amazônia a reduzir desmatamento

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Área devastada ilegalmente na floresta amazônica, em Novo Progresso (PA)

    Área devastada ilegalmente na floresta amazônica, em Novo Progresso (PA)

O envolvimento de frigoríficos na cobrança contra a produção bovina em áreas desmatadas da Amazônia surtiu bons efeitos. Segundo uma pesquisa realizada na Universidade de Wisconsin-Madison nos Estados Unidos, os acordos de desmatamento zero motivaram os fazendeiros a rapidamente registrarem suas propriedades no Cadastro Ambiental Rural (CAR) para não serem bloqueados pelos frigoríficos que compram a carne bovina. A pesquisa focou na cadeia de produção do frigorífico JBS, o maior do mundo.

A pressão sobre os produtores bovinos surgiu após a assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o MPF (Ministério Público Federal) que responsabilizava os compradores de carne pelas irregularidades dos produtores, no final de 2008. Em 2009, os maiores frigoríficos – JBS, Marfrig e Minerva – se comprometeram a comprar carne somente daqueles fazendeiros que parassem de desmatar a floresta e que registrassem suas propriedades. Antes dos acordos, somente 2% dos fornecedores do JBS tinham registrado suas propriedades. Até 2013, quase todos o fornecedores já haviam providenciado o registro.

A pressão sobre a cadeia teve um efeito positivo, mas ainda não é o bastante. Os pesquisadores perceberam que ainda existem irregularidades nas chamadas “fazendas de engorda”. Isso quer dizer que o produtor registrado, que vende aos frigoríficos, pode receber bezerros nascidos e crescidos em fazendas com desmatamento irregular.

“O mais animador é que percebemos que o mecanismo de pressão funciona, mas ainda é preciso ampliar. Há ainda o esforço para incluir as fazendas de cria no controle”, afirma o pesquisador brasileiro Paulo Barreto, um dos autores do estudo, que foi publicado na revista científica Conservation Letters.

O próximo passo, segundo ele, é acompanhar os resultados de uma auditoria independente, contratada para checar todos os frigoríficos que compram carne produzida dentro do bioma da Amazônia. O estudo deve nomear os frigoríficos irregulares, para que eles sejam punidos.

Produção de carne e soja na Amazônia

A expansão das pastagens tem impulsionado o desmatamento na Amazônia brasileira: elas já ocupam dois terços das áreas desmatadas. Os principais rebanhos estão no Pará e Mato Grosso.

A pressão sobre a cadeia produtiva seguiu o exemplo da chamada “moratória da soja”, na qual a indústria e os consumidores finais, como redes de restaurantes e supermercados, se comprometeram a só comprar de agricultores que não desmatassem. Isso teria tido um lado positivo, mas teria forçado os produtores a utilizar antigas áreas de pasto que não eram usadas e pode ter empurrado os criadores de gado para o interior da floresta.

“Parte do setor rural diz: não podemos parar o desmatamento senão isso vai parar a economia. Porém há estudos que comprovam que se poderia aumentar a produção até 2040 nas áreas desmatadas sem precisar cortar mais nenhuma árvore”, afirma Barreto, que também é pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Segundo ele, são 10 milhões de hectares em condições de “pasto sujo”, ou seja, com baixa produtividade.

“É comum o desmatamento especulativo, onde o grileiro desmata para sinalizar que a terra é dele. Ele planta capim e até cria gado, mas não usa a terra em seu potencial. Há muitas pastagens em que há um boi apenas por hectare”, explica.

Desmatamento da Amazônia

São desmatados, por ano, 500 mil hectares no bioma da Amazônia. Cerca de 20% das matas tropicais já desapareceram somente na região amazônica. Os dados mais recentes do SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento), do Imazon, apontaram um aumento de 214% no corte raso na floresta amazônica brasileira de agosto do ano passado a março deste ano em comparação com o mesmo período de oito meses de 2013 a 2014.

“Considerando que a área desmatada é grande e mal usada, a única taxa aceitável seria zero desmatamento”, acrescenta o pesquisador.

O CAR é uma das peças-chave do governo brasileiro para controlar o desmatamento na Amazônia. O controle é feito através de imagens de satélite e quem desmata acima do permitido pelo Código Florestal é punido. Segundo o pesquisador, ele é uma ferramenta importante, mas existem estudos mostrando que há pessoas desmatando em áreas proibidas que nunca foram punidas.

Outra ferramenta do governo brasileiro para controlar o desmate é o Imposto Territorial Rural (ITR), em que as áreas improdutivas são mais taxadas que as áreas produtivas, porém há uma alta taxa de sonegação e baixa fiscalização. “Essa lei teria um efeito secundário ambiental importante, além do efeito econômico. Se fosse bem aplicada, poderia melhorar a produtividade das áreas desmatadas”, conclui Barreto. 

Fonte: Bol.com.br

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