Histeria em massa é uma poderosa atividade coletiva

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Na metade do ano passado, uma misteriosa doença varreu a remota cidade de El Carmen de Bolívar, no norte da Colômbia. Em quatro meses, de maio a setembro, um total de 240 meninas, adolescentes e pré-adolescentes, foram hospitalizadas por conta de intrigantes sintomas que incluíam desmaios, perda de fôlego, severas dores de cabeça, mãos amortecidas, náusea e convulsões.

Joaquin Sarmiento/AFP
TOPSHOTS A teenage girl is brought to hospital in Carmen de Bolivar, Bolivar Province, Colombia, after passing out on August 29, 2014. Colombian health authorities have denied that the hundreds of cases of girls who presented symptoms of dizziness, strong headaches and even fainted, are related to having received the HPV "Human papillomavirus" vaccine, which protects against four strains of the human papillomavirus that can lead to cervical cancer. The vaccine aims to prevent the spread of HPV, which is the most common sexually transmitted infection. Certain HPV strains can cause cancers of the cervix, head, neck and anus. AFP PHOTO/Joaquin Sarmiento ORG XMIT: LAC081
Adolescente é levada ao hospital em Carmen Bolivar, na Colômbia, após desmaiar em agosto de 2014

Os limitados recursos da cidade logo se provaram insuficientes, e os médicos estavam perplexos. As meninas receberam oxigênio, aprenderam técnicas de respiração e foram sujeitas a uma bateria de testes conduzidos por médicos e psicólogos que acorreram ao local de toda a Colômbia. Mas a origem da doença jamais foi identificada.

Os moradores de El Carmen de Bolívar – encorajados por reportagens na imprensa – acreditavam que os sintomas fossem efeito colateral do Gardasil, uma vacina contra o vírus do papiloma humano, usada como proteção contra o câncer de colo de útero e que havia sido ministrada às meninas pouco antes dos episódios. Mas quando eles saíram em protesto exigindo uma explicação, o presidente colombiano Juan Manuel Santos declarou que não havia motivo para suspeitar da segurança do Gardasil e sugeriu que a misteriosa doença fosse “um fenômeno de sugestão coletiva”, ou um caso de histeria em massa.

Casos como esse se tornaram obsessão para mim durante a última década. Tudo começou em uma conversa telefônica com Bev Zalcock, minha antiga professora de cinema, a mulher que me inspirou a me tornar cineasta. Começamos a rir escancaradamente por causa de algo trivial, e Bev logo em seguida me falou sobre uma aldeia medieval cujos habitantes começaram a rir sem parar. Intrigada pela informação, procurei mais dados a respeito na Internet. Não descobri coisa alguma sobre a tal aldeia medieval, mas descobri que em 1962, em uma aldeia da Tanzânia, havia acontecido um surto de riso contagioso em um colégio interno religioso para meninas. As risadas vinham acompanhadas de outros sintomas, entre os quais desmaios, choro, agitação, e o surto parece ter sido diagnosticado como caso de histeria em massa.

Poucas semanas mais tarde, conversei com Simon Wessely, o presidente do Real Colégio de Psiquiatria britânico, em seu escritório no King’s College, em Londres, onde ele também leciona medicina psicológica. Homem de cabelos ralos e arrepiados, ele me recebeu sentado a uma mesa repleta de papéis e – para minha sorte – estava pronto a compartilhar seu vasto conhecimento. Wessely me disse que histeria em massa era assunto de seu interesse há quase 25 anos. “Escrevi um estudo sobre histeria em massa como trabalho de conclusão do meu curso de medicina. O que me atraiu à psiquiatria foi que pessoas podem fazer coisas bizarras, e acreditar em coisas bizarras, mas ainda assim não serem insanas”, ele me disse.

O termo histeria em massa é muitas vezes usado de maneira casual para descrever ampla gama de coisas, tais como reações emocionais coletivas à morte de uma figura pública ou à presença de um ídolo pop em um show. Pedi que Wessely explicasse com a maior clareza possível qual era a definição clínica do termo. “Defino-o de maneira estreita. Evito misturá-lo a movimentos sociais e pânicos morais. No caso da histeria de massa, as pessoas precisam acreditar que estão doentes e comunicar essa doença coletivamente por meios psicológicos”.

Desmaios e convulsões não epilépticas são sintomas comuns de uma doença psicológica de massa. O mesmo vale para náusea, vômito, dores de cabeça, fraqueza, tontura, dores no peito, dor no abdome, falta de fôlego e contorções. Logo descobri que esse tipo de doença usualmente ocorre em ambientes fechados, e em pessoas que convivem em estreita proximidade física e social. É comum que surja em fábricas, conventos, hospitais e quartéis militares, mas a maioria esmagadora dos casos reportados surge em escolas.

Para que um surto aconteça, é necessário usualmente um gatilho, alguma forma de fator de estresse. Pode ser um exame escolar ou evento emocional, como uma doença ou morte. A causa pode ser a crença em um espírito maligno ou fantasma. Os gatilhos são muitas vezes ambientais, tais como a reação de pessoas a uma névoa ou odor – ou mesmo à percepção de um odor – ou à ameaça de contaminação de água e comida. Um verdadeiro evento de histeria em massa não resultaria em provas de laboratório capazes de vinculá-lo a uma causa física, e assim deve ser visto como algo que se origina da mente, e que portanto tem origem psicogênica.

Wessely me falou sobre um caso na Bélgica que conquistou ampla divulgação em publicações médicas e jornais. “Havia um grupo de meninas, de uma determinada escola, que desmaiavam quando bebiam Coca-Cola, e assim surgiu o rumor de que o refrigerante havia sido contaminado na fábrica. Isso se espalhou a outras escolas na Bélgica e por fim a Coca-Cola teve de retirar seu produto das lojas. Mas logo surgiu a percepção de que as pessoas que estavam surtando na verdade consumiam Coca-Cola de diferentes origens, e que na realidade o que existia era um caso de histeria em massa”.

Das pessoas envolvidas no surto, 90% eram mulheres. Perguntei a Wessely por que isso acontecia, em sua opinião. “Creio que existam provas de que as meninas são ligeiramente mais sugestionáveis”, ele respondeu. “Especialmente quando adolescentes e sujeitas à pressão de grupos de meninas”. A probabilidade de que mulheres falem sobre seus sintomas e sensações umas com as outras também é maior, o que ajuda a expandir o surto.

Os estudos que tentam explicar doenças psicogênicas de massa revelam, todos, um padrão familiar. Elas são transmitidas por fala e imagens, e portanto é preciso testemunhar o evento para ser atingido por ele. É muito comum que os surtos comecem subitamente e se espalhem com rapidez. Adolescentes e pré-adolescentes se mostram peculiarmente suscetíveis a eles. E a probabilidade de que se expandam cresce se as pessoas envolvidas se conhecerem. Ver um amigo que a pessoa conheça adoecendo é o melhor indicador de que ela mesma virá a desenvolver sintomas. Quando o conhecido desmaia, a pessoa imediatamente começa a se sentir trêmula e doente, e a difusão se inicia. Como sugere Wessely, “a ansiedade cresce, e os sintomas se agravam. A pessoa perde o fôlego, começa a tremer, sente náusea, tontura. Mas em lugar de perceber que está ansiosa, ela pensa que pode ter sido envenenada”.

Conversando com Wessely, meu olhar se via atraído constantemente por duas caixas de arquivos aparentemente repletas, rotuladas “histeria em massa”, na estante por trás dele. Cobiçosa de conhecer o conteúdo, pedi sua autorização para ler os documentos ali guardados.

Passei dois dias lendo artigos que ele recolheu durante 25 anos. Algo que me intrigou especialmente foi um artigo publicado pelo “British Medical Journal” em 1982 sob o título “Epidemia Crônica de Colapsos Histéricos em uma Escola Pública”. A epidemia em questão começou em setembro de 1978 e durou dois anos, afetando 60 meninas e três meninos que sofreram um total de 477 colapsos, que variavam de desmaios a adormecer subitamente. Oito das meninas eram pacientes de epilepsia. O estudo mostrava que a primeira menina começou a desmaiar pouco depois da morte de seu pai, e que todas as oito principais pacientes do caso sofriam de severos problemas emocionais e familiares.

Um dos casos que descobri descreve uma epidemia de hiperventilação entre meninas alunas de escolas de Blackburn em 1965. Isso aconteceu depois de um surto de poliomielite que levou motoristas de caminhão a se recusarem a entrar na cidade e operadores de pensões e pousadas em todo o país a recusar reservas de moradores de Blackburn. Oitenta e cinco meninas foram hospitalizadas. Elas apresentavam diversos sintomas, mas os principais eram tonturas e desmaios. Diversas possíveis causas foram propostas: vírus, envenenamento alimentar, gases, mas nada de concreto foi descoberto. O Incidente de Blackburn é amplamente visto como caso de histeria em massa, provavelmente resultante de ansiedades quanto ao surto de poliomielite na cidade.

Quando saí à rua depois de ficar imersa por longo tempo nos empoeirados artigos de Wessely, me senti tão eufórica que tive de me sentar sobre uma mureta próxima. Decidi que um dia eu faria um filme sobre um surto psicogênico de massa, passado em uma escola feminina. Passados quase 10 anos, The Falling, meu filme sobre uma epidemia de desmaios em uma escola feminina, em 1969, está para estrear dentro de um mês, estrelado por Maisie Williams, Maxine Peake, Greta Scacchi, Monica Dolan e a novata Florence Pugh.

Reprodução/Youtube
Trecho do filme "The Falling"
Trecho do filme “The Falling”

Mas antes de realizar o longa, comecei a explorar a história das doenças psicogênicas de massa por meio de um curta intitulado “Madness of the Dance”, filmado em 2006 e estrelado por Maxine Peake como professora de psicologia. O tema eram as muitas manias de dança que surgiram na Europa entre os séculos 13 e 17, e que envolviam centenas e até milhares de pessoas dançando estranhamente. Durante os surtos dessas manias na Itália, elas eram atribuídas a mordidas de tarântulas. Hoje, são em geral consideradas como tendo origem psicogênica de massa.

Em “Madness of the Dance”, reconstituí um acontecimento que transcorreu em uma escola de segundo grau da Louisiana em 1939. Uma menina que havia sido selecionada para liderar o baile da escola começou a sofrer tremores na perna, e em duas semanas outras 20 meninas apresentaram o mesmo sintoma. Surgiram rumores de que havia uma infecção de febre tifoide na escola, o que causaria as contorções, e por isso a escola terminou fechada. Investigações subsequentes mostraram que a menina, que não tinha experiência como dançarina, ficou tão ansiosa por ter de dançar com um parceiro mais experiente que essa ansiedade se converteu em um tremor em sua perna.

“Madness of the Dance” foi exibido no Freud Museum em companhia de um vídeo chamado “Programme”, do artista Richard Squires, que estudou o trabalho de Jean-Martin Charcot no hospital feminino de Salpêtrière, em Paris, na década de 1880. O pesquisador francês tratava mulheres que vinham apresentando sintomas ditos histéricos, entre os quais quedas e desmaios para os quais não existia explicação médica. Charcot decidiu considerar a conexão entre corpo e mente, e acreditava que a histeria fosse uma condição neurológica, ainda que estudiosos anteriores, remontando a Hipócrates, tivessem argumentado que a histeria estava conectada a problemas nos órgãos reprodutores femininos.

Reprodução
ORG XMIT: 264401_0.tif Augustine, paciente de Charcot, professor de Freud, fotografada em estado histérico-epiléptico no hospital francês La Salpêtriãre.
Augustine, paciente de Charcot, professor de Freud, fotografada em estado histérico-epiléptico no hospital francês La Salpêtriãre.

Enquanto estava trabalhando no roteiro de “The Falling”, participei do festival SXSW, no Texas, com meu filme “Dreams of a Life”, que tratava da vida de Joyce Vincent, morta aos 38 anos em seu apartamento mas cujo corpo só foi descoberto três anos mais tarde. Na mesma semana, a “New York Times Magazine” trazia reportagem de capa sobre 18 alunas de segundo grau, muitas das quais cheerleaders, que estavam sofrendo contorções e algumas quedas na pequena cidade de Le Roy, Nova York. O surto havia acontecido entre o final de 2011 e o começo de 2012, e algumas das meninas continuavam a exibir sintomas quando o artigo foi publicado, em março.

Muitos profissionais da medicina viam o surto de Le Roy como doença psicogênica de massa surgida por conta de desgastes sociais e emocionais. Outros viam a doença como ambiental em essência, causada por uma fonte tóxica. Um dos pais das meninas envolvidas contatou a ativista ambiental Erin Brockovich, que visitou a cidade mas teve recusadas suas tentativas de realizar testes no local da escola. Isso fez parecer com que a escola estivesse escondendo alguma coisa, o que, somado à celebridade de Brockovich, tornou o caso das meninas de Le Roy uma sensação de mídia (a maioria dos casos de histeria em massa não recebe ampla cobertura da imprensa). No momento do artigo do “New York Times” sobre o caso, metade dos alunos da escola estava recebendo aconselhamento psicológico e a outra metade estava sendo tratada com antibióticos. Alguns dos adolescentes postaram vídeos sobre suas vidas no YouTube.

Lori Brownell, 16, conta em seu vídeo no YouTube que havia perdido o fôlego e desmaiado em um show, e que depois de um baile da escola seus desmaios se tornaram mais frequentes até que passaram a ocorrer todos os dias; ela também começou a sofrer convulsões. Brownell passou a sofrer de diversos tiques, fazia barulhos estranhos com o nariz e a garganta, batia palmas e piscava incessantemente. Lori perguntava aos espectadores do vídeo: “Como lidar com isso? Se alguém quiser falar sobre isso, ou se alguém está começando a passar por isso, estou disposta a falar”. Fiquei impressionada com a clara necessidade expressa por ela de que seus sintomas fossem discutidos, e ficassem visíveis, e imaginei se a mídia social não poderia afetar a maneira pela qual doenças psicogênicas se difundem; se ver um vídeo de alguém ostentando sintomas desse tipo de doença na Internet não afetaria o espectador, caso ele admirasse a pessoa que estava vendo. Entre os comentários sobre o vídeo de Lori, alguém da Islândia escreveu: “Mantenha-se positiva, e espero que alguém descubra o que está acontecendo. Você é muito linda, aliás”.

Perguntei a Wessely sobre o surto de Le Roy. Ele questionou o caso dizendo que, se a causa fosse tóxica, por que estaria se manifestando apenas em meninas de idade semelhante – com uma única exceção? As doenças psicogênicas de massa sempre devem ser encarados com suspeita caso se mostrem seletivas e afetem apenas meninas adolescentes.

Perguntei a Wessely sobre o estigma da doença mental, e a resistência a um diagnóstico de doença psicogênica de massa, da parte de muitos dos envolvidos no surto de Le Roy. “Não é nem mesmo uma doença mental, na verdade, só uma resposta coletiva, mas as pessoas ainda temem demais o espectro dos distúrbios mentais e se esforçarão ao máximo para evitar esse tipo de rótulo”, ele disse. Wessely folheou o artigo, e olhou as fotos das meninas. “Se você estuda um caso bem documentado de histeria em massa, depois que ele ocorreu, o desejo apaixonado dos envolvidos, ou de seus pais, caso as vítimas sejam crianças, é o de não acreditar no diagnóstico”.

Wessely mencionou um caso recente em uma escola, definido como doença psicogênica de massa inicialmente mas que mais tarde foi associado à presença de pesticida em pepinos. Embora possa haver casos erroneamente classificados como psicogênicos, por exemplo um surto de envenenamento alimentar ou casos de pessoas que desmaiam em uma fábrica devido às condições precárias de trabalho, há sempre o perigo de que, se pessoas que estão sofrendo de histeria em massa comecarem a acreditar que há algum veneno em ação no trabalho, elas não consigam se recuperar, e prefiram pensar que talvez exista uma causa médica não descoberta para o problema, já que a alternativa, aceitar que tudo não passa de um fenômeno mental, é muito difícil de aceitar.

Outras pessoas gente poderiam imaginar que houve um acobertamento. O mais recente conselho da Agência de Proteção à Saúde do Reino Unido sobre como reagir a incidentes de doenças psicogênicas de massa é não revelar às pessoas atingidas que a origem do incidente é psicogênica, mas afirmar em lugar disso que as causas são “desconhecidas” ou “relacionadas ao estresse”. A agência também repetiu a opinião, amplamente defendida, de que é importante minimizar a atenção médica desnecessária e tentar prevenir boatos e notícias na mídia.

Wessely me contou sobre um dos primeiros casos de doença psicogênica de massa a ser registrado por escrito em um contexto médico, em 1797. “As mulheres de uma cidade têxtil em Lancashire estavam desmaiando em seus teares. Quando o médico disse que aquilo era só fruto de sua imaginação, os desmaios pararam, o que era mais fácil quando os médicos tinham grande autoridade. Hoje, as pessoas simplesmente acham que algo está sendo acobertado”.

Continuei acompanhando os posts de Lori Brownell no YouTube. Depois de dois anos sofrendo com os seus sintomas, em junho de 2013 ela por fim foi identificada como portadora da doença de Lyme. Muito depois que as demais meninas de Le Roy se recuperaram, ela disse estar enfim recebendo o tratamento correto e melhorando, e que não havia mais sinais de tiques nervosos.

As doenças psicogênicas de massa produzem efeitos fisiológicos reais, e não falsos – ainda que possa existir um gatilho na forma de uma pessoa legitimamente doente iniciando o surto e causando ansiedade aos demais, que a copiam inconscientemente. Além disso, elas são certamente reações aos estresses das eras em que ocorrem.

Decidi que “The Falling” se passaria nos anos 60 porque boa parte das pesquisas que realizei, especialmente quanto aos surtos psicogênicos de massa daquele período, sugeriam culpa sexual ou uma preocupação com questões sexuais como fator. Senti que seria uma maneira interessante de estudar a complexidade da identidade e sexualidade de uma mulher jovem, e a natureza mutável da moralidade sexual, especialmente para as mulheres, o que permitiria vincular o surto a estresses culturais e morais.

Em um “Relatório Sobre Uma Epidemia Fantasma de Gonorreia”, de 1966, os autores delineavam como um médico escolar foi convocado a uma escola ginasial dos Estados Unidos por conta de uma epidemia histérica relacionada a um suposto surto de gonorreia entre as meninas. O artigo indicava que o foco nos sanitários da escola como fonte da doença “pode ter mascarado a possibilidade mais ameaçadora de que as crianças estivessem envolvidas em contatos sexuais”. Outro artigo, de 1964, concluía que o medo, entre os estudantes de segundo grau, de que a promiscuidade sexual pudesse ser punida com sentença de internação em um reformatório havia sido a causa de uma epidemia de desmaios.

Robert Bartholomew, que escreve sobre doenças psicogênicas de massa desde 1986, afirma em seu livro “Little Green Man, Meowing Nuns and Head-Hunting Panics” que “muitos episódios têm uma qualidade quase religiosa. É como se uma força invisível tomasse o controle das mentes dos participantes”. Em “The Falling”, é Kenneth (Joe Cole), o irmão de Lydia (Maisie Williams), que estuda indicadores de que a epidemia de desmaios possa ter sido causada por forças diferentes: não químicas, não emocionais, não neurológicas ou psicológicas, mas sim ocultas e diabólicas.

Antes de começar a rodar o filme, assisti a “The Devils”, de Ken Russell. O filme se baseia em “The Devils of Loudun”, de Aldous Huxley, um estudo histórico sobre o Padre Grandier, acusado de enfeitiçar um convento e causar ataques de histeria. As explicações iniciais sobre formas de histeria em massa eram de que as pessoas estavam possuídas pelo demônio. Sintomas e crenças semelhantes eram evidentes em Salem durante o julgamento das bruxas em 1692. Houve surtos de contorções, desmaios e tremores, ao longo do período, e a primeira pessoa que se declarou possuída foi Abigail Williams; por isso usei seu nome para o personagem Abigail em “The Falling”.

Quando primeiro conversei com Greta Scacchi sobre a possibilidade de ela interpretar o papel da severa Miss Mantel, a subdiretora da escola, a atriz disse que o roteiro a levara a recordar “Picnic at Hanging Rock”. Eu disse que era fã do filme de Peter Weir, e especialmente de o espectador jamais descobrir o que causou o desaparecimento das estudantes ou do professor. Eu havia espalhado indícios sobre diversas possibilidades em meu roteiro, para que a audiência pudesse decidir por si a causa dos desmaios. Por isso fiquei contente com um vídeo recente do YouTube, postado em resposta a um trailer do filme pelo usuário Triple A Gaming: “Creio que a culpa é da fibra de amianto ou de fungos crescendo por trás das paredes da escola, que causam problemas às alunas”.

Enquanto editávamos “The Falling”, Robert Bartholomew e Bob Rickard lançaram “Mass Hysteria in Schools”, que delineia casos acontecidos em todo o mundo desde 1566. O livro inclui um capítulo sobre o surto na escola de Le Roy e sugere que a mídia social pode alterar a maneira pela qual futuros surtos ocorrerão, e discorre sobre como “a mídia social está eliminado a necessidade de contato visual ou verbal direto com outras vítimas”.

Em junho de 2014, quando eu estava envolvida na finalização da pós-produção de meu filme, li sobre um episódio em Yanagawa, Japão, onde depois de uma visita escolar ao Monte Hiko, que de acordo com uma lenda é assombrado pelo fantasma de uma menina decapitada, uma garota começou a gritar no meio da aula, e em poucas horas 26 meninas começaram a sentir calafrios e desmaiar, forçando o fechamento da escola. Relatos na Internet descrevem como os alunos postaram fotos e mensagens nas mídias sociais. “Nossa escola. Corre o boato de que um espírito malévolo foi trazido da montanha. Agora, 15 pessoas desmaiaram. As meninas estão dizendo coisas como ‘me mate’, ou ‘morra!’. Muito louco…” Por trás da história, que circulou por muitos sites, havia comentários sugerindo que os absorventes higiênicos vendidos pela máquina automática da escola estavam contaminados, ou que mulheres são fracas e portanto mais suscetíveis à possessão demoníaca.

Depois da estreia de “The Falling” no Festival BFI London, no ano passado, houve mensagens no Twitter sobre pessoas que desmaiaram ao ver o filme. Recordei um artigo do “Rhode Island Medical Journal”, de 1974, que havia lido no escritório de Wessely, intitulado “Baixas Psicológicas de ‘O Exorcista'”. O artigo falava de pessoas que, em ocasiões separadas, haviam assistido a “O Exorcista” ou ficaram expostas à publicidade do filme e posteriormente recorreram a médicos aos quais se queixaram de possessão demoníaca. Embora a resposta à exibição de “The Falling” no festival ou de “O Exorcista” nos cinemas não seja um surto psicogênico de massa, isso me fez pensar no poder da sugestão, e na necessidade de conexão, que parecem desempenhar papel imenso nos surtos.

Mais tarde mostramos o filme a Maxine Peake, que interpreta Eileen, a mãe de Lydia no filme. Maxine veio com uma amiga atriz, Michelle, e não imaginava o quanto o filme a impressionaria. Depois, Michelle, que não quis que seu sobrenome fosse revelado, me falou sobre experiências pelas quais passou em sua escola, na qual um exorcismo foi executado.

Minhas pesquisas haviam revelado que uma cerimônia de exorcismo em geral agrava a histeria em massa, mas Michelle me contou que, no caso de sua escola, ela funcionou. “Foi em 1982, eu tinha 12 anos, e estudava em uma grande escola mista católica. Houve uma época em que o pessoal da escola fingia desmaiar. Uma menina era excelente nisso, e costumava desmaiar na aula de marcenaria; outras pessoas começaram a imitá-la, e a coisa se espalhou. Gostávamos do drama da coisa, e os professores ficavam sem ação. O controle era todo nosso”.

Michelle recorda outra ocasião em que isso aconteceu e o desmaio não pareceu simulado. “Havia oito meninas, entre as quais eu, e éramos como uma gangue. Vestíamos as mesmas roupas, saias pregueadas e curtas, colarinhos apertados, casacos de pele de carneiro, mocassins, e decidimos fazer a brincadeira da mesa. No dia seguinte, só falávamos nisso na escola e de repente havia uma menina no corredor falando latim ou um idioma incompreensível, e a coisa virou um caos. Logo ficamos meio histéricas, crentes de que algo nos aconteceria. As meninas choravam no banheiro dizendo terem visto o diabo no espelho, e uma delas xingou uma freira”.
Michelle conta que as meninas começaram a sofrer ataques de vômito e dores de cabeça. “Só acontecia com as meninas. Não me recordo de acontecer com qualquer menino. O que mais lembro sobre isso é que sentíamos que estávamos compartilhando de algo importante Parecia sexy – a palavra soa estranha, mas era empolgante”.

No quarto dia do surto, Michelle estava no pátio, onde as meninas todas se esforçavam por garantir que seus sintomas fossem bem visíveis. “A subdiretora correu na minha direção dizendo que eu era uma bruxa. Ela disse que a culpa era minha. Identificaram três de nós como as líderes, e o padre da escola, que havia realizado exorcismos na África, nos exorcizou depois das aulas, em uma minúscula capela. O padre jogou água benta na gente e pediu que renunciássemos ao demônio. Não sei se foi um exorcismo real, mas resolveu a questão. No dia seguinte, tudo havia voltado ao normal”.

Perguntei a Michelle se havia fatores de estresse naquele momento. “Na verdade sim, a escola estava mudando, abandonando o sistema de admissão seletiva. Meus pais tinham se divorciado, o que era inédito entre os alunos, e era a Semana Vocacional, na qual padres e freiras visitavam a escola para ver se algum aluno levava jeito para a vida religiosa”. Eu disse a Michelle que o surto em sua escola era um exemplo clássico de doença psicogênica de massa. Quando a contenção desaparece, comportamentos antes reprimidos são liberados e isso oferece um escape, de outra forma inexistente, das tensões do momento.

Muitos casos de doenças psicogênicas de massa são contidos e não viram notícia. Isso acontece com mais frequência do que imaginamos. Ninguém escreveu coisa alguma de definitivo sobre os motivos para que eles aconteçam, e embora o padrão seja bem definido, o mistério sobre esses episódios continua forte.

Nos 10 anos desde que comecei a conversar com Wessely, criei meu próprio arquivo sobre doenças psicogênicas de massa e percebi o que embasa minha dedicação a fazer o longa que se tornou “The Falling”. É a natureza coletiva do surto que me atrai, a ideia de um grupo de meninas respondendo de modo desafiador e resistindo ao mundo ao seu redor. Embora a experiência de passar por uma doença psicogênica de massa seja perturbadora, na maioria dos casos, eu também gostava da ideia de que você só viria a sofrer dela caso se identificasse com outra pessoa, caso sentisse empatia.

Não importa o quanto doenças psicogênicas de massa pareçam estranhas e misteriosas, ou quão pouco se conheça a seu respeito, elas continuam a ser uma atividade coletiva poderosa e uma resposta grupal desafiadora às nossas vidas modernas. O que quer que exista por trás disso, parece improvável que venha a ser totalmente erradicado um dia. Essas doenças são parte da condição humana e em seu cerne está a necessidade esmagadora de sentir conexão e de fazer parte.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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