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Leia 'Marx Hoje', texto de Eric Hobsbawm


05/05/2015

10h19


da Livraria da Folha

Em “Marx Hoje”, texto do livro “Como Mudar o Mundo”, Eric Hobsbawm discorre sobre um debate que ocorreu na Sala Redonda de Leitura do Museu Britânico, em homenagem a Karl Marx. A conversa serviu para pensar a respeito do legado comunista e de seus desdobramentos neste século.

Nascido em Tréveris, na Alemanha, em 5 de maio de 1818, Karl Heinrich Marx é um pensador essencial para se entender o século 20. Marx ganhou tantas definições quanto as suas teorias. “Como Mudar o Mundo” é uma espécie de tributo à influência do autor de “O Capital” sobre a obra de Hobsbawm.

Abaixo, leia um trecho.

*

1. Marx hoje

Em 2007, a Jewish Book Week realizou-se menos de uma quinzena antes da comemoração do aniversário da morte de Karl Marx (14 de março) e a pouca distância da Sala Redonda de Leitura do Museu Britânico, o lugar em Londres a que ele é sempre associado. Dois socialistas muito diferentes, Jacques Attali e eu, participamos do evento para lhe prestar nossas honras póstumas. No entanto, considerando-se a ocasião e a data, a homenagem encerrava duas surpresas. Não se pode dizer que ao morrer, em 1883, Marx tivesse propriamente fracassado, pois seus textos tinham começado a causar impacto na Alemanha (onde um movimento encabeçado por discípulos seus já estava a caminho de controlar o movimento operário alemão) e, principalmente, sobre intelectuais na Rússia. Entretanto, em 1883 havia pouca coisa que justificasse o trabalho de toda a sua vida. Marx havia escrito alguns panfletos brilhantes e a base de sua obra magna, inacabada, O capital, trabalho que pouco avançou na última década de vida do autor. “Que obras?”, retrucou ele, acabrunhado, quando um visitante lhe perguntou sobre suas obras. A chamada Primeira Internacional de 1864-73, sua principal iniciativa política desde o fracasso da revolução de 1848, tinha ido a pique. Tampouco ele granjeara para si um lugar importante na política ou na vida intelectual da Grã-Bretanha, onde vivera como exilado durante mais de metade da vida.

Entretanto, que extraordinário êxito póstumo! Menos de 25 anos após sua morte, partidos políticos operários fundados em seu nome, ou que afirmavam inspirar-se nele, recebiam de 15% a 47% dos votos em países com eleições democráticas – sendo a Grã-Bretanha a única exceção. Depois de 1918, a maioria desses partidos passou a fazer parte dos governos, deixando de ser apenas oposição, e assim eles permaneceram até depois do fim do fascismo, quando então se dispuseram a repudiar sua inspiração original. Todos existem ainda. Nesse meio-tempo, discípulos de Marx criaram grupos revolucionários em países não democráticos e no Terceiro Mundo. Setenta anos após a morte de Marx, um terço da humanidade vivia sob regimes regidos por partidos comunistas que alegavam representar suas ideias e materializar suas aspirações. Bem mais de 20% da humanidade ainda vivem em países comunistas, embora seus partidos governistas, com pequenas exceções, tenham mudado radicalmente sua política. Em suma, se houve um pensador que deixou uma marca forte e indelével no século XX, foi ele. No Cemitério Highgate estão sepultados dois pensadores do século XIX – Karl Marx e Herbert Spencer – e, curiosamente, da tumba de um se avista a do outro. Quando ambos eram vivos, Herbert era considerado o Aristóteles da época, enquanto Karl era um sujeito que morava nas ladeiras mais baixas de Hampstead à custa do dinheiro do amigo. Hoje ninguém sequer sabe que Spencer está sepultado ali, enquanto peregrinos idosos, vindos do Japão e da Índia, visitam o túmulo de Karl Marx, e comunistas exilados iranianos e iraquianos fazem questão de ser enterrados à sua sombra.

A era de regimes comunistas e de partidos comunistas de massa chegou ao fim com a derrocada da União Soviética, pois mesmo onde ainda sobrevivem, como na China e na Índia, na prática abandonaram o velho projeto do marxismo-leninismo. E, quando assim procederam, Karl Marx viu-se mais uma vez numa terra de ninguém. O comunismo alegara ser seu único herdeiro verdadeiro, e suas ideias tinham sido em grande medida identificadas com o movimento. Isso porque mesmo as tendências marxistas ou marxistas-leninistas dissidentes que fincaram cabeças de ponte aqui e ali, depois que Stálin foi denunciado por Kruchev, em 1956, eram, quase certamente, cisões de partidos comunistas. Assim, durante a maior parte dos primeiros vinte anos depois do centenário de sua morte, Marx se tornou, a rigor, um homem do passado, que já não merecia que nos incomodássemos com ele. Houve mesmo um jornalista que deu a entender que o fato de falarmos sobre ele aqui, esta noite, é uma tem tativa de resgatá-lo da “lata de lixo da história”. No entanto, Marx é hoje, mais uma vez, e com toda justiça, um pensador para o século XXI.

Não creio que se deva dar demasiada importância à pesquisa de opinião da BBC segundo a qual os ouvintes britânicos o apontavam como o maior de todos os filósofos, mas, se digitarmos seu nome no Google, ele continua a ser a maior de todas as grandes presenças intelectuais, só superada por Darwin e Einstein, mas bem à frente de Adam Smith e Freud.

Em meu entender, há duas razões para isso. A primeira é que o fim do marxismo oficial na União Soviética liberou Marx da identificação pública com o leninismo na teoria e com os regimes leninistas na prática. Ficou claríssimo que havia ainda muitas e boas razões para se levar em conta o que Marx tinha a dizer sobre o mundo. E principalmente – essa é a segunda razão – porque o mundo capitalista globalizado que surgiu na década de 1990 exibia, em vários aspectos vitais, uma estranha semelhança com o mundo previsto por Marx no Manifesto comunista. Isso ficou claro na reação do público ao sesquicentenário desse surpreendente panfleto em 1998 – que foi, diga-se de passagem, um ano de enorme perturbação na economia global. Dessa vez, paradoxalmente, quem redescobriu Marx foram os capitalistas, e não os socialistas, que estavam desalentados demais para comemorar a data com muito entusiasmo. Lembro-me de como fiquei atônito ao ser procurado pelo editor da revista de bordo da United Airlines, de cujos leitores 80% devem ser executivos americanos. Eu havia escrito um artigo sobre o Manifesto. Como ele achava que os leitores da revista estariam interessados num debate sobre o Manifesto, perguntou se eu o autorizava a usar trechos de meu artigo. Fiquei ainda mais espantado quando, num almoço mais ou menos na virada do século, George Soros me perguntou o que eu achava de Marx. Por saber o quanto nossas ideias eram divergentes, preferi evitar uma discussão e dei uma resposta ambígua. “Esse homem”, disse Soros, “descobriu uma coisa com relação ao capitalismo, há 150 anos, em que devemos prestar atenção.” E tinha descoberto mesmo. Pouco depois disso, autores que, ao que eu saiba, nunca tinham sido comunistas voltaram a olhar para ele com seriedade, como faz Jacques Attali em seu novo estudo sobre Marx. Attali também crê que Marx ainda tem muito a dizer àqueles que desejam que o mundo seja uma sociedade diferente e melhor do que a que temos atualmente É bom lembrar que mesmo desse ponto de vista precisamos levar Karl Marx em conta hoje em dia.

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COMO MUDAR O MUNDO
AUTOR Eric Hobsbawm
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 51,00 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.


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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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