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Moradoras de Paraisópolis abrem negócios incentivadas pela novela

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As histórias de seis moradoras da maior favela paulistana têm jeito de novela. Têm figurantes de novela, inspiração em novela, final feliz de novela. Mas, acredite, não é novela.

O primeiro enredo envolve a bailarina clássica Marília Villar, 28, e a atendente Taise dos Santos, 20. Desempregadas, foram selecionadas para atuarem como figurantes em “I Love Paraisópolis”, folhetim das 19h da Globo que estreia nesta segunda (11).

Senhoras do Destino

Com o dinheiro do cachê —R$ 50 por dia para cada uma, Marília e Taise decidiram, em março, investir na produção de brigadeiros. Recorreriam a um ingrediente a mais: venderiam os docinhos fantasiadas.

Vestidas de palhaças, passaram a oferecer os quitutes, por R$ 2 cada, em Paraisópolis e na rua Augusta, na região central. O trabalho se estendeu até meados do mês passado.

Embaladas pela chegada da novela e com o dinheiro acumulado nas vendas, a dupla decidiu abrir a lanchonete I Love Potato & Panqueca. Para o projeto, contaram com a ajuda das sócias e amigas Jéssica Motta, 22, e Thais Barros, 23.

“Duas de nós queríamos montar um negócio com batatas, e outras duas, com panquecas”, conta Marília. “Como não sabíamos escrever panquecas em inglês, ficou essa mistura de português com inglês.” Tradução de panqueca: pancake.

Embora inspiradas pelo título da trama, a empatia das quatro jovens pelo nome surgiu com o tempo.

“Não gostei ao saber que esse seria o nome da novela. Não achei original. Só depois passei a gostar”, afirma Jéssica, que também atuou como figurante. “Nos filmes sobre favela, é sempre mostrado o estereótipo. É a primeira vez que vão mostrar o lado bom.”

Com a ajuda do pai de uma delas, as comerciantes pintaram de amarelo e azul as paredes internas. A fachada tem identidade visual similar ao do logotipo da novela, com as cores amarelo e vermelho. “Foi uma coincidência. Optamos pelo amarelo e vermelho por serem as cores da fome”, afirma Marília.

Editoria de arte/Revista sãopaulo

O espaço de um cômodo e um banheiro é decorado com uma bancada de tijolos expostos, cactos e um livro de Clarice Lispector. O som é ambiente e o cliente pode deixar uma mensagem no quadro-negro. O aluguel mensal:
R$ 600 (valor do lucro após quatro dias de abertura).

Se não fosse inspirada no folhetim global, a lanchonete seria só mais uma em meio ao comércio da favela, que conta cerca de 8.000 estabelecimentos comerciais.

Rivalizando com restaurantes que geralmente servem prato executivo, a casa vem causando um misto de curiosidade e estranheza na região.

“Ei, moça, vou querer dois negócios desses aí”, solicitou, outro dia, meio ressabiado, um senhor robusto, com óculos escuros. Os “negócios” aos quais se refere são as panquecas servidas.

Uma panqueca ou uma batata recheada custa R$ 7,90. O combo, que inclui arroz branco, batata palha, água ou refrigerante e o brigadeiro de sobremesa, sai a R$ 12,90.

“O brigadeiro não pode faltar”, diz Taise. “Foi por causa dele que tudo começou.”

São as próprias comerciantes que fazem tudo: do atendimento aos clientes aos pratos feitos na minúscula cozinha, da entrega à contabilidade. “Queremos proporcionar aos moradores daqui uma gastronomia diferente, vista, muitas vezes, só no shopping”, afirma Taise.

O universo do empreendedorismo nas favelas vem se tornando cada vez mais uma tendência no mercado.

Um estudo realizado neste ano pelo Instituto Data Popular com a Cufa (Central Única das Favelas) mostrou que 4 de cada 10 moradores das favelas brasileiras querem empreender.

Além disso, 55% deles desejam abrir um negócio próprio nos próximos três anos —o dobro do espírito empreendedor da população em geral, que não ultrapassa os 23%.

SOUVENIRS

O segundo enredo tem como personagem principal Claudia Raphael dos Santos, 36, que mora a dez minutos de caminhada da lanchonete.

Após sair do emprego com carteira assinada na Cufa do Rio, há cinco anos, a carioca desembarcou em terras paulistanas e decidiu comprar uma máquina de serigrafia.

Começou estampando camisetas

para a própria Cufa, na qual se tornou coordenadora-geral em São Paulo —sem vínculo empregatício. As encomendas, porém, eram insuficientes para manter o negócio.

“Não bastava só equipamento. Eu não estava sabendo me comunicar. Faltava algo”, explica Claudia, graduada no fim do ano passado no curso de tecnologia em marketing.

A luz no fim do túnel veio ao enfrentar o trânsito de Paraisópolis em meio ao início das gravações das cenas da trama global.

“Eu estava muito irritada, porque precisava ir para uma consulta e a favela estava travada”, relembra Claudia. “Na hora, quando soube que eram filmagens, pensei: ‘O que a novela vai trazer à comunidade? Será que vai falar bem? Quais vão ser os benefícios para a comunidade?’ Afinal, o nome Paraisópolis pertence a todos os moradores.”

Depois de consultar amigos informalmente, ela decidiu tentar lucrar ao ver a região em evidência. Fundou o Ateliê Made in Favela, em sociedade com a produtora cultural Deka Carvalho, 33.

A proposta do estabelecimento: produzir souvenirs e uma série de produtos customizados como a linha “Eu Amo Paraisópolis”, aportuguesando o título da novela.

“A gente é favela. Essa é a nossa identidade. Não queria trazer só o nome de Paraisópolis, porque queríamos chegar a toda a periferia”, afirma Claudia. “E o Ateliê transcende a estamparia. É algo pensado no cliente.”

Numa prensa são produzidas canecas e bonés. Em outra máquina, chinelos, camisetas e mouse pads são personalizados. A lista de pedidos é eclética: vai de uniformes encomendados por comerciantes de Paraisópolis à produção de materiais gráficos para shows de grupos musicais e até de uma atriz global.

“No mês passado, fizemos um da Jeniffer Nascimento [atriz de “Malhação”], que se apresentou na Cohab I [zona leste da capital]. Fizemos camisetas e canecas dela. Não sobrou nada”, diz Deka.

Os preços dos souvenirs e estampas variam de R$ 5 (mouse pads) a R$ 60 (kit toalete), conforme o produto e o tamanho do desenho.

“Também estamos criando redes de parceria. Apostamos na economia solidária e criativa. Assim todo mundo ganha”, afirma Deka. “Quando querem falar mal, dizem favela. Quando querem falar bem, dizem comunidade. Para nós, favela não é um xingamento, é uma identidade.”

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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