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Questão racial nos EUA deve ser tema de disputa presidencial em 2016

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A tensão racial nos Estados Unidos, exacerbada nos últimos meses por sucessivos casos de violência policial contra negros, dá sinais de que pode se tornar um dos grandes temas das eleições presidenciais no país em 2016.

Assuntos como imigração, economia e política externa têm dominado o debate público entre democratas e republicanos. Mas, na semana em que violentos protestos tomaram conta de Baltimore (Marylan), a reforma do sistema judicial americano virou o centro das atenções entre os pré-candidatos à Casa Branca.

Protesto em Baltimore

A ex-secretária de Estado Hillary Clinton, favorita entre os democratas, usou seu primeiro grande discurso como candidata para tratar das “duras verdades sobre raça e justiça” no país. Do lado republicano, os senadores Rand Paul (Kentucky) e Ted Cruz (Texas) –que já anunciaram suas campanhas– e o ex-governador da Flórida Jeb Bush, cujo anúncio deve sair nas próximas semanas, também falaram sobre o tema.

“Os casos de [violência policial em] Ferguson, Nova York e Baltimore chamaram muita atenção recentemente e ficou difícil para os candidatos não tratarem do tema. Há uma demanda da população para saber o que os políticos acham disso”, afirma Nicole Fortier, coautora do livro “Solutions: American Leaders Speak Out on Criminal Justice” (Soluções: Líderes Americanos Falam sobre Justiça Criminal).

Pesquisa do jornal “The New York Times” divulgada na terça-feira (5) aponta que 61% dos americanos acreditam que as relações raciais nos EUA são ruins. O número está bem acima dos 44% registrados em agosto do ano passado, logo após o assassinato de Michael Brown, 18, em Ferguson (Missouri), pela polícia.

A publicação, organizada pelo Brennan Center for Justice, da Universidade de Nova York, reúne as propostas dos principais nomes da política americana para lidar com o policiamento agressivo e o encarceramento em massa no país, resultado de políticas linha dura adotadas nos anos 1980 e 1990 para combater os altos índices de criminalidade.

“Há nesse momento um debate significativo sobre a reforma do sistema criminal nos EUA, às vezes em lugares surpreendentes da ala conservadora”, diz o professor David Harris, da Faculdade de Direito da Universidade de Pittsburgh.

Ainda mais surpreendente é o fato de haver consenso entre políticos dos dois grandes partidos americanos sobre o assunto: todos concordam que é preciso tratar das consequências das políticas anteriores e reformar o sistema judicial. Divergem, no entanto, na forma de fazer isso.

Hillary, Cruz e Paul querem reduzir as sentenças mínimas obrigatórios no país. O governador de Nova Jersey, Chris Christie, propõe liberar sem fiança detidos acusados de crimes não violentos e que aguardam julgamento.

O governador de Wisconsin, Scott Walker, quer expandir o tratamento para usuários de drogas como alternativa à prisão, enquanto o senador Marco Rubio (Flórida) quer dificultar a condenação de réus federais cuja intenção de cometer um crime não seja comprovada.

“É muito surpreendente como os ventos mudaram rapidamente entre os políticos americanos. Agora, todos eles concordam que reduzir o encarceramento e achar alternativas para isso é realmente importante”, diz Fortier.

Os Estados Unidos são responsáveis por 20% da população carcerária mundial, embora só correspondam a 5% da população total. Mais de 2,2 milhões de americanos estão atrás das grades –o número aumentou sete vezes entre 1973 e 2009.

Entre os negros, a situação é pior: de cada 12 homens com idade entre 25 e 54 anos, um é detido –entre os brancos, a proporção é de um a cada 60. Uma vez liberados, eles têm problemas para encontrar um emprego e se reajustar à vida na sociedade, dizem especialistas.

BALTIMORE

No discurso da última quarta-feira (29), Hillary Clinton pediu um fim ao excesso de sentenças de prisão, “um fardo para as comunidades negras”, e também que os Departamentos de polícia obrigue o uso de câmeras de vídeo nos uniformes dos policiais.

“Há algo errado quando um terço dos homens negros do país enfrenta a perspectiva de ser presos durante suas vidas”, disse Hilary.

A ex-senadora pediu ao Congresso que ajude a “acabar com a era do encarceramento em massa”, apostando no esforço conjunto dos dois partidos em Washington para baixar as altíssimas taxas de aprisionamento no país.

Jeb Bush, irmão do ex-presidente George W., afirmou que autoridades municipais e estaduais deveriam investigar as circunstâncias da morte de Freddie Gray em Baltimore “o mais rapidamente possível.”

Gray, 25, morreu após sofrer uma grave lesão na coluna dentro de uma van policial após sua detenção, no dia 12 de abril. Ele foi colocado no veículo com pés e mãos algemados e sem cinto de segurança. Os seis policiais envolvidos no caso foram acusados pela Promotoria de Baltimore.

Ted Cruz afirmou que a morte do jovem deveria ser “imparcialmente e minuciosamente investigada”.

Nem todas as reações, no entanto, saíram como o esperado. Em entrevista a um programa de rádio, o senador Rand Paul afirmou: “Meu trem passou por Baltimore na noite passada. Fiquei feliz que ele não parou.”

Editoria de Arte/Folhapress

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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