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Um ano depois, Abreu e Lima ainda exorciza o trauma da greve da PM

Para a população local, as lembranças dos dias caóticos de greve jamais serão esquecidas, provocando uma mistura de tristeza e vergonha. Foto: Allan Torres/Arquivo DP/D.A Press
Para a população local, as lembranças dos dias caóticos de greve jamais serão esquecidas, provocando uma mistura de tristeza e vergonha. Foto: Allan Torres/Arquivo DP/D.A Press

Treze de maio de 2014. Há um ano a Polícia Militar deflagrava a greve que marcou Pernambuco e espalhou, durante 50 horas, uma onda de insegurança pelo estado. Para os moradores de Abreu e Lima, município da Região Metropolitana do Recife, com uma população aproxidada de 95 mil habitantes, as lembranças daqueles dias caóticos ainda pairam e as cenas do vandalismo que tomou conta da cidade jamais serão esquecidas.

Já era noite da terça-feira quando a PM anunciou a paralisação da categoria. No dia seguinte, 14 de maio, Abreu e Lima comemorava seu 32° aniversário e o comércio havia fechado as portas mais cedo. O gerente de uma loja de calçados, Tiago Moura, já estava em casa quando foi surpreendido com a notícia de que a empresa havia sido saqueada. “Recebi uma ligação e quando cheguei ainda estava acontecendo. Não tinha o que fazer, o policiamento não dava conta e tivemos que esperar eles terminarem. Levaram tudo. Foi um prejuízo de R$ 200 mil e quatro dias de portas fechadas antes de recomeçar do zero”�, lembra.

Gerente de loja, Tiago Moura já estava em casa quando foi surpreendido com a notícia dos saques:
Gerente de loja, Tiago Moura já estava em casa quando foi surpreendido com a notícia dos saques: “Recebi uma ligação e quando cheguei ainda estava acontecendo”. O prejuízo foi de R$ 200 mil. Foto: Rodrigo Silva/ESP. DP/D.A Press

Assim como a loja de calçados, outros 100 estabelecimentos comerciais tiveram as portas quebradas, vitrines destruídas e todo estoque levado pelos saqueadores. Nas vias ao redor do Centro, caminhões foram abordados e tiveram as mercadorias roubadas.

Para o kombeiro Cícero Lourenço, 55, morador de Abreu e Lima, o clima era de guerra. “A gente passava de Kombi e eles queriam que a gente parasse para levar os produtos roubados. Eu jamais faria isso. Só queria chegar em casa, estava tudo um caos”�, conta.

Os saques foram praticados por uma multidão de idosos, adolescentes, homens, mulheres e até crianças. Algumas pessoas de outras cidades foram para Abreu e Lima para furtar as lojas, no fenômeno chamado de efeito manada. A filha de Cícero, a fiscal de transporte complementar Gessyca Mikaely, 23, diz que muitas pessoas eram conhecidas. “Eu via as pessoas pegando e dizia para pararem, que nada daquilo era delas. Mas ninguém ouvia. Eles pegavam, corriam para deixar em casa e depois voltavam para pegar de novo”�, conta.

Cerca de 100 estabelecimentos comerciais tiveram as portas quebradas, vitrines destruídas e todo estoque levado pelos saqueadores. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press
Cerca de 100 estabelecimentos comerciais tiveram as portas quebradas, vitrines destruídas e todo estoque levado pelos saqueadores. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Mais afastado do Centro, em Caetés, o supermercado Arco-Íris foi totalmente depredado e teve 100% dos itens roubados, incluindo equipamentos usados pelos funcionários. A empresa, que funcionava no local há 11 anos, não conseguiu arcar com o prejuízo de R$ 700 mil e fechou as portas. “No primeiro dia da greve, à noite, houve uma invasão. Tínhamos seguranças na loja, mas a quantidade de gente era enorme, não podíamos correr riscos e pedimos que eles se retirassem. No segundo dia, novos saques, durante horas. Não tínhamos o que fazer”�, lembra a diretora do supermercado, Sandra Lima.

Para Sandra Lima, não é possível culpar a população pelo episódio, mas o sentimento de insegurança ainda existe. “Segurança e ética são problemas em todo o país. A questão é que demitimos 50 pessoas e é claro que a possibilidade de uma nova greve assusta”�, admite.

A vendedora Carla Fernanda, 27, acredita que a cidade não foi mais a mesma depois da greve. Para ela, as pessoas não têm mais a mesma confiança nas outras. “Abreu e Lima nunca teve violência, assalto. Aqui as pessoas não tinham esse medo e depois da greve a desconfiança aumentou”.

Duzentos e vinte e um eletrodomésticos, que não tiveram a origem identificada, seguem guardados em um galpão da Polícia Civil, no Curado. Foto: Polícia Civil/Cortesia
Duzentos e vinte e um eletrodomésticos, que não tiveram a origem identificada, seguem guardados em um galpão da Polícia Civil, no Curado. Foto: Polícia Civil/Cortesia

O delegado do município, Albéres Félix, chama atenção para o perfil dos saqueadores. “Eram pessoas honestas, saqueando por impulso”, justifica. “Quando as imagens começaram a ser divulgadas nas redes sociais e na imprensa, um sentimento de vergonha tomou conta da cidade, que é conhecida como uma das mais evangélicas do país. Aí começaram a devolver os produtos roubados na delegacia e até a abandonar na rua. Até no cemitério achamos eletrodomésticos”�, recorda.

Mais de 80 pessoas responderam judicialmente pelos furtos e oito chegaram a ser detidas na época. “Incentivamos as pessoas a devolverem, porque aí não seriam presas. Acredito que 80% das coisas foram devolvidas, mas nem tudo. Um homem chegou a vir na delegacia, por exemplo, devolver um ventilador e um liquidificador. Depois que ele foi liberado recebemos uma ligação anônima e encontramos na casa dele geladeira e ar-condicionado, que ele disse ter esquecido”�, conta.

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Além das milhares de mercadorias devolvidas aos comerciantes, 221 eletrodomésticos, que não tiveram a origem identificada, seguem guardados em um galpão da Polícia Civil, no Curado. Segundo o delegado de Abreu e Lima, o município vai solicitar na Justiça que os produtos sejam leiloados ou doados para alguma instituição de caridade.

Boy do Arrastão

A onda de vandalismo e saques que atingiu e marcou Abreu e Lima se repetiu com menos intensidade em outros pontos do Recife. No bairro de Afogados a cena de um rapaz fugindo com a CPU de um computador, flagrada pela equipe do Diario, virou meme.

José Adaílton dos Santos, na época com 18 anos, ficou conhecido como O Boy do Arrastão e uma página criada em seu nome no Facebook reúne mais de 73 mil curtidas. O Diario procurou José Adaílton, que morava no Coque, mas a comunidade informou que o rapaz havia mudado de endereço por causa da exposição.

O que a categoria pedia

    Plano de cargos e carreiras
    Reestruturação do Hospital da PM
    Reajuste salarial de 30% aos oficiais e 50% para os praças
    Aumento no valor do vale-refeição de R$ 154 para R$ 500

Conquistas

   Discutir o Plano de cargos e carreiras com promoções a cada 5 anos
    Reestruturação do Hospital da PM e interiorização
    Valor do risco de vida (R$ 500) incorporado ao soldo (salário base) da categoria
    Revisão do código disciplinar da PM

* O reajuste salarial pedido pela categoria não foi concedido por se tratar de ano eleitoral. A pauta foi adiada para 2015.

 
Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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