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A culpa dos paulistas



03/06/2015 – 19h01



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Não se pode compreender a audiência de uma novela sem levar em conta o contexto do país em que ela é transmitida.

Isso explica, por exemplo, “Guerra dos Sexos” (Globo). Mulheres e homens não brigavam mais pelas mesmas coisas, então o sucesso em 1983 acabou em pouca audiência na versão de 2012.

É consenso que a atual crise econômica brasileira, aliada à decepção com o governo de esquerda envolvido em corrupção, deu espaço para a proliferação do pensamento conservador.

Portanto a crise no Brasil não é apenas econômica, é moral. Nem o simples abraço entre dois homens e duas mulheres no comercial de O Boticário escapou do chorume fascista.

Em entrevista ao jornal “O Globo”, o autor Gilberto Braga colocou a culpa da baixa audiência da novela “Babilônia” no telespectador paulista. Também aproveitou para contar que está dependente de medicamentos antidepressivos.

Babilônia

Dos erros do autor da trama, certamente o maior deles foi a ingenuidade. Ele ignorou o cenário brasileiro e inundou o primeiro capítulo de sua novela com temas de difícil digestão para uma audiência em crise moral.

Novela, a princípio, não tem função de doutrinar ninguém, só precisa agradar à audiência. Mas, se o autor quer mudar o inconsciente coletivo por merchandising social, que venha como consequência, não finalidade. E cautela.

“Babilônia” flutuou muito rapidamente entre o caos e o didatismo. O público que comprou a proposta inicial e aplaudiu uma ninfomaníaca indo para a cama com quatro homens diferentes no mesmo dia, lésbicas idosas se entregando a um beijo ardente, cenas de traição, tramoias e assassinato no primeiro capítulo não tolerou a trama improvisada para agradar a nova demanda.

Por isso, ao invés de colocar a culpa no telespectador, o autor poderia tentar entendê-lo.

Mas entender a identidade do público paulista, objeto da preocupação de Gilberto Braga, é de fato desafiador, já que a cidade é considerada a mais multicultural do Brasil.

Ao afirmar que “paulista é esquisito”, o autor arrogante ou provincianamente define que o normal é apenas o que ele próprio conhece, o resto é fora do padrão, complicado ou cafona. A idade, ou talvez os medicamentos, não tem feito bem a Gilberto Braga.

São Paulo é o principal centro financeiro e o maior mercado para a cultura do Brasil. O lema da cidade, presente inclusive em seu brasão, é “non ducor, duco”, traduzido do latim “não sou conduzido, conduzo”. Em São Paulo se trabalha muito e, para fugir da angústia do cotidiano, o público da TV aberta muda de canal para esquecer dos próprios problemas.

A culpa da audiência de “Babilônia” é de muita gente, dos líderes neofascistas, da falta de visão da emissora, do psiquiatra de Gilberto Braga e até da Dilma.

Menos do pobre telespectador, já que ninguém é obrigado a assistir o que não quer.

Marcelo Arantes

Marcelo Arantes é médico psiquiatra e psicoterapeuta, atende adultos e crianças em São Paulo e interage com os leitores por meio do site “www.marceloarantes.com”





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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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