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Após doping, melhor esgrimista do Brasil quer volta por cima no Pan-2015

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Um dia antes do embarque para o Pan, eu fui pega no doping. A notícia eu recebi no Hospital Albert Einstein. Estava indo para um consulta médica justamente para ver um tratamento para asma. Quando me ligaram, achei que era pegadinha. Fui muito bizarro. Já faz quatro anos.

Tenho asma desde sempre. Umas tosses que achava que era alergia. Detectei a asma quando não fui para a Olimpíada de Atenas-2004, porque não passei no teste de corrida. Era a primeira do ranking, passei muito mal e não fui. Estava no auge. Seria minha primeira Olimpíada.

Então, em 2011, no dia anterior à disputa do Campeonato Brasileiro, em Porto Alegre, tive uma crise muito forte. Estava no hotel e passei mal. Tossia muito à noite. Então usei o Berotec. Competi e ganhei o campeonato. Estava tranquila. Usei na véspera e, se não faço isso, eu morro. Quem é asmático sabe.

O Berotec é mais forte. Mas nenhum médico tinha obrigação de saber que ele cai no doping. Eu devia saber. Mas não tinha a informação.

Substituía o Aerolim, que não é pego no doping, pela bombinha de Berotec quando passava mal. Eu fazia porque me recomendaram.

Peguei uma pena muito pequena, três meses. Usei. Falei para a juíza. Nunca neguei.

Foi uma surpresa. E muito traumático. Porque eu estava com a mala pronta para Guadalajara. Lembro da cena, minha mala, minha roupa para viajar e não podia embarcar.

Em nenhum momento pensei em parar, porque sempre tive a consciência muito limpa. Se fosse doping mesmo, na maldade, não sei se eu conseguiria continuar. Por vergonha mesmo.

Não fiz nada tentando me beneficiar do doping. Eu tenho uma doença, sou asmática e usei o medicamento por necessidade. Se não uso naquela noite, podia morrer.

Não me sinto culpada. Foi um incidente. Fiquei mal porque perdi uma competição. Perdi um Pan. E isso não tem dinheiro que pague.

Eu estava muito bem naquela época. O Pan, para nós, é a competição que dá visibilidade, chance de ganhar medalha. Para a confederação é importante, é aquele campeonato que alavanca, o mais importante do momento.

Naquele dia no Einstein, eu ia mudar o meu tratamento para um mais moderno do que o com Berotec. Hoje, uso diariamente o Seretid para controlar. Não tenho ataques mais. Nunca mais tive crises. Desde aquela vez. Foi azar.

Hoje, superei totalmente o caso. Me deu até forças. Ficou muito engasgado. E esse engasgado tem que sair agora no Pan de Toronto.

Eu podia ter perdido tudo naquela época. Mas dei sorte. Hoje, se fosse pega no doping, perderia tudo. Eu não perdi um mês de salário. Acho que as pessoas ficaram sentidas com meu caso.

Já era punida por ter a doença. Aí sou punida por usar remédio que não me deixa bem. As pessoas ficaram sensibilizadas. Foi o primeiro caso da esgrima no Brasil.

Depois disso, tive que fazer mais exames antidoping. Com certeza, fiz mais do que faria. Desde então, eu sempre sou escolhida para os testes.

Naquela vez, em 2011, só fiz o exame porque fui campeã brasileira. Se fosse vice, não faria nenhum.

Quem estava no aeroporto não sabia por que eu não ia embarcar. Durante o Pan de Guadalajara eu fiquei uma semana em um sítio em Campina do Monte Alegre [SP], sem falar com ninguém.

VOLTA POR CIMA

Desde então, minha vida melhorou muito. Superei 100%. Estou muito bem resolvida. Minha escolha de ir para a Itália foi para aumentar meu nível na esgrima.

Tinha patrocínio da Petrobras, bolsa do governo e incentivo do Pinheiros. E não perdi. Então pensei em me dedicar exclusivamente à esgrima. Era a hora.

Me formei em designer de moda na Belas Artes, tinha uma marca e larguei tudo para ir à Itália [em 2013].

Apesar de todos esses traumas, coloco na balança e as coisas boas são muito melhores que as más. Curto viajar, curto moda e, por causa da esgrima, estou morando no país da moda e da esgrima.

Parece fácil, mas não é. Tem pressão. Mas é uma escolha muito legal ser atleta.

Espero que o investimento continue após 2016, que não volte àquela maré em que não tínhamos nada. Esta fase eu também presenciei. Já estive no nada. Agora, tem muito investimento -se é mal gerido é outro problema. E, apesar de tudo, o esporte cresceu. Isso é fato. Isso é legal.

PARA USAR REMÉDIO É PRECISO AUTORIZAÇÃO

O Berotec, um dos remédios contra a asma, tem fenoterol e, para usá-lo, o atleta tem que pedir a AUT (Autorização de Uso Terapêutico) e justificar o motivo à Wada (Agência Mundial Antidoping). O Seretide contém salmeterol e fluticasona, substâncias permitidas por via inalatória e seu uso não exige a AUT. O Aerolin tem salbutamol e é permitido.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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