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Cientistas estudam vírus da família do HIV na Amazônia

Uma parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam) está realizando uma pesquisa inovadora na região amazônica para diagnosticar a presença do vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) em pacientes com doenças hematológicas. O biomédico e pesquisador do Inpa Gemilson Soares Pontes, doutor em ciências médicas com ênfase em imunologia, microbiologia e patologia, vinculado ao Laboratório de Virologia e Imunologia da Coordenação de Ciências, Ambiente e Saúde, explica que a pesquisa já está em andamento e em fase de seleção de pacientes.

Estima-se que existam mais de 20 milhões de pessoas infectadas pelo HTLV tipo 1 e tipo 2 no mundo. O Brasil é onde se encontra uma das maiores prevalências da infecção por esse vírus, com cerca de 2,5 milhões de pessoas infectadas. “Estudos demonstram uma prevalência significativa da infecção na Região Norte, no entanto, em relação à Amazônia ocidental, não se sabe qual é essa prevalência, porque são escassos os estudos epidemiológicos voltados para infecção pelo HTLV-1/2 na região. Como nossa região apresenta índices elevadíssimos de doenças hematológicas, é importante investigar se essas patologias estão associadas às infecções virais, nesse caso, à infecção pelo HTLV-1/2”, explica Pontes, acrescentando que, no Hemoam, são atendidos cerca de três mil pacientes portadores de doenças hematológicas por ano.

O pesquisador ressalta que um estudo dessa natureza, realizado pela primeira vez na região, tem um cunho científico e social muito importante. “O paciente que não sabe se tem a infecção poderá passar a dispor de estratégias de tratamento mais adequadas. A partir desses resultados, os pacientes serão aconselhados e poderão ter um prognóstico melhor da doença, uma vez que será conhecida uma infecção que pode estar relacionada com aquela patologia”, salienta Gemilson.

Ele explica que, em resumo, os principais objetivos da pesquisa são: diagnosticar a infecção pelo HTLV-1/2 na população estudada e verificar quais os vírus circulantes na região; avaliar as variáveis sociodemográficas (fatores de risco) que possam estar associadas à suscetibilidade à infecção pelo HTLV-1/2; e avaliar possível correlação entre a infecção pelo HTLV-1/2 e as doenças hematológicas e seus prognósticos.

“A pesquisa se limitará à cidade de Manaus, principalmente por falta de recursos financeiros para isso. O projeto não teve o seu financiamento aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado – Fapeam. Temos um sonho de fazer algo mais amplo, envolvendo mais populações e regiões diferentes, mas, infelizmente, não temos financiamento para isso. A pesquisa é um projeto-piloto, e, a partir dele, surgirão outras linhas de pesquisa voltadas para infecção pelo HTLV-1/2.”

Para Gemilson, a importância que se deu anteriormente e continua se dando até hoje ao HIV é pelo simples fato de que apenas de 2% a 5% das pessoas que são infectadas pelo HTLV desenvolverão as patologias correlatas ao vírus da Aids. “Uma porcentagem relativamente baixa, o que gera pouco interesse público e científico em desenvolver pesquisas relacionadas a esse vírus. Esse fato dificulta a aprovação de projetos junto às fundações de amparo à pesquisa e que acaba dificultando o avanço no desenvolvimento de um tratamento padronizado para infecções pelo HTLV, como o que existe, ainda que paliativamente, para o HIV”, frisa o pequisador.

Similaridades

O HTLV, do inglês human t lymphotropic vírus, é um retrovírus da mesma família do vírus da imunodeficiência humana (HIV) que infecta a célula T humana, um tipo de linfócito (células brancas do sangue) importante para o sistema de defesa do organismo. Não existe vacina nem tratamento para a infecção e para as doenças relacionadas a esse vírus. A transmissão do HTLV ocorre da mesma forma que o HIV, ou seja, sexo sem proteção, compartilhamento de seringas e agulhas durante o uso de drogas e da mãe infectada para o recém-nascido, também chamado de transmissão vertical, principalmente por meio do aleitamento materno.

“É importante destacar que apenas 5% das pessoas infectadas podem desenvolver as patologias correlatas à infecção pelo HTLV-1. As principais patologias são a paraparesia espática tropical e leucemia/linfoma de células T do adulto. A paraparesia é uma afecção neurológica caracterizada por alterações na marcha, espaticidade, fraqueza muscular nos membros inferiores, incontinência urinária, dor lombar, impotência e, algumas vezes, ataxias. Isso ocorre devido, principalmente, à desmilielização de neurônios motores periféricos na medula espinhal. A leucemia de célutas T do adulto é um raro tipo de câncer do sistema imune”, acrescenta.

O pesquisador explica que o HTLV foi o primeiro retrovírus humano descoberto, em 1980 – o HIV, em 1982. “Posteriormente, com pesquisas aplicadas em pacientes infectados foram identificadas duas patologias relacionadas à infeção pelo HTLV: a paralisia dos membros inferiores, conhecida como paraparesia espática tropical/mielopatia, associada ao HTLV-1 (PET/HAM), e a leucemia de células t humanas. Essas patologias estão associadas ao vírus tipo 1.” Ele ressalta que, até o momento, não existe tratamento padronizado para esse tipo de infecção e suas patologias correlatas. Contudo, há esquemas terapêuticos testados constantemente, que amenizam os sintomas.

“É importante destacar que apenas 5% das pessoas infectadas podem desenvolver as patologias correlatas à infecção pelo HTLV-1” – Gemilson Soares Pontes, biomédico e pesquisador do Inpa

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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