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Documentário mostra passagens da carreira 'anunciada' de João Carlos Martins

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Quando tinha 17 anos, João Carlos Martins ouviu o compositor Giuseppe Verdi e o pianista Ferruccio Busoni lhe dizerem, em italiano, que ele deveria continuar estudando, porque brilharia a vida inteira e seria um dos melhores pianistas do mundo.

Claro que não eram exatamente Verdi, autor de óperas como “Aída” e “La Traviata” e morto em 1901, ou Busoni (1866-1924) quem lhe falavam, mas sim a mãe de João Carlos, Alay Gandra Martins, enquanto supostamente incorporava essas duas personalidades em sessões espíritas na casa onde moravam, em São Paulo.

Acreditassem eles ou não nas palavras atribuídas a Verdi e a Busoni, o fato é que pouco tempo depois, em 1959, João Carlos iniciaria sua carreira internacional. E é o próprio quem lembra essas passagens no documentário inédito “João Carlos Martins, O Piano como Destino”, que a TV Cultura leva ao ar neste sábado (27), às 21h30, em homenagem aos 75 anos do artista.

“O João Carlos Martins é muito falado por causa dos problemas que teve nas mãos, de sua história de superação, mas nosso foco é sua carreira como pianista”, diz o diretor do documentário e de projetos especiais da TV Cultura, José Roberto Walker. “Ele foi precoce. Aos 18 anos foi para os Estados Unidos e se tornou um astro, vendeu muito, gravou muito.”

Caçula de quatro filhos, todos com algum conhecimento de piano —inclusive o jurista Ives Gandra Martins—, João Carlos realizou o sonho do pai, que queria ser pianista, mas havia perdido um dedo num acidente na véspera de iniciar suas aulas do instrumento.

No documentário, o músico visita a casa onde viveu a infância, no bairro de Santo Amaro, e na qual havia sete pianos. “Ele não ia ao imóvel fazia 50 anos e ficou muito emocionado. A casa está intacta”, diz Walker.

Naquela residência, os pais de João Carlos organizavam festas frequentadas por famosos do meio artístico, como as pianistas Guiomar Novaes e Magdalena Tagliaferro.

O maestro Júlio Medaglia e a pianista Sônia Muniz, viúva de Eleazar de Carvalho (1912-1996) são alguns dos que ajudam a recontar a trajetória de João Carlos em depoimentos.

João Carlos Martins, 75

RIVALIDADE

A produção exibe várias imagens do pianista tocando, como num programa de TV em Porto Rico, em 1959, e num recital feito em parceria com o também pianista brasileiro Arthur Moreira Lima, no Lincoln Center, no final dos anos 70.

“Ele e o Arthur fizeram um encontro entre Bach e Chopin que foi eleito o recital do ano. E ainda realizaram mais de 50 apresentações juntos durante dois anos”, lembra Walker.

João Carlos Martins também fala da conversa que teve com o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) por telefone durante uma madrugada. Os dois, intérpretes de Bach, eram apontados como rivais.

“Quando o João começa a tocar no exterior, o Glenn Gould já está parando de se apresentar em público, mas o brasileiro vai executar o mesmo repertório nos mesmos lugares que Gould, embora com um estilo totalmente diferente”, explica Walker.

Não só a conversa entre os dois será assunto do programa como também será exibida uma carta que o pai de Gould escreveu a João Carlos.

Embora o foco seja a carreira de pianista, a produção não deixa de citar pontos importantes da trajetória do brasileiro, como a fase em que foi empresário do pugilista Éder Jofre e seu envolvimento no “escândalo Paubrasil”, em que sua empresa, a construtora Paubrasil, realizou a um esquema fraudulento para ajudar a financiar a campanha de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo nos anos 1990.

Também cita o acidente num jogo de futebol e, depois, o assalto sofrido pelo músico na Bulgária que o levaram a ter os movimentos das mãos comprometidos, e seu trabalho como maestro à frente da Bachiana Filarmônica.

“O João Carlos tem uma relação radical com a arte. Ele enfrenta o ato de tocar como quem enfrenta um leão”, diz Walker. Para o diretor, essa combatividade pode ter agravado seu quadro delicado de saúde. “Ele usou suas mãos até o limite.”

JOÃO CARLOS MARTINS, O PIANO COMO DESTINO
QUANDO sáb. (27), às 21h30, na TV Cultura
CLASSIFICAÇÃO livre

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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