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Em meio a escândalos na Fifa, Bom Senso FC cobra reformas na CBF

Os recentes escândalos de corrupção da Fifa e a renúncia de seu presidente, reacenderam o debate sobre a forma como o futebol é gerido na entidade máxima do futebol. A discussão respingou também no Brasil, onde o Bom Senso FC, movimento que já reúne mais de mil jogadores, aproveita para cobrar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) por mudanças.

Em entrevista à BBC Brasil, Gilberto Silva, volante pentacampeão com a seleção brasileira e hoje um dos líderes do movimento, questionou a falta de diálogo da CBF com os atletas e pediu mais “democracia” à entidade.

“O Bom Senso existe há quase dois anos e o que a gente encontrou na CBF até agora foram portas fechadas. Não obtivemos nenhum retorno deles”, disse o jogador.

A CBF iniciou uma nova gestão em abril com Marco Polo Del Nero assumindo a presidência. Del Nero era vice do presidente anterior, José Maria Marin, atualmente preso na Suíça por suspeita de ter recebido propina em negociação dos direitos comerciais da Copa América. A atual administração tem usado um discurso de renovação, e o secretário-geral da entidade, o ex-deputado federal Walter Feldman, garante que a prioridade da CBF agora é de “modernização” na maneira de gerir o futebol.

Gilberto Silva já foi ao Congresso discursar pelas mudanças reivindicadas pelo Bom Senso FC

“Essa gestão tem compromisso com a modernização, com a transparência e queremos trazer para ela um amplo processo democrático”, afirmou, em entrevista à BBC Brasil. Ele disse que o “diálogo tem sido permanente” com o Bom Senso, incluindo conversas com o zagueiro Paulo André, outro líder do movimento, e com o diretor do movimento, Ricardo Borges Martins.

Mas, por enquanto, o Bom Senso FC ainda não vê sinais de mudanças concretas na entidade máxima do futebol no Brasil e diz que só teve diálogo com a confederação para debater a Medida Provisória 671, que tem o objetivo de modernizar o futebol, que tramita no Congresso. O grupo de atletas acredita que a ‘nova CBF’ tenta passar uma imagem de ser mais democrática, mas não apresenta nenhuma novidade comparada com gestões anteriores.

“A CBF quer modernizar? Então vamos sentar todas as partes, o Bom Senso, todo mundo que tenha uma ideia ou sugestão. Nós temos algo a contribuir, a CBF também tem? Acredito que sim, então vamos sentar todo mundo do futebol com todos os lados envolvidos para que nós possamos realmente mudar o futebol brasileiro”, pediu Gilberto Silva.

“Que eles não achem que só eles têm o conhecimento de causa e não podem ouvir outras partes. Aí sim eu acredito num início de modernização do futebol.”

A CBF chegou a criar um grupo de trabalho com representantes dos clubes e dos jogadores, mas chamou somente o Sindicato dos Atletas para participar dele. Segundo Feldman, o Bom Senso não foi chamado porque não é o representante oficial dos jogadores. “Não dava para instalar um grupo institucional com o Bom Senso, quando se oficializa a relação, tem que ser uma instituição de caráter oficial, que no caso é o Sindicato”, afirmou.

Propostas

Desde que surgiu, em 2013, o Bom Senso defende uma plataforma de mudanças no futebol brasileiro que incluem alterações no calendário, para que os clubes pequenos tenham mais jogos por ano, e os grandes menos; “fair-play financeiro”, que foca no limite de gastos dos clubes para que não comprometam os salários dos jogadores; e a participação dos atletas nas eleições de federações, para que eles possam ter mais voz na gestão do futebol.

Gilberto Silva, à direita, disse que ‘Bom Senso só encontrou portas fechadas’ nas tentativas de diálogo com a CBF

Uma das estratégias que deverá ser anunciada em breve é uma “lista de medidas emergenciais para a CBF sair da crise”, com sugestões como a revisão dos contratos firmados nas gestões anteriores – e que estão sendo investigados pelo próprio FBI -, a convocação de uma assembleia para mudar o estatuto da CBF e limitar os mandatos dos presidentes, entre outras coisas.

No passado, a CBF chegou a ouvir as propostas do movimento em uma primeira reunião em 2013, mas depois disso, de acordo com os líderes do grupo, mostrou mais resistência a dialogar.

A CBF chegou a introduzir algumas mudanças na linha das propostas do Bom Senso. Os jogadores reclamavam do excesso de jogos no calendário – alguns podem chegar a entrar em campo cerca de 70 ou 80 vezes por ano. A CBF determinou um período de 30 dias reservados para a pré-temporada.

A entidade também divulgou, em março passado, uma nova regra para estimular o “fairplay financeiro”, determinando a perda de três pontos por jogo assim que a dívida com os atletas for confirmada pelo STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva). Mas o Bom Senso questiona a regra: o jogador teria de denunciar o clube pelo não pagamento do salário e seria exposto como “responsável” pela perda de pontos da equipe.

Questionada sobre se pretende rediscutir as antigas reivindicações do Bom Senso, a CBF disse que convocará um “Congresso do Futebol Brasileiro” aberto a todo o público para discutir mudanças, incluindo sugestões para o calendário, que seria, segundo Feldman, é uma “questão dramática”. Sobre o “fair-play financeiro”, eles também estão elaborando “normas de licenciamento” para os clubes adequarem suas finanças para participarem dos campeonatos.

Quanto à participação dos atletas em eleições, a entidade disse que pretende incluí-los nos congressos técnicos, mas que o direito à voto no pleito das federações é algo que não compete a ela decidir.

‘Briga’ no Congresso

Jogadores e CBF também travam uma “batalha” atualmente no Congresso, onde se discute desde o início do ano a aprovação da Medida Provisória 671, já sancionada pela presidente Dilma Rousseff, que coloca contrapartidas aos clubes para refinanciar as dívidas deles com o governo federal – que já somam mais de R$ 4 bilhões.

Walter Feldman, secretário geral da CBF, foi a voz da entidade na audiência com Bom Senso na Comissão de Esporte, Educação e Cultura em Brasília

A proposta dos jogadores aprovada por Dilma é de renegociar o pagamento do valor em 240 meses estabelecendo exigências como a limitação de mandatos de presidentes de clubes e federações e o rebaixamento dos que não mantiverem suas contas em dia. A questão tramita no Congresso e a CBF pede alterações no texto atual.

Segundo a confederação, apesar do avanço no diálogo com o Bom Senso sobre a MP, o texto atual seria um “retrocesso”, porque permite intervenção do Estado na gestão do esporte, o que seria “inadequado”. Mas, para o movimento de jogadores, por enquanto, a CBF adota um “discurso de modernização que não tem prática”.

Fonte: Bol.com.br

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