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Entre o possível e o inacreditável, "Jurassic World" só abriu mão das penas

Cientificamente, a história de “Jurassic World”, que estreia nesta quinta-feira (11) no Brasil, consegue caminhar naquela tênue fronteira entre o possível e o inacreditável, com os exageros já conhecidos da franquia inaugurada por Steven Spielberg na década de 1990. Por exemplo: o tamanho e, sobretudo, a superinteligência dos velociraptores. Vista no terceiro (e mais malhado) dos filmes da série, ela está de volta e tem função essencial na nova trama.

Ainda assim, os fãs de paleontologia não podem perder a oportunidade de travar contato com criaturas que não apareceram nos longas anteriores, como o aquático mosassauro (que, a propósito, não é propriamente um dinossauro, mas conviveu com eles na mesma época).

AFP

Dinossauro Ornithomimus edmontonicus com penas em reconstrução feita a partir de fósseis encontrados em Alberta, no Canadá

Mas o que senti mais falta em “Jurassic World” foram as penas. Sim, penas. Poderiam ser pretas como as de pombo, brancas como as de galinha, coloridas como as de pavão. Uma das descobertas mais interessantes que os palenotólogos fizeram entre 1993, quando o primeiro filme apareceu, e 2015 é que muitos dinossauros, possivelmente até as “estrelas”, como o tiranossauro e o velociraptor, tinham penas.

Os cineastas preferiram preservar esses personagens da forma que os vimos duas décadas atrás, e o Dr. Henry Wu –o cientista louco residente da ilha Nublar– até justifica a opção, destacando que nenhum dos dinossauros criados para o parque, desde o começo, foi uma representação fiel dos originais, extintos há 65 milhões de anos. Todos eles receberam enxertos genéticos de espécies modernas, para preencher as inevitáveis lacunas no DNA extraído de fósseis (isso já fazia parte da premissa original, mas nunca foi usado para explicar por que os dinossauros do parque são diferentes das versões penosas que estão emergindo dos estudos de fósseis).

A propósito, extrair DNA de fósseis de dinossauros para trazê-los de volta à vida segue sendo impossível em 2015, tanto quanto era em 1993. Mas também é verdade que isso está gradualmente se tornando menos impossível com a revelação de que partes moles dos bichos podem acabar sendo preservadas fossilizadas durante muito mais tempo do que se imaginava antes e com uma frequência muito maior. Vai saber o que seremos capazes de aprender com os fósseis quando as tecnologias de laboratório evoluírem por mais uma ou duas décadas…

Uma das descobertas mais interessantes que os palentólogos fizeram entre 1993 e 2015 é que muitos dinossauros tinham penas

Dinossauros encontram Godzilla

“Jurassic World” pode ser definido como “Parque dos Dinossauros encontra Godzilla”. E funciona à perfeição. O novo filme se equilibra bem entre o saudosismo da trilogia original e a necessidade de criar novidades para o público, mas preserva intacta a estrutura narrativa que tornou o original infalível.

O mesmo dilema que os cineastas enfrentaram ao conceber “Jurassic World” –filme que passou mais de uma década no limbo das ideias não aproveitadas de Hollywood– é o que impulsiona a trama. Depois de duas décadas e três filmes, de que modo dinossauros podem ainda ser interessantes e espetaculares para um público cada vez mais acostumado ao realismo fantástico dos blockbusters modernos?

É o problema que Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) está tentando resolver quando a encontramos na história. Ela é a chefe de operações do parque jurássico que finalmente se estabeleceu com sucesso na Ilha Nublar –palco da aventura original– após o fim trágico do projeto original. Mas a essa altura o empreendimento está ameaçado pelo crescente desinteresse das pessoas pelos dinossauros. “De-extintos” duas décadas atrás, eles não são mais novidade, e o Jurassic World se tornou basicamente um zoológico high-tech.

Daí vem a decisão de criar um superdinossauro, um híbrido concebido por meio de engenharia genética que combina qualidades de várias espécies num só predador: imenso e altamente inteligente. Eles o batizam de Indominus Rex, mas eu prefiro chamá-lo de Dinozilla –é o símbolo da húbris tecnológica, representado diante de um público do século 21, para o qual simples ressurreição de espécies extintas não parece mais tão absurdamente controverso, ou mesmo uma ideia que pode ser ruim. É também uma forma de resgatar a inteligência do filme original.

E, claro, não dá nem para chamar de spoiler a informação de que o Dinozilla vai aprontar, tudo vai dar errado e um bocado de gente vai morrer, certo? Com esse paralelo entre os bastidores e a obra (ambos nascem da pergunta: “o que fazer para atrair o público?”), o filme acaba se convertendo numa espécie de metacrítica da própria franquia, o que para os amantes da semiótica há de valer alguma coisa.

Além dos dinossauros, os personagens de fato do primeiro filme (e do livro) também estão todos aí, mas com outros nomes. Pode checar. O milionário idealista? Tem. O pesquisador transformado em herói de ação? Tem. O cético irônico, que sabe desde o início que vai dar tudo errado? Tem. O ambicioso filho da mãe, pronto a deturpar o conceito original das pesquisas? Tem. O par de crianças assustadas? Tem. Os créditos com certeza não mencionam “baseado nos personagens de Michael Chrichton” à toa.

Para arrendondar, a competente música de Michael Giacchino, explorando ao máximo os temas originais criados por John Williams, consegue transformar “Jurassic World” em uma viagem encantadora e frenética ao passado, ao presente e ao futuro, tudo ao mesmo tempo. Com certeza, vale a assistida.

* Salvador Nogueira é jornalista de ciência, sócio-fundador da Associação Aeroespacial Brasileira, autor de oito livros e blogueiro da Folha de S.Paulo.

Fonte: Bol.com.br

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