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Estudiosos situam carta recém-liberada em obra de Mário de Andrade

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A discrição de Mário de Andrade (1893-1945) ao tratar da questão da homossexualidade, no trecho da carta de 1928 a Manuel Bandeira (1886-1968) cujo conteúdo integral só veio à tona nesta quinta (18), apenas corrobora o que o autor já dizia em sua obra, na opinião de especialistas consultados pela Folha.

“É só saber ler”, diz o cineasta e ensaísta Carlos Augusto Calil, curador da exposição permanente da Casa de Mário de Andrade, em São Paulo. “O que tem de novo se ele assumia isso de maneira discreta na obra dele? Não é o documento mais forte que ele escreveu, em relação a outras cartas e poemas.”

Mário de Andrade

A íntegra da carta, mantida em segredo desde 1978 na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, veio à tona por determinação da Controladoria-Geral da União. Até esta semana, só se conhecia uma versão editada pelo próprio Bandeira, publicada em 1958.

No trecho agora revelado, Mário comenta sua “tão falada (pelos outros) homossexualidade” e diz que sempre se portou “com absoluta e elegante discrição social”.

Estudiosos argumentam que a questão já aparecia em textos como o “Frederico Paciência”, que trata do “amor interditado entre dois rapazes” –como define o biógrafo Eduardo Jardim, autor de “Eu Sou Trezentos”.

“Do meu ponto de vista, [o conteúdo a carta] não constituiu surpresa. Já havia referências à homossexualidade dele inclusive a cartas para Bandeira. A homossexualidade está situada na vida e na obra do Mário num contexto de muita tensão”, afirma.

Esse ponto de vista é similar ao de Moacir Werneck de Castro, que conviveu com o autor de “Macunaíma” e escreveu “Mário de Andrade – Exílio no Rio” (1989).

Citando textos e cartas, Castro concluía que “a raiz do drama existencial de Mário de Andrade jaz a angústia da sexualidade reprimida e transformada em difusa pansexualidade”.

SEGREDO

Esta era a única das 15 cartas de Mário a Bandeira no acervo da Casa de Rui que permanecia inacessível. As outras foram abertas em 1995, respeitando o prazo, estipulado pelo modernista, de 50 anos de sua morte.

A decisão de manter a carta reservada na Casa de Rui foi de Plínio Doyle (1906-2000), criador do arquivo literário da instituição.

O imortal Antonio Carlos Secchin foi um dos que se manifestaram contra o “auê” em torno da abertura do documento. “É aquela coisa de ser mais realista que o rei. Não serviu para nada esconder. Por outro lado, também não serviu para nada publicar.”

Seu colega na Academia Brasileira de Letras, o historiador Alberto Costa e Silva diz também não ver motivo para alarde. “Não há nenhuma conclusão a ser tirada. Qual a importância de saber se Mário era homossexual ou não? Para o estudo da obra dele, nenhuma”, argumenta.

Essa assertiva não encontra coro entre outros conhecedores da obra do escritor. O crítico e escritor Silviano Santiago diz acreditar que as palavras de Mário abram novas perspectivas de estudos.

“A carta em si tem um papel quase mítico. As questões que traz à tona são de enorme importância”, afirma.

A escritora e crítica Noemi Jaffe também tem a avaliação de que a sexualidade é relevante na obra do escritor.

“É importante deixar claro que ele era homossexual e que a academia e a universidade assumam isso como um traço da personalidade e da literatura dele. Até hoje continuava sendo tabu”, diz ela, ao destacar a importância do trecho agora revelado.

“Agora que sabemos que ele assumiu, a academia está livre para fazer estudos mais completos da obra.”

O engenheiro Carlos Augusto Carmargo de Andrade, sobrinho de Mário, sempre se posicionou contra a abertura do documento. Nesta sexta, disse à Folha: “Não tenho nada a comentar. A resposta está na própria carta. Mário se refere ao ‘ridículo dos socializadores da minha vida particular’. A sanha da imprensa espelha a falta de ética”.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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