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João Pimentel: O monopólio da dor


João Pimentel: O monopólio da dor

Foto:  Divulgação

Rio – Algum dia ainda vou fazer uma coluna sobre a minha avó Diva, mãe da minha mãe, matriarca do clã dos Silva, ou dos Mitoso — não sei ao certo —, uma das figuras mais fabulosas que conheci. Mas, enquanto essa inspiração não chega, lembrei-me de uma característica dela menos abonadora, talvez, mas que me chamava a atenção e que, agora, mais velho, reconheço em muita gente: o monopólio da dor.

Pessoa engraçada, religiosa, repleta de amigos, cercada pelos filhos e netos, ela era uma pessoa feliz. Teve lá suas agruras na vida, mas foi uma guerreira, uma mulher que ousou se divorciar na Manaus dos anos 50 por conta de um outro amor. Mas, a partir de uma certa idade, suas dores passaram a doer mais. Tanto as físicas como as da alma. Era só chegar alguém com algum problema, um pé torcido, um braço quebrado, uma enxaqueca que ela rebatia na hora. 

— Ih, maninho, isso não é nada. Hoje eu acordei com uma dor de cabeça pai d’égua. E aquele meu joelho está que não me deixa dormir…

Não havia dor maior que as da minha avó. Não sei se era para estender a conversa, ou se sentia mesmo dores atrozes, mas o fato é que vejo em muita gente a necessidade de mostrar o quão penosa é sua existência, o quanto a vida pode pesar.

Rachel, minha amiga e chefe, conta que sua mãe, por exemplo, tinha uma vida nos conformes, bem casada, filhas encaminhadas, mas não deixava de sussurrar três vezes ao dia: “A minha vida é um vale de lágrimas.”

Essas histórias me vieram à cabeça porque na quarta passada foi aniversário de 76 anos do meu velho, Ivan. Bebemos vinho, reunimos os amigos da vida toda, a parentada e cantamos samba até cansar. E nessas horas a gente faz um balanço da vida, lembramos quantas histórias já vivemos juntos, reparamos nas diferentes maneiras que temos de envelhecer e o quanto é importante celebrarmos cada dia, cada sorriso, cada melodia bonita, cada frase engraçada, cada dia de sol — e de chuva, por que não? —, cada gesto de amor.

Nunca vi meu pai triste ou reclamando da vida. Um pouco chateado com uma derrota do Flamengo, meio puto de perder uma regata ganha, indignado com uma mulher que não conquistou, mas reclamar da vida, nunca. Pelo contrário, é um piadista, sedutor, de bem com a humanidade.

Nem sempre as coisas acontecem como planejamos, nem sempre conseguimos desviar de gente ruim — que infelizmente existe por aí aos montes —, nem sempre aquela pessoa vai ser como nós imaginávamos, nem tudo vai dar certo sempre. Até porque a vida seria muito da sem graça sem nossos desafios diários.

Não tem aquele ditado que diz que, quando o cara é otimista, até topada leva ele pra frente? E o samba lindo de Zeca Pagodinho e Beto Sem Braço: “Depois do temporal, a lua cheia passeou no céu”? Pois é, entre o folclórico monopólio da dor de minha saudosa avó e o bom humor sincero do meu pai, fico com a segunda opção. Mesmo diante de tanta coisa ruim que acontece mundo afora, acredito que tentar ser feliz e ver o lado positivo das coisas ainda é a melhor maneira de se viver.

Originalmente matéria publicada no Jornal O Dia (http://odia.ig.com.br)

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