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O PT no divã: Os 800 delegados começam a discutir o futuro do partido

Rio – Os 800 delegados do PT de 26 estados e do Distrito Federal desembarcam esta semana, em Salvador, com a missão de promover uma verdadeira ‘DR’ : discutir a relação do partido com o governo de Dilma Rousseff, com o PMDB e com as diversas tendências internas na sigla. Depois de 13 anos consecutivos na Presidência da República, os petistas chegam para o 5º Congresso Nacional do partido mais divididos do que nunca.

Estão divididos em suas posições sobre o governo da petista Dilma Rousseff, sobre a aliança com PMDB, de onde tirar dinheiro para as próximas campanhas e sobre como se reabilitarão depois de escândalos de corrupção, como o Mensalão e as investigações da Operação Lava Jato. O congresso petista começa sexta-feira e termina domingo. De lá, sairá um documento que pretende dar norte ao futuro da legenda.


Dilma virá direto da Bélgica para o 5º Congresso do PT, mas não chegará a tempo de assistir ao discurso de abertura de Lula

Foto:  Daniel Teixeira / Agência O Dia

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre o encontro. A expectativa é de que ele pregue a unidade do partido na defesa do governo de Dilma. Petistas têm feito críticas públicas à política de ajuste fiscal conduzida pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Nos bastidores, porém, afirmam correligionários do ex-presidente, Lula faz jogo duplo, ora fomentando críticas à condução da economia ora defendendo a necessidade de arrocho.

Em viagem quinta e sexta-feira à Bélgica, onde participará da Cúpula dos Estados Latino-Americanos e a União Europeia, a presidenta deverá discursar apenas no último dia do encontro. Durante sua fala, Dilma reforçará posições afins com a do partido. Segundo um interlocutor do Palácio do Planalto, ela voltará a se posicionar contra o financiamento de campanhas por empresas e a redução da maioridade penal.

Ainda defenderá a necessidade do ajuste fiscal, conduzido por seu ministro da Fazenda. Dirá que as medidas são fundamentais para a manutenção das conquistas sociais ocorridas nos últimos 12 anos. Como fez num encontro com militantes do PCdoB há duas semanas, em São Paulo, apontará para a necessidade de mudança nas políticas anticíclicas adotadas desde 2008. Para ela, “esgotadas”.

Com popularidade em baixa e com frequência ‘nas mãos’ do PMDB de Renan Calheiros — presidente do Senado — e de Eduardo Cunha — à frente da Câmara dos Deputados —, a presidenta apelará para a união do partido na atuação no Congresso. Na reunião com o PCdoB, ela discursou que os verdadeiros parceiros não se abandonam em momentos difíceis e, depois, afirmou: “Estamos vivendo um momento difícil.” Dilma deverá repetir o apelo na capital baiana.

A relação com PMDB, aliás, é outro tema caro ao partido a ser discutido no encontro deste fim de semana. Três das cinco teses propostas pelas correntes partidárias pedem a revisão dos termos da aliança. Aliás, a legenda do vice-presidente da República, Michel Temer, é citada diretamente sete vezes em documentos produzidos pelos petistas.

Em um dos documentos, em crítica ao presidencialismo de coalizão, diz o texto, “e o pior é que a reação à crise política (recém-adotada) tem sido dar ainda mais espaço e poder ao principal ‘aliado’, muitas vezes o principal sabotador do governo, que é o PMDB”. A crítica se refere à escolha de Temer, presidente nacional do PMDB, para comandar a articulação política do governo com o Congresso.

‘O PT PRECISA VOLTAR A SER DE ESQUERDA’, DECLARA WASHINGTON QUAQUÁ

Preparando-se para participar em Salvador do 5º Congresso do PT, o presidente da sigla no Rio, Washington Quaquá, afirma que a aliança com o PMDB é apenas institucional, o que, para ele, resolve a “governabilidade”. Contudo, diz, a saída “da maior crise” pela qual o partido já passou é pela esquerda.

1. Tudo pronto para o congresso?

— O PT vai fazer uma reflexão. O partido precisa de uma inflexão à esquerda. E nós, do Rio, queremos dar a nossa contribuição. O Marco Aurélio Garcia (assessor especial da Presidência da República) reforça esta tendência. Ele fala justamente sobre a necessidade urgente de medidas radicais, estruturais, de esquerda.

2. Então, a ideia é defender o fim da aliança com o PMDB?

— A aliança com o PMDB é institucional. Precisamos dele para governar e, por isso, não podemos abrir mão. Isso não quer dizer que não temos que ir além. Temos que construir uma aliança com as esquerdas, para continuar a mudar de forma mais profunda o país. Precisamos construir uma nova Frente Brasil Popular (pela qual Lula concorreu à Presidência em 1989). A aliança com o PMDB é para ter governabilidade; com as esquerdas, programática.

3.Quer o PMDB para governar mas não o quer para construir políticas?

— Nós, o PT, não vencemos eleições com o PMDB. O Lula, em 2002, não venceu com o PMDB. Mas nós precisamos deles para governar. Para ganhar, porém, não precisamos fechar aliança com a direita. Aí, no Congresso, precisamos do PMDB. Repito: o PT precisa voltar a ser de esquerda.

4. É o sentimento majoritário da legenda?

— O partido está muito fragmentado. Vamos sentir isso durante o Congresso. É lá que vamos ver qual será o tamanho dessa posição, que é defendida por setores da direção do partido. Acredito que, apesar de fragmentado, majoritariamente o PT quer retomar a esquerda.

5. Parece contraditória a posição, já que o PT buscou se aliar com o peemedebista Pedro Paulo, nome de Paes para a disputa do ano que vem.

— O PMDB é uma federação de caciques regionais. No Rio, o Paes é um cara progressista. Ele é diferente do PMDB do Maranhão, por exemplo.

6. Mas no Rio ou se faz aliança com o PMDB ou com a esquerda.

— Nossa prioridade é construir essencialmente uma frente de esquerda. Mas eu acredito que se ele (Paes) abrir o governo para que políticas esquerda, como reforma agrária, políticas habitacionais agressivas, não vejo o motivo para não haver aproximação. A verdadeira esquerda quer melhora na vida das pessoas. Ou seja, o MST, o MSTS (sem-teto), do PCdoB virão. Quem não quer a melhora, vive uma esquerda da Zona Sul.

7. Levy será alvo da ira petista lá em Salvador?

— Levy é um quadro técnico competente. Como técnico competente, tem de receber orientação sobre as políticas de governo e acatar. O que ele não pode é mandar no governo.

8. O PT sairá mais fragmentado ou unido?

— Sairá unido. O partido está na pior crise da história, sem precedente e da qual só sairemos pela esquerda.

Originalmente matéria publicada no Jornal O Dia (http://odia.ig.com.br)

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