Projeto tenta tirar crianças de fabricação de bijuterias em Limeira

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Fernanda, 16, até fevereiro, era parte da improvisada linha de montagem de bijuterias na casa de seu vizinho, em Limeira (a 151 km de SP). Aos 13, já sabia usar o aparelho de solda para juntar peças de colares e brincos.

Ela está entre os 161 atendidos na cidade pelo Peti Senac, programa de combate ao trabalho infantil com cursos, esporte e aulas de artes.

Editoria de Arte/Folhapress

O foco é evitar que atuem na fabricação de bijuteria. Atividade típica de Limeira, o setor abrange desde grandes fábricas até o serviço terceirizado da montagem de peças dentro de casa, com toda a família envolvida.

As consequências da produção de joias à saúde das crianças e adolescentes geraram repercussão negativa à cidade em 2005.

Um estudo de mestrado feito aquele ano, com questionários nas escolas, apontou que 8.340 alunos, ou 27% dos entrevistados, trabalhavam na cadeia de bijuterias.

Muitos manipulavam aparelho de solda e ácido para a limpeza das peças.

‘SEM DIGITAIS’

Dois anos depois, a denúncia do supervisor de ensino Antonio Cardoso de Sena durante um encontro alarmou os participantes.

Onze adolescentes de escolas estaduais se queixaram às professoras que não tinham conseguido tirar o RG porque haviam perdido as impressões digitais ao soldar bijuterias ou ao cortar e assentar vidros em oficinas.

“Eu vi as pontas dos dedos, tinham rachaduras ou eram lisas. Alguns não conseguiam pegar o lápis com o polegar e o colocavam, assim, entre os outros dedos”, conta Sena.

A situação resultou na época em um TAC (termo de ajustamento de conduta) entre prefeitura e Procuradoria do Trabalho para que o município criasse programas de combate ao problema.

Um novo estudo a ser desenvolvido pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) pretende investigar a atual dimensão do trabalho infantil na cidade.

Mesmo com o esforço do município, o risco de que a atividade de confeccionar joias continue entre adolescentes ainda persiste.

Tímida, Débora, 14, integrante do Peti Senac, disse à Folha que nunca trabalhou nesse negócio. Já o irmão dela, hoje com 15 anos, aos dez passava todas as tardes encaixando com um alicate 20 pedrinhas brilhantes em cada colar –produzia 50 por dia. “Às vezes, a mão ficava doendo”, diz o garoto.

A mãe deles, porém, admitiu às assistentes sociais que, mesmo participando do programa contra o trabalho infantil, Débora está procurando algum serviço na montagem de bijuterias.

“A mãe nos disse: ‘E quem reclamar que venha pagar minhas contas'”, recorda-se uma das funcionárias.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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