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Protestos de 2011 elegem prefeitas nas duas maiores cidades da Espanha

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As duas maiores cidades da Espanha, Madri e Barcelona, fecharam um dos maiores ciclos de levantes políticos do país neste sábado ao dar posse a prefeitas de extrema-esquerda. As líderes radicais prometeram reduzir seus próprios salários, impedir o despejo de donos de casas e eliminar vantagens dos ricos e famosos.

As mudanças vieram três semanas depois que os dois maiores partidos tradicionais da Espanha foram punidos pelos eleitores descontentes com o peso das medidas de austeridade e furiosos com uma série de escândalos de corrupção.

Em Madri, a juíza aposentada Manuela Carmena, de 71 anos, foi aclamada sob a torcida de esquerdistas em júbilo que tomaram as ruas em torno da prefeitura gritando “Sim, podemos!”, encerrando 24 anos de governo da cidade pelo Partido Popular, conservador, que comanda o governo nacional.

“Queremos liderar ouvindo as pessoas que não usam títulos chiques para falar conosco”, disse Carmena, depois de ser eleita prefeita pela maioria dos novos vereadores de Madri.

Entre outras medidas, Carmena promete abrir a todos o Club de Campo, de propriedade da cidade e hoje usado exclusivamente por madrilenhos ricos. “Estamos criando um novo tipo de política que não cabe nas convenções”, disse ela antes da votação. “Preparem-se”.

Alberto Martín/Efe
Manuela Carmena, 71, eleita prefeita de Madri após 24 anos de governos conservadores na cidade
Manuela Carmena, 71, eleita prefeita de Madri após 24 anos de governos conservadores na cidade

Em Barcelona, a ativista anti-despejos Ada Colau tomou posse como a primeira mulher a se tornar prefeita da cidade.

Com um largo sorriso, Colau colocou a faixa e o cetro da cidade antes de agradecer aos eleitores e aos seus parceiros na coalizão. “Grata por tornarem possível algo que parecia impossível”, ela disse.

Uma multidão assistiu à cerimônia nas telas de televisão em frente ao prédio da prefeitura.

Colau questionou se vale a pena Barcelona gastar 4 milhões de euros (algo como R$ 13,5 milhões) em dinheiro público para bancar a corrida de Fórmula 1 ano sim, ano não. Ela acredita que o dinheiro seria melhor gasto com merenda gratuita para crianças carentes nas escolas públicas.

Carmena e Colau concorreram como líderes das coalizões de esquerda apoiadas pelo partido pró-operário e anti-establishment Podemos, formado em 2014 pelo professor universitário Pablo Iglesias, conhecido pelo seu rabo de cavalo e por apoiar o partido grego de esquerda Syriza.

Iglesias sorria numa sacada da prefeitura de Madri enquanto assistia à posse de Carmena, então socava o ar ao celebrar a vitória com os outros na rua.

Após a conquista de Madri pela esquerda, segundo Iglesias, o objetivo nacional do partido é focar nas eleições gerais que devem ser convocadas pelo primeiro ministro Mariano Rajoy no final do ano.

A fragmentação política que levou à eleição de Carmena e Colau marca um momento histórico na política espanhola, disse Manuel Martin Algarra, professor de Comunicação da Universidade de Navarra especializado em opinião pública.

“Pela primeira vez, Madri e Barcelona não serão governadas pelos partidos políticos, e sim por coalizões de movimentos sociais”, ele disse. “Foi um voto para punir os políticos tradicionais da Espanha.”

Para a coalizão Madri Agora, de Carmena, com o Partido Socialista, isso significa autoridade para desfazer medidas do Partido Popular para privatizar os serviços da cidade, bem como auditar a dívida e contratos do município com empresas privadas vistas como corruptas, disse Pablo Carmona, vereador eleito em Madri.

A coalizão também quer criar uma divisão municipal antidespejos, criar um banco de apartamentos vagos para os necessitados e oferecer creches baratas e de qualidade para famílias trabalhadoras.

Antes de se tornar juíza, Carmena era advogada trabalhista e defendia sindicalistas presos durante a ditadura de Francisco Franco, encerrada em 1975. O escritório de advocacia de que ela era co-fundadora foi alvo de um extremista de direita que matou cinco colegas seus e feriu outros quatro num ataque em 1977.

Em Barcelona, Colau, 41, é conhecida por liderar a Plataforma das Pessoas Afetadas pela Hipoteca, formada em 2009 para evitar o despejo de proprietários de casas afetados pela crise, que pela lei espanhola devem continuar pagando a maior parte de sua dívida mesmo depois de perderem suas casas.

Colau causou espanto ao se aliar a moradores que dizem que seus bairros se tornaram inviáveis porque a cidade tem turistas demais. As maiores reclamações são a respeito de passageiros que desembarcam de cruzeiros e de visitantes que se hospedam em apartamentos ilegalmente alugados.

“Se não queremos nos tornar uma Veneza, algum tipo de limite ao ônus do turismo será necessário em Barcelona”, disse Colau ao jornal “El Pais”. “Podemos crescer mais, mas não sei quanto.”

Não há como saber o quanto Carmena e Colau devem abalar o status quo, porque suas coalizções são “grupos de pessoas com diferentes opiniões e muito pouca experiência política, que tentarão coisas novas e algumas delas não serão viáveis”, disse Martín Algarra.

Colau, porém, afirma que coisas novas são exatamente o que o eleitor quer. “Em Barcelona”, disse ela, “apostou-se na mudança”.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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