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Será que o Brasil está mesmo mais careta do que antes?



01/06/2015 – 17h46



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DE SÃO PAULO

Duas entrevistas repercutiram em todas as colunas de TV na semana passada. Uma, de Gilberto Braga, um dos autores da novela “Babilônia” (Globo). A outra, de Dennis Carvalho, diretor-geral da mesma novela.

Ao jornal “O Globo”, Braga disse que “o Brasil está mais careta, não tenho a menor dúvida”. E cita como prova o fato de praticamente não haver mais nudez nas novelas (na virada dos anos 80 para os 90, nus masculinos e femininos eram comuns até mesmo na abertura das tramas).

“Nós estamos no século 21, em 2015. E de repente as pessoas ficam chocadas com coisas que não se chocavam antigamente”, desabafou Carvalho durante o programa “Ofício em Cena” (Globo News). Ambos procuravam no suposto neoconservadorismo do público a razão da baixa audiência de “Babilônia”.

Babilônia

Hmm, será que os brasileiros estão mesmo mais caretas?

Indícios não faltam. Além da gritaria contra o beijo entre o casal de lésbicas idosas da novela, também há a campanha contra o comercial do Dia dos Namorados da perfumaria O Boticário, que mostra dois casais homossexuais. Sem falar nas incontáveis páginas nas redes sociais que pregam boicote às marcas que patrocinam a “devassidão”, ou o apoio a políticos francamente reacionários.

Mas vou repetir a pergunta: será que estamos mais caretas?

Em 1991, os telespectadores rejeitaram a trama central de “O Dono do Mundo” —por acaso ou não, também assinada por Gilberto Braga e Dennis Carvalho. A história da moça que se casa virgem mas se deixa seduzir pelo patrão do marido em plena lua de mel assustou o público, que preferiu a inocência da primeira versão de “Carrossel” (SBT).

Em 1995, Sílvio de Abreu teve que literalmente mandar pelos ares o casal lésbico formado por Christiane Torloni e Sílvia Pfeiffer em “Torre de Babel”. A audiência simplesmente não queria ver duas mulheres vivendo juntas sem maiores problemas.

Em 2005, o beijo entre os personagens de Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro chegou a ser gravado para o capítulo final de “América”. Na última hora, a cúpula da Globo decidiu que ele não iria ao ar —justamente para não incomodar os conservadores de plantão.

E mesmo o primeiro beijo gay transmitido pela emissora, no último capítulo de “Amor à Vida” (2014), foi festejado em alguns lugares, mas também criticadíssimo em outros.

Primeiro beijo gay da novela da Globo em "Amor a vida"

Tudo isso corrobora a minha tese de que o Brasil não está encaretando. Na verdade, continuamos tão caretas quanto sempre fomos.

O que mudou é que essa caretice toda agora é mais visível. Ela se manifesta nas redes sociais, nas ruas, nas igrejas neopentecostais —que, aliás, só cresceram tanto porque encontraram terreno fértil por aqui.
Hoje o espectador também tem mais opções do que há 20 anos, tanto nas TVs aberta e paga como também na (então inexistente) internet. Tudo isso faz com que qualquer novela, de qualquer faixa horária, enfrente cada vez mais obstáculos para se tornar um grande sucesso.

E, na minha modesta opinião, “Babilônia” não é um grande sucesso não porque tenha muitos personagens malvados ou amorais. Mas porque simplesmente sua trama central —o embate entre Beatriz (Glória Pires), Inês (Adriana Esteves) e Regina (Camila Pitanga)— é bem fraquinha.

E isto costuma ser rejeitado por qualquer tipo de público, do mais conservador ao mais liberal.

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com





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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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