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Umberto Eco concebe tratado sarcástico de teses conspiratórias

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“Dietrologia” é um termo italiano utilizado para definir teses conspiratórias que enxergam complôs na origem de cada acontecimento. Deriva de “dietro” (“atrás”) e designa teorias sobre aquilo que está por trás de tudo, mas que ninguém sabe.

“Número Zero”, novo romance de Umberto Eco, pode ser descrito como um sarcástico tratado sobre a “dietrologia” que irriga o imaginário da Itália e acaba por transformar em realidade as mais delirantes teses sobre manipulação.

De tanto se acreditar que há forças secretas –máfia, Vaticano, maçonaria, imprensa– a determinar cada fato, confere-se a elas um poder ainda mais efetivo.

Francois Guillot/AFP
O autor italiano Umberto Eco autografa exemplar de seu novo livro "Número Zero" em Paris.
O autor italiano Umberto Eco autografa exemplar de seu novo livro “Número Zero” em Paris.

O título do livro remete à expressão usada para a edição piloto de um jornal, que não circula e serve como plataforma de sua proposta editorial. E a proposta do “Amanhã”, jornal no qual trabalha Colonna (narrador do livro), não é outra senão alardear revelações bombásticas e fazer com que seu idealizador seja aceito nos círculos do poder em troca do silêncio.

O jornalismo, na visão de Eco, é puro instrumento de chantagem. E o tal jornal em que trabalham suas personagens está destinado a não sair do número zero. Num país cuja política foi dominada, nos últimos anos, pelo magnata das comunicações Silvio Berlusconi, o romance tem endereço certo.

Estamos em 1992, ano do Tangentopoli, escândalo de corrupção que gerou uma devassa na política italiana e propiciou a entrada em cena de Berlusconi. Colonna, jornalista que escreve um livro sobre a breve experiência do “Amanhã”, é o típico fracassado na profissão e na vida.

Depois de atuar como “ghost writer”, ele se vê numa Redação com colegas também oriundos dos setores desprestigiados da imprensa –repórteres de porta de cadeia ou de revistas de paparazzi.

Durante as reuniões de pauta, proliferam lugares-comuns sobre a venalidade da imprensa e a elaboração de dossiês fajutos. A maior teoria da conspiração, porém, nasce ali mesmo, pela voz de Braggadocio, que encasqueta que Mussolini não morreu ao fim da Segunda Guerra, asilando-se na Argentina, e que seus asseclas articularam um retorno do Duce que explicaria todas as misérias da recente história italiana (atentados de direita, Brigadas Vermelhas, sequestro do premiê Aldo Moro, “assassinato” do papa João Paulo 1º).

E se o tom exagerado de Eco satiriza a obsessão italiana por complôs, um crime vem pôr fim ao embrião do jornal e acrescenta mais uma conspiração às teorias persecutórias do romance, que assim morde o próprio rabo.

“Número Zero” está distante das digressões eruditas e da imaginação histórica de romances como “O Nome da Rosa” ou “O Pêndulo de Foucault”, nos quais também havia sociedades secretas, exigindo familiaridade com a cena política atual. Mas a comparação final da Itália com uma grande Copacabana da corrupção facilita a tarefa do leitorado brasileiro.

NÚMERO ZERO
AUTOR Umberto Eco
TRADUÇÃO Ivone Benedetti
EDITORA Record
QUANTO R$ 35 (208 págs.)
AVALIAÇÃO bom

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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