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A rebelião dos tártaros

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Thomas de Quincey, talvez como expressão de um surto, descreve no conto “A Rebelião dos Tártaros” as latitudes de um povo que vê na fuga a forma oblíqua de rebelião. A comparação pode ser feita com a expansão dos fatores que geram ou deveriam gerar inovação no Brasil.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria indica que 6 em cada 10 empresários consideram o grau de inovação da indústria baixo ou muito baixo. Muitos, no entanto, declaram buscar em algum tipo de inovação a solução para a diminuição de custos de fornecedores e melhoria do produto.

Na opinião das empresas, alguns dos motivos da baixa expansão são a ênfase dada à importação ou à cópia, a baixa cultura de inovação nas empresas, a dificuldade do diálogo com as universidades e o baixo nível de formação dos profissionais.

Outros aspectos conjunturais podem ser adicionados, como a trajetória entre a patente solicitada e sua inserção produtiva. O percurso do requerimento até a concessão da patente pode levar de 11 a 14 anos.

Se considerarmos que, entre a patente concedida e a atividade produtiva, a empresa pode decidir pela perda de competitividade do produto, esse tempo pode vir a ser infinito, ou seja, não se realizar.

Algumas das causas desse longo trajeto se relacionam às condições estruturais. Em 2013, no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, a razão entre os pedidos de patentes e o número de examinadores era de 980. Na Europa, em 2012, era 91. Nos EUA, 77. Com efeito, dados divulgados em 2013 revelam que o Brasil tinha 41.453 patentes válidas, contra 2,2 milhões nos EUA, 1,6 milhão no Japão e 875 mil na China.

No Brasil, universidades como Unicamp, USP e UFMG estão entre as quatro maiores detentoras de patentes. Só perdem para a Petrobras.

De um lado, essa presença expressa certa abstinência das empresas privadas em manter centros de pesquisa e desenvolvimento. Só 3% dos doutores em atividade no país trabalham em pesquisa em ambientes empresariais.

De outro, associa-se ao crescimento das publicações científicas. Nos últimos 20 anos, o país subiu dez posições nesse ranking, alcançando o 14° lugar.

A inovação no país está quase que totalmente associada ao conhecimento produzido nas universidades. O que significa uma cadeia de decorrências adicionadas, como organização da pesquisa, regras de financiamento e de avaliação da pós-graduação, organização e gestão dos currículos de graduação, formas de regulação e de avaliação da educação superior.

Além disso, fazem parte dessa cadeia o modelo da carreira docente, sistemas acadêmicos de proteção à propriedade intelectual e mecanismos institucionais de transferência ou associação entre universidades, centros de pesquisas e empresas.

O êxito dessas ações em inovação e competitividade está vinculado à qualidade da governança que se estabelece nas universidades e institutos de pesquisas. A avaliação institucional poderia combater obstáculos indiretos à inovação e constranger outros mais diretos.

A fuga pode servir para o desfecho de um processo de rebelião. A transformação, no entanto, deve superar os fatores constitutivos da conservação e considerar que mudanças só ocorrem quando alterações mais amplas são realizadas.

LUIZ ROBERTO LIZA CURI, sociólogo, é doutor em economia e membro do Conselho Nacional de Educação, do Ministério da Educação

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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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