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Arquivo Aberto – O caçador de imagens do cinema nacional

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Nos Anos 80, todas as vezes em que ia ao Rio dava uma passada na Cinemateca do MAM para encontrar o seu diretor –Cosme Alves Netto. Parafraseando Graciliano Ramos, “naquele tempo a escuridão ia se dissipando, vagarosa”.

Assim que entrava no corredor que dava acesso a sua sala, sentia-se o cheiro de vinagre dos filmes de acetato. Ali, eram guardados milhares de películas. Os seus auxiliares recortavam revistas, jornais ou perscrutavam algum filme numa enroladeira. Era o único ruído que se ouvia, tal era a atmosfera religiosa daquele silêncio. E, caso desse sorte, encontrava-se de lambuja algum ícone do cinema, por exemplo, o cineasta Alex Viany. Cosme, sempre gentil, apresentava-me: “Um cineasta do Amazonas”.

A minha sensação era que o Cosme, que sempre conheci de nome, existia fazia séculos, suas digitais encontravam-se por todo lugar daquela instituição. Ali era o seu território íntimo.

Naquele dia, um dos nossos assuntos foi a proibição no Brasil do filme “Je vous Salue, Marie”, de Godard. Cosme assuntava que a ala conservadora da ditadura ainda se mantinha viva e, pior, com força de mando. Como sempre fazia, ele se espreguiçava em sua cadeira e chamava melodiosamente: “Daaalva, traz um cafezinho”.

Arquivo pessoal de Cosme Alves Netto
O crítico José Carlos Avellar e Cosme Alves Netto nos anos 1980
O crítico José Carlos Avellar e Cosme Alves Netto nos anos 1980

Toca o telefone e Cosme atende. Num átimo, sem dizer nenhuma palavra, exibe uma expressão apreensiva. Dalva chega com o café. Cosme sequer toma um gole, sai às pressas e sem me dar satisfação.

Fico atônito diante do seu gesto inesperado. E, num impulso, sigo em seu encalço e ainda tenho tempo de alcançá-lo. Abro a porta do fusquinha, originalmente branco, mas sempre precisando ser lavado. Dentro do fusquinha, ainda sem nenhum comentário, Cosme continua com a mesma expressão. Ele sai do museu e entra no aterro do Flamengo sentido centro.

Procuro provocá-lo, tirar algum comentário que revelasse o motivo daquela obstinada fuga. Sei lá. Aos poucos, enquanto desvia dos ônibus e tenta ultrapassar um e outro automóvel, seguimos em meio ao trânsito daquele dia que chegava no meio da tarde. Cosme finalmente comenta que a cultura brasileira sempre deu prioridade a guardar papel; em qualquer cidadezinha do território nacional, segundo ele, existe um arquivo público, ao contrário das imagens, que, quando existem, estão somente nos álbuns de família.

Mas, àquela altura, estávamos entrando na avenida Brasil, naquele vai e vem de ônibus, automóveis e caminhões. Cosme finalmente pede que fique atento à área onde estão vários quartéis. Na altura da Penha, na área da Marinha, Cosme estica o pescoço e diz: “É ali, veja, estão ali”. Mas até então ele nada havia esclarecido e eu continuava boiando nos motivos que o fizeram sair às carreiras. Só me restava perguntar: “O quê Cosme?”. E ele responde: “Ali. Eles desovaram uma parte da nossa história”.

Era óbvio que estávamos numa área militar da Marinha. Distante da entrada principal havia um lixão de entulhos e nele podia-se ver um monte de latas de filmes, de 35 e de 16 mm. Cosme, sem se preocupar em querer saber o que identificava o conteúdo em cada uma daquelas latas –umas 15 ou 20–, pega uma, outra e mais outras. Enquanto o ajudo a arrumar as latas dentro do fusquinha, Cosme abre um sorriso e finalmente me revela o acontecido.

Alguém havia passado em frente ao quartel quando uns soldados jogaram naquele entulho aquelas latas de filmes. Esse anônimo ligou para a Cinemateca e, por acaso, foi atendido pelo Cosme, quer dizer, pela pessoa certa.

O mais extraordinário é que depois de muitos anos, ao realizar o filme-documentário “Tudo por Amor ao Cinema”, descobri que este não era um fato isolado, pelo contrário, o Cosme era conhecido como um fazedor de causos, e foram tantos, narrados por pessoas em diversos países, que acabei por batizá-los de “causos-cósmicos”.

Um deles, por exemplo, foi ele ter guardado clandestinamente na Cinemateca do MAM os negativos de um filme de Eduardo Coutinho, cuja produção teve início justamente às vésperas do golpe de 1964. Os golpistas tinham a equipe do filme como inimiga e, consequentemente, ele havia caído na lista negra da ditadura. Somente no início dos 80, o cineasta os resgatou e concluiu o filme com o nome de “Cabra Marcado para Morrer” (1984), hoje clássico do cinema brasileiro.

Por essas e outras podemos afirmar que Cosme Alves Netto (1937-96) fez dos filmes a história da sua vida.

AURÉLIO MICHILES, 62, é cineasta e dirigiu, entre outros, “Tudo por Amor ao Cinema”, que estreia nesta quinta (30).

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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