Deixem Michel Teló em paz: ninguém é obrigado a conhecer o 'blackface'



13/07/2015 – 15h41



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Coitadinho do Michel Teló. O cantor achou que estava abafando quando postou no Instagram, na quinta-feira passada (9), uma foto com a metade do rosto pintada de preto. Teló convocou seus fãs a fazer o mesmo como protesto contra o racismo, e até criou o hashtag #pintesuacara, para lançar modinha nas redes sociais.

O que ele ganhou em troca foi uma enxurrada de críticas: como que alguém se atreve a usar “blackface” em pleno 2015? O tribunal da internet abriu as portas do inferno e despejou sua ira sobre o sertanejo. Teló removeu a foto e soltou um pedido de desculpas, mas a pancadaria online continuou.

É verdade que um internauta partiu em defesa do cantor: “Michel Teló representa o brasileiro médio, que nem sabe o que é blackface”. Aí é que está o ponto.

O “blackface” surgiu nos Estados Unidos por volta de 1830 e foi muito usado durante mais de um século, primeiro no teatro e depois no cinema. Com o rosto coberto de graxa preta ou de fuligem de rolha queimada, atores brancos representavam negros estereotipados: preguiçosos, estúpidos, fanfarrões.

A técnica caiu em desuso quando o movimento pela igualdade racial ganhou força por lá, e hoje é um tremendo tabu. Até Beyoncé já foi criticada por pintar a cara de preto para uma sessão de fotos.

Aqui no Brasil o “blackface” também foi muito utilizado, inclusive nos humorísticos da TV. Mas igualmente foi deixado de lado, apesar de não ter se tornado radioativo como nos EUA.

Michel Teló

Quer dizer, agora se tornou. Ativistas negros brasileiros decretaram que o “blackface” é um símbolo de opressão, e eles têm toda a razão. Para muitos de nós, que acreditamos na balela de que somos um país sem racismo, é mais difícil de entender como uma simples maquiagem pode ser tão ruim. Mas pense bem: claro que é.

Acontece que esta ideia ainda está longe de penetrar na cultura popular. Primeiro, porque o “blackface” praticamente desapareceu do nosso showbiz, e o termo em inglês jamais foi usado entre nós. Então, muita gente nunca viu um ator de “blackface”, e mais gente ainda sequer escutou essa palavra.

Mas isto não interessa para os vigilantes que patrulham a internet. Se alguém comete uma gafe por pura ignorância, mesmo que carregado das mais puras intenções, pau nele.

Eu mesmo já fui atacado várias vezes por falar “o” travesti, substantivo que era masculino até outro dia (e ainda o é em Portugal). Ou por chamar uma mulher transgênero de drag queen, quando durante anos a fio ela mesma se apresentava como drag.

É preciso dar tempo para que as novas nomenclaturas sejam absorvidas pela sociedade. Nem todo mundo é militante de carteirinha, mas milhões de pessoas estão dispostas a acabar com o racismo, o machismo e a homofobia. Muito mais do que os que preferem manter esses preconceitos.

Para quê, então, nós vamos hostilizar quem já está do lado certo?

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com





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Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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