Depois de Obama, Putin

Depois de toda a efusão com que foi recebida por Barack Obama, Dilma Rousseff prepara-se para se encontrar com o maior desafeto do presidente norte-americano, um certo Vladimir Putin.

Será durante a 7ª Cúpula dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), a se realizar nos dias 8 e 9, em Ufá, na Rússia.

Mas o abraço com o urso russo será apenas cerimonial, porque o Brasil amenizou muito a ênfase que os anfitriões quiseram colocar na parte política do encontro.

Com apoio de Índia e África do Sul, que completam o trio de democracias multirraciais do bloco, a diplomacia brasileira prefere manter o foco na questão econômico-financeira, na qual acha que os Brics estão se dando bem.

Prova-o o fato de que a cúpula de Ufá servirá para consolidar o lançamento do Novo Banco de Desenvolvimento (ou banco dos Brics), um complemento para a instituição, o Banco Mundial, que cuida de financiamentos e é controlado pelos Estados Unidos.

Que havia empenho russo em politizar o encontro, em um momento em que Putin está em choque com o Ocidente, prova-o a “Gazeta da Rússia”, cujos textos principais são reproduzidos pela Folha.

Na sexta-feira, 3, a reportagem de capa terminava afirmando que, “com as divergências russas com o Ocidente, os Brics passaram a ter especial importância para Moscou, já que podem se tornar uma ferramenta para a reforma do sistema mundial como um todo, e não apenas no setor econômico”.

Não há, no esboço da Declaração de Ufá, que ainda está sendo retocado, nada que indique esse papel para os Brics.

No caso específico da Ucrânia, que é o fulcro do confronto Rússia/Ocidente, a declaração diz o óbvio: reitera a preocupação com a situação no país, diz que não deve haver solução militar para o conflito e defende o diálogo político como única saída. Puro bom senso.

A declaração também condena as sanções, mas de modo geral, sem situá-las no contexto específico das punições do Ocidente à Rússia.

Em sendo assim, o que surgirá de mais interessante em Ufá, sempre no território econômico, é um segundo documento, batizado de “Estratégia para a Parceria Econômica entre os Brics”.

O texto pode ser lido como um aceno, em um futuro muito remoto, à possibilidade de que seja criada uma área de livre comércio entre os cinco países do grupo.

Seria espetacular pelo simples fato de que tudo que envolve a China é espetacular por si só.

Entretanto, enquanto esse futuro remoto não chega, a parceria pretende trabalhar áreas que não interfiram com a política comercial de cada um dos cinco países do bloco.

Coisas burocráticas, mas nem por isso desimportantes, como a facilitação de comércio (jargão para reduzir a burocracia nas importações e nas exportações) e a padronização das certificações exigidas em cada um dos países para determinadas mercadorias.

Traduzindo: a cúpula vai, claro, falar de política (é impossível reunir chefes de Estado sem fazê-lo), mas, do ponto de vista do governo brasileiro, os Brics são um conglomerado para finalidades econômico-financeiras, não para mudar o mundo.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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