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Diário do Rio – Dos caracóis de Hermínio de Carvalho

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Cabelos brancos ao mesmo tempo escorridos e cacheados, que fizeram com que Chico Buarque o apelidasse de Samambaia, Hermínio Bello de Carvalho continua aprontando. Aos 80 anos, produz shows e discos, põe letra nas canções dos inúmeros parceiros, bate papo com os amigos na rua do Ouvidor. E acaba de publicar dois livros para marcar a data redonda: “Taberna da Glória e Outras Glórias” (Edições de Janeiro, 208 págs., R$ 44,90) e “Meu Zeppelin Prateado” (Folha Seca, 88 págs., R$ 28).

O primeiro –organizado por Ruy Castro e que leva o subtítulo “Mil Vidas Entre os Heróis da Música Brasileira”– reúne uma série de perfis de artistas da admiração do autor, e dos quais foi íntimo. É um desfile impressionante: Clementina de Jesus (que ele “descobriu” nas festas pagãs da Igreja de Nossa Senhora da Glória), Pixinguinha, Cartola, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Tom Jobim, Sarah Vaughan, entre muitos outros que vão aparecendo aqui e ali.

Para completar a seleção, o pesquisador Rodrigo Alzuguir traça, com riqueza de detalhes, o retrato do próprio retratista de estrelas. O volume ainda traz um álbum com fotos raras do arquivo pessoal de Hermínio.

Zanone Fraissat/Folhapress
Hermínio Bello de Carvalho participou de debate na FLIP, em Paraty, ao lado de Jose Ramos Tinhorão e com mediação de Luiz Fernando Vianna
Hermínio Bello de Carvalho participou este ano de debate na FLIP, em Paraty, ao lado de Jose Ramos Tinhorão e com mediação de Luiz Fernando Vianna

Como escritor, ele tem um estilo único: barroco, lírico, e sem papas na língua quando é preciso. No texto que abre a coletânea, Aracy de Almeida surge inteira, na sua casa do Encantado, entre colares e parangolés, com suas gírias (à primeira vista, todos para ela eram “matusquelas”), suas idiossincrasias e sua pansexualidade. Descobrimos que Araca, como Caetano Veloso, gostava de andar de cuecas. Só que as suas eram as clássicas samba-canção.

“Meu Zeppelin Prateado” enfeixa a produção poética recente de Hermínio, com versos como este: “Dizem que à meia-luz/ Até um morcego se embeleza”.

Porto das artes

Com as obras na zona portuária, o largo de São Francisco da Prainha e o morro da Conceição evidenciaram sua vocação para a cultura, o lazer e o turismo. E também para a especulação imobiliária, que veio a reboque. Para manter os moradores no local e fazer com que eles participem do processo de mudanças, surgiu a Casa Porto, que está completando dois anos de existência.

O sobrado no número 8 do largo oferece café-bar, exposições, exibição de filmes, shows, cursos e debates. Com patrocínio do Porto Maravilha, todas as atividades são gratuitas. Terça, dia 28, será a vez de um bate-papo com os integrantes do bloco carnavalesco Escravos da Mauá, cria da região.

“Não gosto da palavra revitalização. Quero mostrar que a vida cultural sempre existiu aqui, e que pode continuar existindo”, diz o editor Raphael Vidal, um dos idealizadores do projeto, que há oito anos mudou-se para o morro da Conceição.

OURO E ESCRAVOS

Bem perto, no moderno Museu de Arte do Rio (MAR), está em cartaz a exposição “Rio Setecentista: Quando o Rio Virou Capital”, que ilumina a importância do porto, determinante para a radical transformação da cidade na segunda metade do século 18, quando a antiga capitania se tornou o centro político e econômico da colônia.

Por ali não só entravam os escravos –sobretudo pelo Cais do Valongo, sítio histórico redescoberto com as obras– como também saía o ouro extraído das Minas Gerais. Essa movimentação e o surgimento de uma classe média estão documentados em cerca de 700 peças de artistas da época e de agora: Adriana Varejão, Guignard, Augusto Malta, Carlos Julião, Rugendas, Debret, Mestre Valentim, entre outros.

A ESFIHA REAL

Espalhado pelas redes sociais, o boato caiu como bomba: a Rotisseria Síria Libanesa, no largo do Machado, teria aderido aos preços “surreais” em voga no Rio. A esfiha –considerada a melhor da cidade– estaria custando R$ 10.

Uma simples passada na Galeria Condor –nome que ficou embora os cinemas da distribuidora tenham se transformado em igrejas evangélicas– desmente os fuxiqueiros: a esfiha e o quibe saem a R$ 5. E o movimento continua absurdo, principalmente na hora do almoço. Uma refeição para dois –arroz com lentilha e pimentão recheado, por exemplo– vale R$ 28. Os “brimos” sabem o que fazem.

ALVARO COSTA E SILVA, 52, o Marechal, é jornalista e colunista da Folha.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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