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Ex-ditadura, Mianmar não tem termos para 'privacidade' ou 'computador'

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É a aurora da democracia em Mianmar. No entanto, os birmaneses não têm uma palavra para isso. Enquanto essa ex-ditadura se abre para o mundo, a língua pode causar tropeços.

Por meio século, Mianmar ficou tão isolada do mundo exterior que as pessoas eram presas por possuir aparelhos de fax sem autorização. Enquanto o resto do mundo disparava para a era da informática, a rígida censura de publicações, o acesso limitado à mídia global e as péssimas conexões com a internet prejudicaram a evolução da língua birmanesa, deixando-a sem palavras essenciais do vocabulário político e técnico moderno.

Adam Dean/The New York Times
Jornal é impresso em Yangon, Mianmar; vocabulário nativo não tem palavras para conceitos políticos
Jornal é impresso em Yangon, Mianmar; vocabulário nativo não tem palavras para conceitos políticos

Muitas palavras estrangeiras estão sendo importadas às pressas, mas seu significado se perde na tradução.

A palavra inglesa “democracy” foi incluída na língua de Mianmar há décadas, mas, para muitos, continua sendo um conceito estrangeiro e quase abstrato. Não há palavras nativas para ideias como racismo, federal ou globalização.

“Os birmaneses têm um vocabulário político muito mais pobre que o inglês”, disse U Thant Myint-U, assessor da Presidência. “Em uma época em que tudo tem a ver com o futuro político do país, é uma desvantagem e um fator restritivo.”

Quando especialistas estrangeiros recomendaram que o governo propusesse uma lei de privacidade em computadores, tradutores birmaneses tiveram dificuldade porque não há uma tradução exata para “privacidade” em birmanês. A ideia talvez nem exista.

Sob o regime colonial britânico, palavras em inglês foram inseridas no birmanês. Mas os governos militares xenófobos das últimas cinco décadas proibiram o uso de palavras inglesas, alegando que elas causavam confusão cultural.

Desde que os militares oficialmente abandonaram o poder em 2011, muitos estrangeiros vêm entrando no país. Thant Myint-U, cujo avô U Thant foi secretário-geral da ONU nos anos 1960, diz que esteve em reuniões entre o presidente e estrangeiros em que a tradução foi feita por alguns dos melhores intérpretes do país. “Dez por cento ainda se perdem na tradução”, disse ele.

Vicky Bowman, ex-embaixadora britânica em Mianmar, diz que 10% é um cálculo otimista. “Eu diria que é mais algo como 30% a 50%.”

A estrutura da língua birmanesa, que faz parte da família linguística sino-tibetana, difere consideravelmente da inglesa.

O birmanês escrito não tem espaços entre as palavras e é geralmente mais prolixo que o inglês. Até mesmo termos e sentenças que não são difíceis de traduzir podem ter matizes de significado muito diferentes.

ESTADO DE DIREITO

A expressão “Estado de direito” tornou-se um mantra para Aung San Suu Kyi, prêmio Nobel da paz que estudou no Reino Unido e é um ícone da democracia. Porém, aos ouvidos de muitos em Mianmar, “Estado de direito” soa como exortações dos generais ao cumprimento da lei… militar.

Os birmaneses mais jovens estão crescendo expostos à tecnologia moderna e a conceitos estrangeiros, criando um abismo de vocabulário entre as gerações.

Uma desenvolvedora de aplicativos de celular de 21 anos que cria apps para o sistema Android, Ei Myat Noe Khin, diz que seu trabalho é um mistério para algumas pessoas de sua família.

“Não há palavra em birmanês para ‘desenvolvedora’, então usei a palavra inglesa para ‘programadora'”, disse ela. “Quando eles não entendem, eu digo: ‘É o que tem dentro do seu telefone que o faz funcionar’.”

“Eles dizem: ‘Ah, tem a ver com computadores!'”

E dizem isso usando a palavra em inglês. Não há palavra birmanesa para computador. Aliás, nem para telefone.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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