Últimas

No Vietnã, ex-combatentes locais e veteranos dos EUA abrem caminho para conciliação

  • Christian Berg/The New York Times

    Nguyen Tien (sentado, à esq.), ex-soldado vietcongue que perdeu uma perna na guerra contra os EUA, confraterniza com Larry Vetter (em pé), veterano norte-americano

    Nguyen Tien (sentado, à esq.), ex-soldado vietcongue que perdeu uma perna na guerra contra os EUA, confraterniza com Larry Vetter (em pé), veterano norte-americano

Os veteranos de guerra norte-americanos e vietnamitas, antigos inimigos, estavam sentados juntos em mesas de piquenique de madeira, comendo hambúrgueres com pimenta, ao som de Creedence Clearwater Revival.

Do Hung Luan, ex-vietcongue que foi preso e torturado durante nove anos pelos aliados sul-vietnamitas dos Estados Unidos, comia hambúrguer e asas de frango com pauzinhos.

Do lado dele estava Nguyen Tien, que usa uma perna de madeira para substituir a que perdeu para a artilharia norte-americana durante a guerra.

“Sinto que existe amizade”, disse um Tien sorrindo, cercado por veteranos norte-americanos que pareciam ter três vezes o seu tamanho. “Fechamos a porta para o passado.”

A festa de 4 de Julho, a poucos metros do local que os soldados norte-americanos costumavam chamar de Praia da China, foi organizada por Larry Vetter, um texano e fuzileiro naval aposentado que se mudou para o Vietnã há três anos para viver entre algumas das pessoas que um dia ele teve a obrigação de matar. 

“Todo mundo é tão amigável”, disse Vetter. “É quase incompreensível a forma como eles aceitam os norte-americanos.”

Christian Berg/The New York Times

4.jul.2015 – Larry Johnson, veterano norte-americano, faz churrasco com vietnamitas em festa para a Independência dos EUA

Nos últimos anos, o Vietnã e os Estados Unidos se aproximaram tão rapidamente que até mesmo os arquitetos da reconciliação consideram-na surpreendente. Isso ficou mais evidente na terça-feira (7), quando Nguyen Phu Trong, chefe do Partido Comunista do Vietnã, símbolo daquilo que os EUA combatiam, visitará a Casa Branca pela primeira vez.

“É realmente o ponto mais alto do estabelecimento de relações diplomáticas”, disse Antony J. Blinken, vice-secretário de Estado dos EUA, em uma entrevista. “Um alto funcionário vietnamita me disse: ‘com essa visita, não há como voltar atrás nesta relação.'”

Autoridades vietnamitas descreveram a visita, que acontece quatro décadas após a queda de Saigon, como a aceitação norte-americana à legitimidade do governo do Partido Comunista. As autoridades norte-americanas têm uma interpretação diferente, dizendo que ela é significativa porque Trong, que também assinou um acordo com a Boeing, era considerado um dos principais céticos quanto aos Estados Unidos entre os líderes vietnamitas.

A geopolítica que está unindo os dois países, 20 anos depois que eles normalizaram as relações, é a ascensão da China ao poder e o desejo dos EUA e do Vietnã de cultivarem alianças para contrabalancear isso, de acordo com autoridades. 

O Vietnã está pressionando os EUA para reconhecerem oficialmente o país como uma economia de mercado e retirarem o embargo à venda de armas letais ao país. Um acordo para retirar a proibição de armas não-letais foi aprovado no ano passado.

Os vietnamitas também estão incentivando os Estados Unidos a terem uma maior presença militar na Ásia.

“Entre todas as escolhas, o Vietnã prefere a Pax Americana”, disse Le Van Cuong, general aposentado que há cinco décadas estava lutando contra os EUA.

Como muitos outros oficiais vietnamitas, ele é franco sobre sua desconfiança em relação à China, que considera um inimigo comum para os EUA e o Vietnã. Existe uma antipatia de longa data do Vietnã em relação à China, com a qual o país travou uma guerra de fronteiras em 1979 e entrou em conflito por reivindicações territoriais no Mar do Sul da China.

“O principal objetivo dos chineses é expulsar os Estados Unidos do cenário geopolítico e se tornar a potência número 1”, disse ele. 

O Vietnã e os EUA são dois entre uma dúzia de países que negociam um amplo acordo de livre comércio conhecido como Parceria Trans-Pacífico. O acordo não inclui a China. Os vietnamitas veem o acordo como uma forma de, entre outras coisas, ter um comércio mais direto com os Estados Unidos que não seja intermediado pela China. 

Nos anos que se seguiram à guerra, a desconfiança era grande entre os Estados Unidos e o Vietnã, mas os dois países superaram uma série de questões complicadas. 

O Vietnã é agora uma sociedade entusiasmada com o capitalismo, tendo abandonado a maior parte dos resquícios do planejamento econômico décadas atrás. Os vietnamitas têm cooperado na busca e repatriação dos restos mortais de norte-americanos mortos ou desaparecidos na guerra.

Três anos atrás, os EUA começaram um programa para mitigar os efeitos do Agente Laranja, o químico usado para derrubar as folhas das árvores e que acredita-se ter causado defeitos de nascença e outras doenças, embora os críticos digam que a Casa Branca não fez o suficiente. 

Os EUA, por sua vez, dizem que o Vietnã deveria permitir mais liberdade de expressão e afirma que o país tem cerca de cem presos políticos.

Norte-americanos que vivem no Vietnã dizem que sempre se surpreendem como são bem recebidos e acolhidos pelos vietnamitas. 

Numa pesquisa publicada este ano pelo Pew Research Center, 78% dos vietnamitas disseram ter uma opinião favorável sobre os Estados Unidos. Entre aqueles com menos de 30 anos de idade, este número foi de 88%.

“O que é realmente estranho aqui, e eu tive muita dificuldade de entender, é que por algum motivo eles gostam mesmo dos norte-americanos”, disse David Clark, fuzileiro naval aposentado no Vietnã que se mudou para Da Nang em 2007. “E quando eles descobrem que você é um veterano, eles o convidam para jantar. O vilarejo inteiro aparece — e você é o convidado de honra.”

Talvez o veterano mais famoso a voltar ao Vietnã seja Pete Peterson, que foi nomeado pelo presidente Bill Clinton como o primeiro embaixador dos Estados Unidos após a normalização das relações em 1995.

Peterson, ex-piloto da Força Aérea, foi abatido sobre Hanói e passou seis anos e meio na prisão que os norte-americanos conhecem como Hanoi Hilton.

Na semana passada, durante uma viagem de volta a Hanói, ele foi a uma barbearia no prédio que foi construído no mesmo local do antigo bloco de celas onde ele ficou preso. 

“Eu estou sentado na cadeira e a menina, que era muito jovem, disse: ‘você já veio aqui alguma vez?'”

“Eu disse: ‘na verdade, sim, já vim. Eu morava bem aqui — debaixo dessa cadeira.”

Vietnã e Estados Unidos têm muito em comum agora, disse Peterson. Ele acredita que eles estão destinados a serem fortes aliados. Mas quando ele pensa sobre a guerra, a morte e a devastação que ela trouxe, sente-se decepcionado. 

Se os Estados Unidos e o Vietnã são aliados tão naturais, por que eles precisaram lutar antes de mais nada?

“Pensei sobre isso um bom tempo”, disse Peterson. “Estou convencido de que a guerra poderia ter sido evitada se tivéssemos feito o esforço para entender a política do lugar.”

Tradutora: Eloise De Vylder

Fonte: Bol.com.br

Deixe seu comentário

Comentários via Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *