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'Racionalmente, ninguém escreveria livros infantis', diz Adriana Falcão

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Sempre que decide escrever um livro infantil, Adriana Falcão, 55, sabe que as filhas irão reclamar. “Falam para eu parar de inventar mais coisas para fazer e descansar um pouco, pois estou muito estressada”, conta a autora.

Roteirista de séries da Globo há 20 anos, Adriana espreme a criação de novas histórias infantis nas poucas brechas que encontra no trabalho. “Literatura é a coisa de que mais gosto na vida. Só que não dá dinheiro no Brasil. Como não consigo viver de livros, uso a noite ou o fim de semana para escrever”, diz.

“Se você pensar racionalmente, não encontra nenhum motivo para fazer um livro para crianças. É só o desejo mesmo. É inexplicável.”

A autora participará neste sábado (4) de um debate na tenda da Flipinha, em Paraty (RJ), com a escritora Alessandra Roscoe e o ilustrador Odilon Moraes. A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) acontece até o domingo (5).

Leia a entrevista abaixo.

Bruno Poletti/Folhapress
Adriana Falcão na edição da Flip de 2014
Adriana Falcão na edição da Flip de 2014

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Folhinha – Como concilia a carreira de roteirista e escritora?
Adriana Falcão – Literatura é a coisa de que mais gosto na vida, principalmente para o público infantil e juvenil. Só que não dá dinheiro no Brasil. Como não consigo viver de livros, uso a noite ou o fim de semana para escrever. Estou fazendo agora, por exemplo, um trabalho para a Globo que vai ser estrelado pela Taís Araújo e pelo Lázaro Ramos. Mas é algo muito trabalhoso, toma o meu dia inteiro. Para fazer literatura, sinto que tenho que me roubar de mim mesma.

As ideias para os livros surgem no dia a dia corrido?
Elas vêm naturalmente. Vejo alguma coisa e penso: “Nossa, isso dá um livro para criança”. Aí luto contra o tempo, a lógica, a razão, contra tudo. Só para poder escrever. Minhas filhas falam para eu parar de inventar mais coisas para fazer e descansar um pouco, pois estou muito estressada. Mas é uma vontade inexplicável, eu quase me sinto obrigada a escrever para crianças. E, quando vejo, já escrevi.

Mas também existe prazer envolvido na hora de escrever, não?
Claro. Sou muito feliz no que faço. Há 20 anos trabalho na Globo, sempre com seriados semanais. Preciso de muita dedicação para que os trabalhos fiquem realmente legais. Por isso faço milhões de coisas ao mesmo tempo. Mas a vontade de escrever um livro infantil e contar determinada história para crianças sempre existe. É um desejo constante.

Mesmo com pouco retorno financeiro…
Mesmo sem retorno financeiro ou de público. Há alguns anos, soube que “Mania de Explicação” era meu livro mais vendido. Não lembro exatamente o número de exemplares, mas vamos dizer que seja algo em torno de 200 mil. Na mesma semana, um episódio que eu tinha escrito para “A Grande Família” havia sido visto por 17 milhões de pessoas. Percebe a diferença? O livro mais vendido em toda a minha vida atingiu menos de 10% do público de um episódio! Se você pensar racionalmente, não encontra nenhum motivo para escrever um livro para crianças. É só o desejo mesmo, a vontade. É inexplicável.

Qual é o seu contato com crianças?
Eu tive três filhas, sendo que a Tatiana nasceu quando eu era muito jovem —apenas 17 anos. Dez anos depois, eu tive a Clarice. E, após três anos, a Isabel. Ou seja, fui mãe de criança pequena a vida inteira, sempre com muito contato com o universo infantil. Fui avó muito cedo também. Minha neta, a Isadora, tem cinco anos hoje. Semana passada, por exemplo, a gente foi ao cinema assistir a “Divertida Mente”. Depois ela dormiu comigo, só nos duas. A relação com a criança me alimenta muito.

Existem temas que não podem ser tratados em um livro infantil?
Meu último livro para crianças foi feito depois que me separei, coincidentemente quando minha neta nasceu. Eu estava em um momento difícil, tinha acabado um casamento de mais de 20 anos, e decidi falar sobre aquilo para crianças. Foi assim que nasceu “A Gaiola”, que trata de separação. Agora estão fazendo uma adaptação para o teatro dessa história.

Acho que é possível falar sobre qualquer tema. O grande segredo é como tratá-lo no universo infantil. Nunca me esqueço de quando li “A Menina Nina”, do Ziraldo, pela primeira vez. Eu tive uma crise de choro que não passava, de tão linda e triste que é a historia. Fala sobre a morte da mulher dele para a neta.

Os autores atuais tratam bem desses assuntos sérios para as crianças? Como avalia a literatura infantil contemporânea?
Faço tantas coisas que não tenho tempo nem para ver televisão ou seriados —algo que eu deveria fazer. Às vezes, chego nas reuniões e me perguntam: “Você viu a última temporada de ‘Homeland'”? Caramba, eu vi só o primeiro episódio. Com a literatura é ainda pior. Estou muito por fora, tanto na infantil quanto na adulta. Quando eu terminar esta entrevista, por exemplo, vou para a aula de piano. Depois, o Jorge Furtado vai me chamar no Skype para falar sobre um novo seriado. Não dá tempo de acompanhar a literatura infantil.

Você disse que seu livro será adaptado para o teatro. Qual sua participação nesse processo?
Gosto sempre de acompanhar, porque é uma delícia. Mas minha praia sempre foi mais a literatura que o teatro. Em “Mania de Explicação”, porém, que teve a Luana Piovani e direção do Gabriel Villela, acabei assinando a adaptação.

“Luna Clara & Apolo Onze” vai ganhar adaptação para a TV. Quando deve estrear?
Sim, já escrevi a adaptação também. A Globo aprovou para ser produzida em 2016. Pode ser uma minissérie de quatro capítulos ou um especial. Tomara que dê certo, porque é meu livro favorito. Tenho muito carinho por ele. Nem sei bem dizer o porquê, mas meu escritório é cheio de ilustrações de “Luna Clara”.

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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