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Tela de Cézanne no Masp é revista como manifesto contra escravidão

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Quando a tela “O Negro Cipião”, de Paul Cézanne, chegou ao Brasil e entrou para o acervo do Masp, em 1950, o jornal “Diário de S. Paulo” noticiou que os “senhores da casa grande”, em referência aos patronos do museu, mostrariam o “famoso esquivo negro cézanniano à sociedade”.

Era comum naqueles anos de formação da coleção que se fizessem festas em torno da entrega de cada obra, tendo como anfitriões os ricos doadores por trás da aquisição.

Mesmo irônico, o tom do artigo da época tinha uma raiz histórica. Nos últimos anos, a tela exposta agora num novo recorte do acervo de arte francesa do Masp vem sendo revista à luz da luta abolicionista, tendo pesquisadores já chegado à conclusão de que, nesse quadro, Cézanne, morto aos 67, em 1906, fazia mais do que retratar um negro qualquer.

Divulgação
Imagem 'As Costas Açoitadas', que inspirou tela de Paul Cézanne, 'O Negro Cipião'
Imagem ‘As Costas Açoitadas’, que inspirou tela de Paul Cézanne, ‘O Negro Cipião’
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Seu “Negro Cipião”, tela de 1866, seria uma alusão explícita ao retrato de um escravo açoitado nos Estados Unidos publicada na revista “Harper’s Weekly” três anos antes de ele ter feito sua pintura.

Em plena Guerra Civil americana, essa imagem da dupla McPherson e Oliver, hoje na coleção do Metropolitan e reproduzida agora no Masp, causou comoção, chegando aos círculos ilustrados de Paris, onde o debate abolicionista então entrava em ebulição.

Na opinião de pesquisadores, Cézanne, que então vivia na capital francesa, só não teria visto a imagem, alvo de debate e símbolo do movimento contra a escravidão, se estivesse vivendo numa caverna.
Seu marchand à época, Ambroise Vollard, contava que o negro Cipião de Cézanne era um modelo vivo que costumava posar para artistas na Académie Suisse, em Paris, a escola onde Cézanne estudou.

Na fotografia americana, batizada de “Costas Açoitadas”, o retratado era conhecido como o negro Gordon, um escravo que fugiu do Mississipi, no sul do país, para se juntar às fileiras dos soldados do norte, então em guerra contra os Estados escravocratas.

Em detalhes, o texto narrava que Gordon conseguira escapar à perseguição ao longo de dias pelos pântanos do Mississippi e da Louisiana porque esfregou uma cebola no corpo, despistando os cães de caça de seus capatazes.

No quadro do Masp, Cézanne revisita a pose de Gordon, que parece se apoiar sobre um monte de algodão, em alusão ao trabalho dos escravos nas plantações do sul americano.

Nicholas Mirzoeff, da Universidade de Nova York, escreveu um livro em que compara as duas imagens.

“Essa pintura exagera o comprimento das costas do negro, demonstrando grande semelhança com a fotografia”, afirma Mirzoeff. “A textura da tela, com um vermelho que sugere sangue, também parece evocar os ferimentos de Gordon, enquanto o branco pode ser lido como um monte de algodão, o que dá a dimensão americana dessa imagem, que deve ser entendida no contexto do debate abolicionista.”

Mesmo lançado há quatro anos, o estudo de Mirzoeff encontra ressonância maior agora que conflitos raciais voltaram a pautar a obra de artistas contemporâneos, em especial no rastro de assassinatos de negros pela polícia americana.

ALEGORIA DA LIBERTAÇÃO
Jan Asante, uma designer britânica, também escreveu um artigo no ano passado em que enxerga o quadro de Cézanne como uma “alegoria da escalada dos movimentos pela libertação nas colônias”.

“Este debate é recente e está inserido nas discussões sobre identidade, negritude e histórias reprimidas”, diz Fernando Oliva, um dos curadores do Masp. “E a forma como esse quadro foi mostrado aqui desde os anos 1950 também traz esse debate para o país.”

Oliva fala do artigo que apresentava “O Negro Cipião” como “esquivo”, contando que o quadro “cativo” seria exibido por “senhores brancos interessados em sua captura para o patrimônio dos brasileiros”.

ARTE DA FRANÇA
QUANDO de ter. a dom., das 10h às 18h; até 25/10
ONDE Masp, av. Paulista, 1.578, tel. (11) 3251-5644
QUANTO R$ 25

Fonte: Folha de São Paulo
www.folha.com.br

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