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Barragem ameaça agricultores de Macacu perseguidos nos anos 60

Rio – Pouco depois de Guapimirim, no pé da serra a caminho de Nova Friburgo, se esconde um pequeno paraíso. Cachoeiras, morros e uma área verde que faz qualquer um esquecer que está a apenas 100 quilômetros do Rio. A aparente calmaria da zona rural de Cachoeiras de Macacu guarda uma história de 50 anos de luta. Nos anos 1960, agricultores que brigavam por terra foram perseguidos como comunistas.

Hoje, assentados, enfrentam de novo o risco devido à construção de uma barragem.
Joacy de Paula tinha 7 anos quando viu o pai ser preso. Era madrugada de 1º de abril de 1964 quando homens fardados arrombaram o barraco da família. João Correia de Paula, pai de Joacy, liderava a ocupação da fazenda São José da Boa Morte. Na época, a poucos quilômetros, o menino Dionísio de Jesus Neto foi expulso com os pais e a irmã de um lote na fazenda Quizanga por guardas do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária. No dia seguinte a casa foi queimada. As famílias levaram décadas para ter o pedaço de terra onde receberam O DIA
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Dionísio Neto teve a casa queimada após a família ser expulsa de uma fazenda. Agora, a terra obtida anos depois pode ser perdida com a barragem

Foto:  João Laet / Agência O Dia

Os relatos integram a pesquisa ‘Conflitos e repressão no campo no Estado do Rio (1946-1988)’, coordenada pela professora da Universidade Federal Rural do Rio Leonilde de Medeiros, divulgada nesta terça-feira. O estudo, que fará parte do relatório final da Comissão da Verdade do Rio, mapeou as vítimas até então anônimas de conflitos no campo durante a ditadura. A professora explica que a região abrigava movimentos de esquerda e chegou a ser chamada de ‘Havana brasileira’: “Isso fez com que o local merecesse uma atenção especial logo nos primeiros dias do golpe militar”, conta Leonilde.

Fabrício Teló, do grupo de pesquisa, explica que o estudo está sendo finalizado no momento em que o governo estadual anunciou a intenção de retomar a construção de uma barragem no rio que corta a região, o Guapiaçu. A obra pode alagar um local onde moram 800 famílias. “Na área em que está projetado o alagamento temos pessoas que vêm de trajetórias marcadas pela vulnerabilidade e por processos de expropriação que se intensificaram com a ditadura”, explica. Entre os ameaçados, mais uma vez está Dionísio de Jesus Neto.


Estudo mapeou as vítimas de conflitos no campo durante a ditadura em Cachoeiras de Macacu

Foto:  Arte O Dia

Os conflitos começaram depois que o presidente Getulio Vargas decidiu criar um “cinturão-verde” para produção de alimentos. Até hoje, os agricultores de lá produzem 11% dos legumes, verduras e grãos vendidos no Ceasa.

À época, o governo trouxe famílias de Minas Gerais e do Espírito Santo e entregou pequenos lotes de terra. Com o passar dos anos, a quantidade de áreas de cultivo doadas tornou-se insuficiente e os colonos passaram a ocupar fazendas onde não havia produção. Entre elas, a propriedade chamada São José da Boa Morte.

No fim de 1963, o grupo tomou a área e, em janeiro do ano seguinte, o presidente João Goulart desapropriou a fazenda. O golpe militar, porém, extinguiu o processo e provocou as cenas vividas por Joacy e Dionísio, quando eram apenas meninos. Agora, aos 59 anos, Joacy revela que o pai ficou quase um ano preso e foi amarrado a uma linha de trem para denunciar os “comunistas”. Joacy teve que trabalhar, e mesmo assim faltava comida em casa: “Além de prender, eles roubaram dinheiro e ferramentas. Passamos muita necessidade.”

Na família de Dionísio, 61 anos, a expulsão de Quizanga significou uma vida de escravidão na Colônia Agrícola Knust. Eles faziam de tudo na propriedade para poder morar, comer e ter o que vestir. “A gente trabalhava com o encarregado no pé. Se parasse para ir ao banheiro ou fumar era descontado no fim do mês. Era muito massacre.”

Depois de muita luta, um novo risco

Com a expulsão das terras, as famílias de Joacy de Paula e Dionísio de Jesus Neto passaram a perambular em fazendas para trabalhar por temporadas. Em 1975, o pai de Dionísio conseguiu um termo provisório de ocupação de 2,2 hectares — terra herdada por Dionísio, que até hoje não teve o processo de titulação finalizado: “Fiquei teimando pela terra e agora vem essa desgraça da barragem. Não tenho forças para começar de novo.”

Em 1979, em plena abertura política, a fazenda São José foi novamente ocupada e 90 pessoas foram presas. Entre elas, o pai de Joacy. Mas uma mobilização fez com que o grupo fosse libertado. A pressão também resultou no início da desapropriação da fazenda em 1981. Foi então que Joacy e a família conseguiram 12,8 hectares de terra. O pai dele morreu com 92 anos em 201.


Joacy viu o pai ser preso em 1964 e teve que trabalhar com 7 anos. Hoje vive no local. O avô de Dona Rosa foi torturado para entregar apoiadores do ex-governador Brizola

Foto:  Joao Laet

Roseli da Conceição de Maria, 62 anos, também tem uma história de luta. Nascida em uma zona rural perto de Campos, hoje ela é a Dona Rosa, de Cachoeiras de Macacu. Os caminhos que a trouxeram de tão longe deixaram dores e marcas. O avô era próximo, do ex-governador Leonel Brizola e de alguns de seus apoiadores. Com o golpe, em 1964, o avô foi preso e torturado no pau de arara para entregar os “comunistas”. Em 1967, a família foi trazida pelo estado para ocupar um lote em Cachoeiras de Macacu. “Quando pensa que botou o pé no chão, aparece a barragem”, desabafa ela, que pode ter o sítio alagado.


Projeto da barragem é criticado por especialistas

A Associação dos Geógrafos Brasileiros avalia que o projeto da barragem pode gerar grandes impactos sociais e ambientais e ainda assim não resolver o problema de abastecimento. O relatório aponta que no anúncio da obra em 2013 a necessidade era o aumento da demanda de água devido ao Comperj. Recentemente a justificativa mudou para a crise hídrica.

O governo diz que a barragem é necessária para ajudar o abastecimento de água da região metropolitana. O deputado Flavio Serafini, integrante da CPI da Água na Assembleia Legislativa, diz que faltam estudos para embasar a proposta. “A melhor alternativa é a recuperação ambiental das encostas”, defende. A Secretaria Estadual de Ambiente informou que não há previsão de início das obras e a licitação será feita após a conclusão do licenciamento.

Quanto às famílias, a secretaria diz que estuda a forma mais justa para indenização, que poderá ocorrer por pagamento, compra assistida ou realocação para outro assentamento. As hipóteses serão discutidas com os moradores e fechadas com comum acordo”, informa a secretaria por nota.

Originalmente matéria publicada no Jornal O Dia (http://odia.ig.com.br)

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