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João Câmara lança livro com litografias feitas ao longo de 20 anos

“João Câmara – litografias” é o sétimo livro lançado pelo artista com o resgitro de suas obras. Crédito: Nando Chiappetta/D.P./D.A. Press

O fato de João Câmara se considerar, sobretudo, um pintor, não o impediu de realizar uma produção prolífica em litografias, ou gravuras em pedra. Além de trabalhar este suporte com questões estéticas que se tornaram uma extensão de sua pintura, a atuação de Câmara como gravurista também fez parte de um período emblemático da arte pernambucana: a Oficina Guaianases de Gravura, cuja atuação ocorreu nos anos 70 e 80. É justamente a produção dessa época que o artista recupera no livro João Câmara – litografias, cujo lançamento acontece no próximo dia 19. Na ocasião, também será lançado seu novo site.

A publicação traz 326 litografias organizadas a partir de cinco categorias: Ensaios, estudos, diversões; a série Cenas da Vida Brasileira, uma das mais emblemáticas de seu trabalho; a série Dez casos de amor; Álbuns, cadernos, suítes e Litografias avulsas. O material reunido por ele se tornou uma reflexão tanto sobre a essência da pintura quanto da gravura em sua trajetória. “Há uma afinidade entre a palavra e a gravura. Esta última tem algo a ver com a escrita, serve tanto para prospectar quanto para comentar. A portabilidade faz dela algo documental, como um jornal. A gravura é mais ligada ao sistema narrativo, mais do que ao sistema expositivo da pintura. Esta última é o resumo de um percurso”.

Em depoimento registrado no livro, Câmara afirma que sua aproximação com a litogravura começou em 1970, após Gastão de Holanda propor a ele a publicação de um álbum com textos e imagens, sendo esse o suporte escolhido. O interesse do artista deslanchou a partir dessa experiência, durando até o início dos anos 90. “Parei com as litogravuras porque a pintura passou a tomar muito do meu tempo. Pintar não é um ato possível de se delegar. Já a prova da gravura pode ser entregue a um impressor. Além disso, a manutenção desses trabalhos tornou-se dispendiosa. Quando eu era jovem, via as dificuldades no ato de pintar e procurava formas de passar por elas, de contorná-las. Hoje em dia, percebo a necessidade de enfrentar os problemas, pois eles compõem a criação. Na verdade, raspo mais do que pinto. Isso torna o processo muito mais demorado”.

A edição também deixa entrever outra característica de João Câmara: o cuidado na difusão do próprio trabalho. Além de livros devotados à sua obra escritor por outras pessoas, ele se articula para editar suas próprias publicações com seu material iconográfico. É o caso deste lançamento, o quarto pela editora J.J. Carol, de São Paulo. “Há uma necessidade de ver tudo isso junto. A edição do livro permite mostrar como a litogravura apareceu no meu fazer e como isso se concluiu. É uma passagem de mão dupla, e acho que isso permite uma espécie de revisita”.

DETALHES DA OBRA


O artista visual foi um dos criadores, junto com Delano, da Oficina Guaianases de Gravura. Crédito: João Câmara/Reprodução
O artista visual foi um dos criadores, junto com Delano, da Oficina Guaianases de Gravura. Crédito: João Câmara/Reprodução

+Oficina Guaianases
Junto com Delano, outro artista plástico, João Câmara aglutinou vários outros interessados em aprender técnicas de litogravura na oficina. Instalada em 1974 em seu ateliê na Rua Guaianases, no bairro de Campo Grande, a iniciativa cresceu a ponto de precisar de um espaço maior, que foi o Mercado da Ribeira, em Olinda. A mudança aconteceu em 1979 e, oficialmente, as atividades se encerraram em 1995. “Na Guaianases, o artistas era estimulado a conhecer sua própria técnica. Os outros artistas pediam conselhos, era uma espécie de cozinha artística, de MasterChef”, lembra, com bom humor. O acervo está, atualmente, sob guarda da Universidade Federal de Pernambuco, para onde 2036 litogravuras foram doadas.

O painel
O painel “Inconfidência Mineira” foi feito para o governo brasileiro e está no Panteão Nacional de Brasília. Crédito: João Câmara/Reprodução

+Inconfidência Mineira
O painel Inconfidência Mineira está localizado no terceiro pavimento do Panteão Nacional de Brasília. É composto por sete paineis em acrílico sobre tela, tendo como fio condutor as fases da inconfidência e os últimos momentos da vida de Tiradentes. A pintura em preto e branco tem 21 metros de comprimento por 4 metros de altura. Cada quadro tem 3 metros de largura por 4 de altura e o conjunto foi finalizado em 1986. O livro traz versões em litografia de cada uma das partes da obra: O sacrifício, A conjura, A pregação, Morte de CMC [Cláudio Manoel da Costa], A farsa, A forca e O corpo.

A Série
A Série “Cenas da Vida Brasileira” é composta por cem litogravuras. Crédito: João Câmara/Reprodução

+Cenas da Vida Brasileira (1930-1954)
A série, realizada entre 1974 e 1976, é composta por dez pinturas e cem litografias que englobam o período Vargas e o conjunto desse trabalho foi adquirido pela Prefeitura do Recife em 1980. As cenas estão, atualmente, no acervo do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam). O livro traz as gravuras da série e mostra, nelas, instantâneos da vida pública e suas figuras de autoridade, como o próprio Getúlio Vargas, além de membros do clero e de militares. A isso, se somam as impressões estéticas do artista sobre a vida privada da época, fazendo uma crônica tanto do tempo. Após 1987, o artista fez réplicas das litografias da série em acrílico sobre tela.

João Câmara também investiu em litografia na série
João Câmara também investiu em litografia na série “Dez casos de amor”, dos anos 70. Crédito: João Câmara/Reprodução

+ Dez casos de amor e uma pintura de Câmara
A série começou em 1977 com um caderno de fontes e deu origem a um tríptico, dez pinturas, 70 gravuras, 22 montagens e três objetos. No livro, é possível ver a identificação técnica que Câmara deu às gravuras e a relação que elas tiveram com algumas das pinturas. Em A espera (foto), é possível ver as modificações pelas quais a obra passou desde seu registro como  fonte até o resultado final.

+Impressão
A partir de 2016, João vai voltar a investir em obras reprodutíveis, mas a partir de um novo viés. Sua casa, no Sítio Histórico de Olinda, vai abrigar um ateliê de impressão.

SERVIÇO
Lançamento do livro João Câmara – Litografias
Quando: Quarta-feira (19), às 19h30
Onde: Reserva técnica de João Câmara – Rua das Pernambucanas, 420, Graças
Preço: R$ 220

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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