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Jovem com deficiência visual escreve e ilustra livro infantil

Manuel Vítor é um escritor e contador de histórias que possui baixa capacidade visual. Ele lança neste domingo, às 10h, no Centro de Convenções, seu segundo livro, A Floresta Encantada II. Em depoimento ao Diario, ele contou sobre sua vida e tudo pelo que passou após adquirir sequelas em decorrência de cirurgias no cérebro aos 14 anos.

Por conta do tratamento do tumor no cérebro, Manuel Vítor acabou repetindo a 8ª série, mas conseguiu terminar o Ensino Médio e lançar dois livros. Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press
Por conta do tratamento do tumor no cérebro, Manuel Vítor acabou repetindo a 8ª série, mas conseguiu terminar o Ensino Médio e lançar dois livros. Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press

“Meu nome é Manuel Vítor Magalhães, tenho 22 anos de idade e escrevi um livro pela falta de publicações acessíveis no mercado literário a pessoas com alguma deficiência visual. Já fui para vários eventos, como a Bienal do Livro, e como não encontrava nenhum livro adequado para pessoas com baixa visão, surgiu a ideia de escrever A Floresta Encantada.

Tive uma infância bem tranquila e normal. Isso até os meus 14 anos. Foi em 2007 que minha mãe me levou até o oftalmologista, que disse: “Cláudia, Vítor tá com um tumor no cérebro”. Eu fui cirurgiado três vezes para retirar o tal tumor, e isso acabou deixando sequelas em mim. Desde então me tornei uma pessoa com deficiência visual.

Passei a enfrentar alguns problemas. Estudar na escola, encontrar emprego, me locomover… essas coisas ficaram mais difíceis de realizar. Eu estava na oitava série naquela época e, depois do que aconteceu, meus estudos atrasaram um pouco. Ainda assim, consegui concluir o ensino médio com esforço. Reprovei a oitava porque as cirurgias e a posterior deficiência ocorreram na metade do ano.

A convivência diária escolar foi difícil. Tive um professor de Geografia que simplesmente não me cumprimentava. Ele chegava na sala, dava bom dia a todos e ignorava quando eu falava com ele. Não dava aula para mim, sequer me olhava. Isso me magoou, mas com o tempo fui deixando para lá. Nessa disciplina, Milena, uma grande amiga, me ajudou muito nos afazeres, então consegui me sair bem. Passei por cima desses problemas e consegui me formar.

Meus pais representam tudo para mim. Não fosse por eles e pela força que recebi deles, não teria lançado meu livro. Inspirando-me em minha mãe, que é professora e contadora de histórias, falei: “Mainha, quero lançar um livro!”. Eles ficaram muito empolgados quando dei a ideia de escrever a história das aventuras de Vítor e Mateus na floresta.

Vítor é um menino que resolveu desbravar uma floresta e que, chegando lá, descobriu que ela era encantada. As árvores cantarolavam, os peixes do lago eram mágicos e os animais brincavam alegremente pela natureza. Vítor gostou tanto que chamou Mateus, seu melhor amigo, para também conhecer a floresta encantada.

Manuel Vítor recebeu dos pais o estímulo para escrever os dois livros que lançou. Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press
Manuel Vítor recebeu dos pais o estímulo para escrever os dois livros que lançou. Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press

Depois de conversarmos, decidimos levar A Floresta Encantada adiante. Mas minha mãe disse que era necessário alguém que editasse, que ilustrasse, que fizesse o acabamento do livro. Então respondi que eu mesmo poderia ilustrar. Só faltava ir atrás de uma editora que se interessasse em publicar o livro. 

Depois de passarmos por várias editoras e ouvirmos vários “nãos”, encontramos a Bagaço, que nos acolheu e resolveu utilizar os origamis e as pinturas que faço para ilustrar as páginas do livro, e o lançamos em 2013. Eu tinha feito um curso de contador de histórias no IFPE, através do Pronatec, um pouco antes, então essa estreia no mundo literário foi mais simples. Perdi a timidez e passei a ser convidado, junto com a minha mãe, para eventos em escolas e outras instituições para contar histórias.

Um ponto que eu quis incluir no roteiro de A Floresta Encantada I foi a questão racial. “Mãe, acho melhor que o amigo do meu protagonista seja negro. Que tal?”. Ela concordou na mesma hora. A continuação, A Floresta Encantada II, vai contar o que acontece com Vítor e o amigo Mateus ao conhecerem aquele ambiente mágico e fantástico.

Para o futuro, pretendo lançar mais três livros. O primeiro será a terceira parte de A Floresta Encantada. Depois, quero publicar uma coletânea de poemas. E, por fim, meu desejo é escrever a história da minha vida em forma de livro. Também quero tentar o Enem, para entrar no curso de Geografia pela UFPE muito em breve.

Desejo que, com a aceitação dos meus livros, o mercado literário se interesse mais lançar publicações acessíveis às pessoas na mesma condição que eu. Precisamos de mais livros tanto em Braile como com letras ampliadas. E também que as pessoas se lancem nesse mundo de escrever. Todo pessoa é capaz de contar histórias, não importa se tem alguma deficiência.”

Livros
Neste ano decidi realizar a segunda parte da história, em um novo livro. Assim nasceu A Floresta Encantada II, que será lançado neste domingo, às 10h, na I Fenelivro – a Primeira Feira Nordestina do Livro -, no Centro de Convenções de Pernambuco. Estejam convidados!”

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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