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Cheia de rio impede tartarugas de desovar no Amazonas

Neste ano, tartarugas da espécie Podocnemis expansa, conhecida como tartaruga-da-amazônia, não conseguiram desovar no Rio Purus dentro da Reserva Biológica do Abufari, próxima a Tapauá (AM). A causa foi uma cheia no rio. “Esse ano provavelmente vai ser um ano drástico. Vai ser um ano muito triste porque a gente vai perder muitos filhotes”, afirmou a ecóloga de Fauna Aquática da WCS Brasil, Camila Ferrara. A espécie é considerada criticamente ameaçada de acordo com o grupo de especialistas em tartarugas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). A reserva é o maior local de desova para tartarugas-da-amazônia em todo o Estado do Amazonas.

Todo ano, no mês de setembro, as tartarugas-da-amazônia aproveitam a baixa no nível das águas do Rio Purus para desovar. Ilhas de areia, que parecem pequenas praias, se formam no meio dos rios quando a água baixa e nesse espaço são colocados os ovos. O rio costuma baixar em meados de agosto, mas ficou cheio até a segunda metade de setembro.

A cheia forçou os animais a partir para barrancos próximos ou a se deslocarem para outras regiões. Estima-se que 2 mil fêmeas deixariam lá 200 mil filhotes. Camila explica que nos barrancos o solo é muito úmido e, por isso, não é possível saber se os ovos vão conseguir encubar. “Não é areia como é na praia. É barro. Além disso, em 2000, algo similar aconteceu, veio a chuva e tirou os ovos da lama. A perda foi muito grande”, conta.

Ir para outras regiões também não é uma boa opção. Algumas tartarugas conseguem encontrar praias diferentes para desovar, mas a caça, que é ilegal, faz com que muitas morram ainda no caminho. “A consequência mais grave foi o aumento da pressão de caça, porque elas saem da área da reserva em direção à cidade de Tapauá”, contou Camila. “Só em uma noite foram tiradas 44 redes de pesca específica para tartaruga.”

Um fenômeno parecido com esse aconteceu no ano passado. Por causa de um atraso na descida do nível do rio e uma subida mais rápida que o normal, apenas 140 mil dos 210 mil filhotes esperados nasceram. A possibilidade desse padrão continuar preocupa a ecóloga. “Essa flutuação de anos melhores, anos piores é normal. Então em um ano anormal a gente não vai sentir a diferença. A gente vai sentir o efeito na população se isso continuar ao longo dos anos.”

A previsão é de que os filhotes nasçam na segunda quinzena de novembro. Até lá, não é possível prever quantos vão sobreviver. Uma baixa na população de tartarugas-da-amazônia pode impactar também o ecossistema do local. “Elas são dispersoras de sementes e decompositoras. Ajudam na limpeza dos rios”, explica Camila. As jovens tartarugas também servem de alimento para alguns predadores, como aves, botos, jacarés e peixes. Outras espécies do mesmo gênero da tartaruga, iaçá (Podocnemis sextuberculata) e tracajá (Podocnemis unifilis), também são afetadas, mas o impacto nelas é menor. “Elas têm mais opções de local de desova.”

Rio cheio

De acordo com o superintendente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Marcos Oliveira, as cheias nos rios da Amazônia já foram notadas nos últimos anos. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Philip Fearnside, também comenta que as alterações foram sentidas anteriormente. “O Rio Purus já vem tendo grandes irregularidades na vazão. Seus afluentes passam pelo Acre, onde nos outros anos houve grandes secas e enchentes muito estranhas”.

Fearnside atribui esse aumento no volume das chuvas ao fenômeno El Niño e outras alterações climáticas nos oceanos. “Os extremos climáticos estão aumentando. Muito mais do que as médias de chuvas, o que está aumentando são os extremos. Isso é muito preocupante”, comenta.

Fonte: Diário de Pernambuco
Matéria originalmente publicada pelo site Diário de Pernambuco

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